Índice de Capítulo

    Anayê cerrou os dentes.

    A aberração lançou um olhar de surpresa para ela, mas depois seu semblante retornou para a calmaria.

    — Ora, ora, parece que temos convidados — a criatura falou.

    Os cidadãos do vilarejo recuaram com reações mistas. Medo, culpa, raiva. Semelhante a uma pessoa flagrada cometendo um crime.

    Fenrir saiu das sombras e se colocou ao lado de Anayê.

    Desmond se levantou às pressas e se jogou aos pés da aberração.

    — Senhor, esses estrangeiros… — a voz falhou. — Nós os expulsamos mais cedo.

    Outros na multidão ouvindo a confissão do sacerdote também começaram a concordar, apontar e confirmar.

    — Nós mandamos eles embora!

    — Nós obedecemos!

    Desmond ergueu o rosto, desesperado.

    — Eles são ceifadores, meu senhor.

    Os olhos esverdeados e sem brilho da criatura fitaram os dois, com tranquilidade.

    — Está tudo bem — ele tocou a cabeça do sacerdote. — Creio que foi um desentendimento bobo.

    — Nós mandamos vocês saírem daqui! — alguém gritou na multidão.

    — Vocês não são bem vindos aqui! — outro exclamou.

    Anayê não se abalou e manteve a cabeça bem erguida e um semblante altivo, mas Fenrir observava tudo com receio. A multidão estava agitada e alguns deram passos ousados na direção dos dois.

    — Amigos… — a criatura interveio. — Por favor. Isso não é necessário.

    Os burburinhos se tornaram sussurros e depois cessaram.

    — Desmond, levante-se.

    A aberração se voltou para os ceifadores.

    — Visitantes, eu me chamo Elchor, o provedor, o humilde senhor deste vilarejo — ele inclinou o corpo de modo teatral.

    — É um desprazer conhecê-lo — Anayê falou.

    Elchor não demonstrou incômodo pelo comentário, embora as pessoas tenham levantado sussurros e murmúrios.

    — Permita-me esclarecer — continuou. — Eu cuido das colheitas desse lugar.

    Os lábios carcomidos se curvaram em um sorriso.

    — Em troca, eles cuidam de mim.

    Anayê observou as pessoas com um olhar de desprezo, quase nojo.

    — É uma ironia vocês terem chegado justamente no dia da celebração. Eu…

    — Não foi uma coincidência — Anayê cortou. — Somos servos do Deus sem face. Não acreditamos em acaso.

    A interrupção da ceifadora fez o sorriso sumir do rosto de Elchor por um instante, mas ele recuperou a compostura rapidamente. Os trejeitos dele fizeram Anayê se lembrar de seu encontro com o ministro do rei de Skell, o pomposo Oscari. Não se surpreendeu ao concluir que desprezava ambos da mesma maneira.

    — Digam-me… — Elchor apontou para os cidadãos na praça. — Eles parecem infelizes?

    Anayê não respondeu, porém, Fenrir temeu pela resposta, muito mais do que gostaria de admitir.

    — Eu não faço mal a eles.

    — Estamos bem assim! — Desmond exclamou, rápido demais. Se virou para o povo. — Não é verdade?

    As vozes de confirmação vindas do povo causaram arrepios em Fenrir.

    — Felizes sacrificando vidas inocentes? — Anayê desafiou.

    Nesse momento, Bretna deu um passo à frente.

    — Eu ofereci minha vida voluntariamente — ela afirmou.

    A ceifadora encarou a jovem por um momento longo e não percebeu hesitação em seus olhos.

    — Fiz isso pelo bem do meu povo. E, para mim… — ela sorriu e aumentou o tom na frase seguinte. — É uma grande honra.

    Algumas pessoas aplaudiram e um sorriso de orgulho apareceu no rosto de Elchor.

    — Viram só? — Desmond disparou. — Nós queremos isso! 

    Ele apontou para os ceifadores.

    — Vocês não pertencem a este lugar.

