Tinha-na na palma de sua mão. A princesa não lhe escaparia.

    Deleitara-se com as refeições que lhe prepararam. Comê-las não o lembravam de casa, todavia, saciava-se e recuperava as forças.

    Colocou os talheres sobre a mesa. Tomou o lenço do lado de seu prato e tateou a própria boca de leve. Um sorriso, ostentando adagas alvas, surgiu nela.

    Agarrou uma sineta com a outra mão e a balançou. Seu tilintar ardeu-lhe os ouvidos e fez veias saltarem em sua testa. Ainda assim, sua expressão sorridente permaneceu.

    Uma servente jazia de pé, há uns dois metros atrás dele, próxima a uma janela. Ignorou o chamado do sino, de cabeça baixa, e não ousou lançar uma única palavra.

    Num instante, as portas do salão de jantar rangeram. Outra mulher, trajada do mesmo uniforme, entrou no cômodo. A explosão dos encaixes no olmo titubeou num enorme eco, e a servente atrás de Malric permaneceu observando.

    Esse, por sua vez, dispensou-a com a mão. Arregalou os olhos, fez-lhe uma longa mesura, e partiu para a única saída. Os sons se repetiram, embora os dois que ali se encontrassem parecessem indiferentes.

    A mulher levantou os lados do vestido com as mãos e cruzou as pernas. Inclinou-se numa vênia profunda, e seus cabelos achocolatados caíram sobre sua tiara.

    — Chamou-me, mestre Malric? — Não ergueu a cabeça.

    O conde não respondeu. Tinha o lenço em mãos, apoiado na mesa, e dobrava-o. Quando terminou, esfregou-o até que ficasse livre de rugas.

    Em silêncio, a serva sequer fitou o que seu senhor fazia. De fato, estava de olhos fechados; pescoço caído, num ângulo fácil de ser apunhalado ou cortado sem resistência.

    — Encontraram-na?

    — Ainda não, jovem mestre.

    Malric esfregou a mão na mesa. Seu olho direito tremeu, e o sorriso em seu rosto desapareceu.

    Fazia uma semana desde sua desventura com aqueles caçadores. A princesa Alucaria e seu mordomo tiveram sua carruagem danificada; o próprio conde destruiu-lhes as rodas traseiras. Apple Hollow era sua única opção viável naquela região.

    Sendo assim, onde estava Alucaria Vlad Dracule?

    — No entanto — continuou a criada —, os moradores da cidade contam que poucos dias após nossa partida, caçadores eliminaram uma bruxa na Floresta de Redbrook.

    — E qual seria a relevância de tal informação para nossa busca? — indagou o conde, agora ajeitando as mangas de sua veste.

    — Os caçadores que a eliminaram têm o mesmo perfil daqueles que o interceptaram na Estrada da Rocha.

    — E? De que nos interessa este monte de fofocas irrelevantes, Mara?

    Malric Dornwald passou para sua gola, sem virar-se na direção da criada. Essa, por sua vez, ergueu o rosto de leve.

    — Relatos dizem que uma mulher de cabelos brancos os acompanhava, junto de um homem de meia idade.

    Num salto, colocou-se diante da empregada. Os cabelos dessa última remexeram-se com a parada abrupta do conde, que logo disse:

    — Erga a cabeça, Mara — urgiu, com os dentes à mostra. — O que mais sabe?

    — Sei que partiram para o Leste, muito provavelmente para a fronteira do Rio Fosco.

    Diante de suas palavras, Malric sorriu.

    — Perfeito! Vamos partir imediatamente! — Uniu as mãos num grande estalo. Seu coração começou a palpitar. Sentia os cabelos cor de leite já em suas mãos.

    — Isso não será possível, jovem mestre — Mara disse, outra vez curvada.

    — O que?!

    Todo o corpo de Mara reverberou com uma pressão invisível. Suas vestes pretas farfalharam e suas pernas e braços tremeram. No entanto, insistiu na cabeça baixa.

    Malric Dornwald ergueu-a pelo queixo; seu rosto era o de uma estátua, desinteressada com o mundo e seus assuntos.

    O conde vampiro cerrou os dentes.

    — Posso saber o motivo? — rosnou, seus nariz quase se tocavam. Mara não piscou.

    — A Arquiduquesa Carmesim requisitou um encontro com o Conde Malric — declarou, no mesmo tom de voz. — Imediatamente.

