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    Após abrir a cortina que separa o corredor do banheiro da sala, Raisel enxuga o cabelo enquanto se depara com uma cena comum, mas que ainda é impressionante.

    No canto do quarto, o Sábio tem os olhos fechados, as palmas posicionadas próximo dos joelhos e as pernas em forma de borboleta. Dos arredores do velho, Rascunhos se formam constantemente, guiando uma linha fluída por múltiplos pontos como se o orbitasse.

    “Geralmente ele não medita em espaços fechados…” 一 Senhor Azlam, estava me esperando?

    Ao ouvir a voz do rapaz, a vista do ancião abre aos poucos.

    一 Sim. Você… foi bem hoje, mas amanhã contra a Hestásia será diferente 一 os pés descalços alcançam o solo, tocando sutilmente com a ponta dos dedos o carpete marrom.

    一 Ela é tão mais forte assim do que os outros? 一 sentando-se em uma almofada enorme, Raisel larga a toalha no chão.

    一 Não é só mais forte… Parando para lembrar, não te falei o que são os Campanários de verdade. Tem algum palpite? 一 incomodado com a falta de modos do garoto, Azlam guia a toalha molhada para longe com a ponta dos dedos.

    一 Hm… São pontos de defesa, eu acho. O pessoal que guarda aqui são os Patrulheiros. Já os outros dois eu não faço ideia.

    一 Está parcialmente correto. Os Campanários são bases de defesa e reconhecimento, mas sua operação interna é bem diferente entre si. Onde estamos, o Terceiro, atua como uma equipe de exploração e resolução rápida de problemas 一 à frente do menino, o velho flutua deitado em pleno ar.

    “Por isso vem o nome de Patrulha” 一 Entendi. E os outros dois? 一 penteando o cabelo usando as mãos, Raisel não encara diretamente o seu mentor.

    一 Mas existe outro nome para esse Campanário. Um nome popular bastante… discriminatório. Por ser o mais próximo do “mundo externo” e dos Impuros, na visão dos Puros, esse lugar é um reformatório. Uma punição para os jovens vistos como degenerados.

    Escutando aquilo, o rapaz cessa a vaidade e baixa o rosto. Com a mão no queixo, somente o barulho da folha d’água quente respingando ao fundo pode ser escutado.

    一 Então a Hestásia é como a “professora durona” que tem a obrigação de colocar aquele pessoal na linha… Ela é a mestra de todos eles. 一 uma espécie de suor escorre na lateral do semblante dele.

    Azlam apenas assente com a cabeça. 一 Sim, além de que ela observou seu modo de lutar. As chances de você ser obliterado sem conseguir fazer nada são altas.

    Mantendo a concentração sobre o seu raciocínio, as peças disponíveis estão mais limitadas do que o normal. Afinal de contas, todo o seu poder vem do aglomerado de habilidades que recebeu desde o início da sua vida.

    “Não posso usar o arco por conter energia de Leraje e usar Beisen está totalmente fora de cogitação por causa disso… Puxo uma batalha de esgrima? Não, ela também é uma espadachim, aquelas lâminas finas em sua cintura são feitas para o combate armado. O uso de Formel dela vai ser melhor do que o meu, além de que ela possuí as técnicas de Schaltung e o poder do Glanz de uma Constelação desconhecida… Não tem mesmo nenhuma alternativa?” 一 a palma afaga a região dos lábios sutilmente, mas com alguma constância.

    一 É… não consigo pensar em nada 一 suspirando, a palma recua para a nuca enquanto observa o ancião se mover.

    O velho caminha até as marcas de saída.

    一 Vem comigo. Essa será a última coisa que eu ensinarei à você. 一 de soslaio, Azlam põe a palma sobre a parede.

    O clarão esverdeado os leva para o lado de fora. Trajando uma camisola larga e sua calça de pijama, Raisel encolhe-se nos próprios braços por um instante, mas se protege do frio ao concentrar energia nos arredores de sua pele.

    “Bem melhor.” 一 E então, o que vai ser? 一 a friagem do fim da tarde emana vapores dos lábios dele no alto dessa ilha flutuante.

    一 Você… já se perguntou o que é o vento? 一 encarando o horizonte enquanto caminha para a borda do pedaço de terra, o ancião mantém os braços para trás.