    — Nos deixem em paz! — Bretna puxou o coro.

    — Nos deixem em paz! — o povo acompanhou.

    Anayê franziu o cenho. Sabia que as pernas de Fenrir estremeciam mesmo sem olhar.

    Elchor ergueu um braço e o coro parou.

    — É o nosso direito de liberdade! — Desmond insistiu.

    — Tudo bem, Desmond — Elchor interrompeu, ainda calmo. — Nossos amigos já entenderam.

    O olhar dele caiu sobre Anayê. Seguro e convicto.

    — Eu entendi… — Fenrir começou e atraiu a atenção de todos. Engoliu saliva. — Entendi que você cegou essas pessoas.

    Poucas vozes de desprezo soaram.

    — Eu também já fui como vocês — prosseguiu, mais firme dessa vez. — E quase matei todo o meu povo.

    Silêncio. Olhares duvidosos e curiosos direcionados ao ceifador.

    — Sinto muito pela sua experiência ruim — foi Elchor quem falou.

    Fenrir tentou captar se ele zombava ou era verdadeiro.

    — Eu não os destruo. Por que faria isso?

    Deu um passo lento.

    — Se eu tirasse isso deles… — Gesticulou para a praça. — O que sobraria?

    Fenrir não respondeu.

    — Eles são livres — afirmou a criatura. — Podem ir embora quando quiserem.

    Antes mesmo da frase terminar, vozes exaltadas surgiram.

    — Não queremos ir!

    — Esse é o nosso lugar!

    Fenrir sentiu um peso no peito. Desprezaria o povo se não tivesse sido como eles no passado.

    — Além disso… — Elchor abaixou levemente a cabeça — eu não desejo lutar com vocês. 

    Ele ergueu o olhar, observando a multidão e parando nos dois.

    — Conheço a força dos ceifadores.

    Anayê riu.

    — Bah! Que pena — Levantou a adaga. — Porque eu quero.

    E deu um passo à frente.

    — E vou te matar.

    — Nós queremos servir Elchor, o provedor — Bretna surgiu de novo. — Se quiser feri-lo…

    Ela abriu os braços.

    — Vai ter que me matar também.

    Outros braços se ergueram.

    — A mim também!

    — É isso.

    Um a um. Formando uma barreira.

    Fenrir recuou.

    — Anayê… — murmurou, incerto.

    — Vocês… — a ceifadora abriu um sorriso desafiador. — Não deviam ter falado isso.

    E então, sumiu num piscar de olhos e reapareceu no meio da multidão.

    O ar ao redor dela explodiu causando uma rajada de vento violenta em todas as direções.

    Corpos foram arremessados. Contra o chão, contra as paredes. Gritos e gemidos cortaram a praça.

    O caminho até o palanque se abriu.

    Anayê girou a adaga entre os dedos.

    — Não sou do tipo sentimental.

    Olhos assustados e raivosos se dirigiram a ela enquanto alguns se levantavam. Fenrir ainda estava parado, boquiaberto.

    — Quem mais? — a ceifadora perguntou.

    Mas então a voz firme e melancólica de Elchor bradou:

    — Meu povo!

    A atenção retornou para ele.

    — Não façam nada. — Levantou o braço. — Deixem esses dois comigo.

    Os corpos obedeceram.

    Anayê virou a cabeça lentamente e encarou a aberração. Um sorriso afiado surgiu.

    — Já estava na hora.

    — Não tenho alegria nisto — Elchor lamentou. — Essa teimosia da sua classe… 

    A aura ao redor mudou. 

    — É irritante.

    Ela gostou da afirmação.

    — Mas para proteger o meu povo…

    — Pode acabar com o teatro — ela interrompeu. — Eu estou farta de saber que não há nada de bom em aberrações.

    — Então venha — Elchor fechou os punhos. 

    A fumaça esverdeada retornou.

    — Vamos ver…

    Seu olhar ficou mais profundo e mais estranho enquanto a fumaça se intensificava.

    — Quanto tempo você aguenta.

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