    Em resposta, o homem a soltou. Todo o frio do inverno recaiu sobre suas costas; o calor do verão, sobre seu peito. As sobrancelhas tremeram e sua garganta fechou-se.

    — Diga-lhe que a receberemos com prazer. — Tomou um lenço de bolso e o passou na testa. — No momento em que ela preferir.

    — Assim o farei, jovem mestre.

    Assim saiu Mara da sala de jantar, inexpressiva até o fim.

    […]

    Os gritos elevavam-se aos céus, e mulheres, crianças e homens corriam, uns em lágrimas, outros soluçando. Iam, claro, na direção oposta de Hansy e Grety, que ziguezagueavam entre os fugitivos, às vezes até saltando sobre suas cabeças.

    As colunas fumacentas agora davam lugar a piras de fogo. Um rugido ecoou; pedestres cobriram os ouvidos, outros caíram.

    Logo em seguida, um guincho transpassou seus ouvidos como finas agulhas. Grety cambaleou, e seu irmão a agarrou antes que perdesse o equilíbrio por completo.

    Encontravam-se numa estrada larga, próxima ao centro da cidade. Estilhaços de telhas jaziam sobre blocos de rocha, espetados por hastes de ferro. Vigas de madeira, que antes formavam tendas, ardiam em chamas, cobertas por tecidos fumegantes.

    Entre os destroços, haviam braços e pernas retorcidos, mas ainda ligados aos seus troncos. As vestes reduziram-se a cinzas; seus rostos alternavam entre os manequins sem vida de um alfaiate e as vítimas de um torturador de guerra.

    Ambos tornaram os olhares ao céu; lufadas de ar os confrontavam, quase levando seus chapéus.

    Por fim, a sombra gigante, diante das chamas, revelou-se. Um grande baque estourou em seus ouvidos.

    Viram um corpo de serpente de jade, de pé sobre duas patas, escamosas e grossas, cujas garras riscavam o concreto do chão. Mais acima, tinha duas membranas longas abertas como as penas de um pavão.

    Observou-os com a voracidade de um predador. A boca longa e fina jazia aberta, e as fileiras de adagas amareladas cobriam-se de saliva. Seus chifres eram uma coroa diminuta.

    Rugiu, e as chamas fizeram suas escamas de jade arderem num reflexo cristalino.

    — Wyvern! — gritou Gretel, sacando sua arma.

    No mesmo instante, usou o corpo do irmão de apoio. Rolou para sua direita, revólver em mãos.

    Hansel deixou que sua palma acendesse em fogo. Apertou a centelha que ali surgiu, e ela vazou para os dois lados. O fogo transbordou e afinou-se numa grande agulha. Hansy ergueu o braço. Inclinou-o para trás e pôs o pé direito à frente. Girou o quadril num arco e atirou a lança incandescente acima do ombro.

    O peito do Wyvern contorceu-se, e o dardo desapareceu atrás de seu corpo volumoso. Suas pupilas focaram no irmão Vonwyll, e estalos vieram de sua língua. Seu pescoço inchou-se como um balão.

    — Projéteis perfurantes! — gritou para Grety, antes de correr para a esquerda.

    Uma trilha de fumaça esverdeada o perseguiu até os muros destroçados. Num salto, apoiou-se nos tijolos ainda intactos. Usou do momento para subir até metade do segundo andar. Ali agarrou-se nas barras de ferro de uma janela e jogou-se para o lado do draconídeo.

    A névoa passou por cima de sua cabeça, e seu nariz ardeu. Os olhos lacrimejaram de leve, e sua visão embaçou por um instante. Lembrou-se na hora das poções que sua irmã fazia contra veneno de Wyvern Verdes.

    Já no chão, sacou sua espada. O vermelho tomou conta da prata escurecida.

    Ouviu-se outro estalo de língua, e a serpe esticou mais ainda suas asas para cima e para os lados. Sua cauda bateu no chão, levantando poeira.

    Brandiu sua lâmina, e uma rajada de chamas explodiu em cima do réptil. Suas asas balançaram e seu pescoço retraiu-se, mas suas escamas permaneceram imaculadas.

    Desta vez, Hansy que estalou a língua. Precisaria de uma Técnica perfurante, como a Lança de Fogo, ou do auxílio de sua irmã. Fitou-a de canto de olho; terminava ainda de trocar seus projéteis. O rapaz suspirou.