    一 Hã… Não, mas parando pra pensar, deve ser o resultado de todo mundo que tá vivo se movendo ao mesmo tempo. 一 o garoto para logo atrás do senhor.

    Ao ouvir aquilo, Azlam segura algum riso.

    一 Está completamente errado. O vento faz parte da natureza, assim como a água, o dia e a noite. O som de tudo o que você ouve se propaga apenas por conta do vento. Daí vem a nossa audição melhorada como elfos: apenas conseguimos sentir as sutis vibrações no ar.

    一 Então você vai me ensinar a bloquear a audição da Hestásia?

    一 Não… Esse tipo de truque não funcionará contra alguém do calibre dela. Eu te ensinarei a impor a sua consciência, o seu Gewissen, na forma do vento. A arte hereditária que é passada por aqueles que herdam o título de Sábios do Vento: o Bludný Vítr.

    Com essas palavras, o fluxo da ilha muda por um único instante. O vento havia respondido ao chamado do seu único proprietário como se o saudasse. Essa sutil e quase imperceptível alteração fez Raisel cambalear para trás, perdendo inteiramente o equilíbrio, a audição e o fôlego.

    一 M-Mas quando estávamos no Moinho, você me disse que eu não poderia aprender por não estar pronto…!

    一 E não está completamente ainda, mesmo que tenha se aprofundado no Formel. Mas é a única alternativa restante 一 Azlam se vira para o garoto, apontando a sua palma em direção ao peito dele 一 Sente-se.

    As hesitações retornam à sua cabeça depois de muito tempo, mas ele as dissolve balançando o rosto para os lados. Atendendo a ordem, Raisel se acomoda no gramado e respira fundo.

    一 Recapitule tudo o que eu te ensinei… e diga que eu mandei um abraço à Éolo. 

    一 A que– Urgh…

    Antes que pudesse completar a dúvida, o peito do menino é perfurado por um feixe verde brilhante. Noutro instante, seu cadáver tomba para trás com os olhos dourados ainda abertos, mas com a pupila antes preta, tomada por um tom esmeralda.

    Na escuridão absoluta, o espírito áureo do menino vaga imóvel, atordoado pela recém-morte. Sua consciência chega até um colossal sol verde e, por fim, é capturado pelas suas mãos colossais.

    Ao abrir os olhos como um susto, o menino olha de um lado para o outro várias vezes. O calor do astro-rei sobre a pele, os campos de flores infinitos e um céu azul mágico que mais se parece com uma pintura.

    “Onde… eu estou?” 一 caminhando com cuidado para não amarrotar as flores diversas, ele percebe algo no horizonte.

    Uma espécie de palco ou plataforma, onde quatro figuras tomam chá tranquilamente. Entre elas, apenas um está nítido com uma aparência clara: um homem de cabelos brancos, vestindo uma roupa esquisita pela metade, sandálias altas e uma espécie de tiara ao redor da cabeça.

    一 É… com licença? 一 aproximando-se dessa reunião, acena para eles com a mão esquerda.

    Notando a presença de Raisel, as três figuras instáveis desaparecem como fumaça. O homem se vira lentamente enquanto se levanta do assento, deixando a xícara em cima da mesa.

    一 Você… o que um humano está fazendo aqui? 一 a voz soa adocicada e relaxante por mais que confusa.

    一 Azlam me mandou pra cá. Só não sei como. Você é Éolo? Ele disse que mandou um abraço… 一 coçando a cabeça, a sensação estranhamente desconfortável de conversar com alguém desconhecida está quase transbordando de seu corpo

    O jovem homem abaixa a cabeça com uma risada singela.

    一 Ele realmente faz o que quer, não é mesmo?

    一 O que? 一 Raisel cessa a mão para tentar entender melhor o sussurro do outro.

    一 Infelizmente, você ainda não consegue se encontrar com meu Pai, Éolo, mas eu repassarei a mensagem. Meu nome é Zéfiro, um dos Quatro Anemoi.

    À partir das costas de Zéfiro, um par de belas asas brancas se abrem e suas plumas se misturam com as diversas pétalas coloridas carregadas pela brisa da primavera.

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