    Segurou a empunhadura com ambas as mãos. Deixou a lâmina na direção do Wyvern, erguida na altura do próprio peito. A besta seguiu sua movimentação com os olhos.

    Ecoou um som oco, junto de um estalo de madeira contra metal. Um risco esverdeado passou na visão periférica de Hansy numa linha reta. O draconídeo ganiu. Bateu com as patas no chão, e estilhaços e detritos subiram junto da poeira.

    Recolheu um dos seus apêndices e o levou na direção da face. Esfregou o olho direito e rugiu. Em seguida, abriu as duas asas de supetão e foi ter com o céu noturno.

    Sem hesitar, Hansel avançou contra a criatura. Deixou seu sangue efervescer, e o fogo de sua arma logo envolveu todo seu braço esquerdo.

    Fincaria-a no joelho e a usaria para desestabilizar seu vôo. Contudo, não alcançou as pernas a tempo.

    Viu, porém, o ferrão do Wyvern na tentativa de acompanhar o resto de seu corpo serpentino.

    Hansel apertou a mão em brasa no cabo de sua espada. Saltou, e num movimento diagonal, mirou na parte inferior da cauda, que estava na sua frente. Junto dele, viu o reflexo de outra lâmina, que ia mais na ponta do rabo.

    Amputou-a num corte limpo, que espalhou chamas na direção do corpo do Wyvern. Metade de sua cauda caiu no chão, fazia de vigor. No ponto que Hansel atacara, nenhuma gota de sangue escorreu.

    Seus ouvidos poderiam gritar de agonia, se fossem capazes. Ao cair no chão, o zunido dos choros do Wyvern o forçaram a cair de joelhos. Diante de si, escutou um baque similar, junto de resmungos de agonia.

    “Foco! Foco! Deixe o Foco fluir em sua mente.”

    Seus músculos enrijecidos soltaram-se, e ele se colocou de pé. Encontrou os olhos cinzentos de um homem de barba grisalha. Trajava vestes como as suas, que imitavam a noite escura por entre as chamas dos destroços.

    — Para cima! — gritou ele, com uma voz áspera de trovão.

    Hansel olhou para cima; o Wyvern conseguiu alçar voo. Um segundo risco surgiu da mesma direção que o anterior, mas o pescoço do monstro estalou para trás como uma árvore empurrada pelo vento forte, e o disparo falhou.

    — Temos que pará-lo antes que voe novamente! — Hansel disse ao outro caçador, que acenou com a cabeça.

    Flexionou os joelhos, e o jovem fez o mesmo. O Wyvern mantinha-se atento quanto aos virotes que o cegaram. Todavia, os dois que ali estavam, se usassem de força o bastante, poderiam alcançar suas pernas e o forçar de volta ao chão. Não trocaram mais palavras depois da afirmação de Hansel, porém se prepararam da mesma forma, com o mesmo objetivo.

    Ouviram então três estouros, junto de mais um urro de pesar. Gelo estourou em estacas azuladas nos músculos da asa direita do Wyvern. A outra bateu desesperada, incapaz de sustentar o corpo no ar por si mesma. Esse logo perdeu altitude e caiu para o lado em que fora ferido.

    — Toma essa! — uma voz familiar urrou nos ouvidos de Hansy. Grety, com o corpo escondido da cintura para baixo atrás de um acúmulo de tijolos, acenou com a mão direita.

    — De nada, maninho!

    Empurrou o chapéu para cima com o cano de sua arma. Tinha as bochechas enrubescidas e os dentes expostos num largo sorriso.

    Seu irmão respondeu com o próprio sorriso, embora não mostrasse os dentes.

    — Preparem-se! — O velho caçador, agora do lado de Hansel, acotovelou-o.

    Tornaram para a direção que ele olhava. A criatura, com uma asa ferida, elevou-se, com o corpo o mais esticado possível. Sangue escorria da fenda direita de seu rosto, por onde antes enxergava. O restante de sua cauda balançava, escurecida pelas chamas agora apagadas. Suas narinas explodiam em intervalos curtos, lançando correntes de ar na sua frente, e fumaça verde fugia de sua boca.

    — Esta caçada não acabou! — gritou o homem, e os três puseram-se em postura, prontos para continuar a caçada.

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