Capítulo 85 - O Direito de Sacrificar
Anayê cerrou os dentes.
A aberração lançou um olhar de surpresa para ela, mas depois seu semblante retornou para a calmaria.
— Ora, ora, parece que temos convidados — a criatura falou.
Os cidadãos do vilarejo recuaram com reações mistas. Medo, culpa, raiva. Semelhante a uma pessoa flagrada cometendo um crime.
Fenrir saiu das sombras e se colocou ao lado de Anayê.
Desmond se levantou às pressas e se jogou aos pés da aberração.
— Senhor, esses estrangeiros… — a voz falhou. — Nós os expulsamos mais cedo.
Outros na multidão ouvindo a confissão do sacerdote também começaram a concordar, apontar e confirmar.
— Nós mandamos eles embora!
— Nós obedecemos!
Desmond ergueu o rosto, desesperado.
— Eles são ceifadores, meu senhor.
Os olhos esverdeados e sem brilho da criatura fitaram os dois, com tranquilidade.
— Está tudo bem — ele tocou a cabeça do sacerdote. — Creio que foi um desentendimento bobo.
— Nós mandamos vocês saírem daqui! — alguém gritou na multidão.
— Vocês não são bem vindos aqui! — outro exclamou.
Anayê não se abalou e manteve a cabeça bem erguida e um semblante altivo, mas Fenrir observava tudo com receio. A multidão estava agitada e alguns deram passos ousados na direção dos dois.
— Amigos… — a criatura interveio. — Por favor. Isso não é necessário.
Os burburinhos se tornaram sussurros e depois cessaram.
— Desmond, levante-se.
A aberração se voltou para os ceifadores.
— Visitantes, eu me chamo Elchor, o provedor, o humilde senhor deste vilarejo — ele inclinou o corpo de modo teatral.
— É um desprazer conhecê-lo — Anayê falou.
Elchor não demonstrou incômodo pelo comentário, embora as pessoas tenham levantado sussurros e murmúrios.
— Permita-me esclarecer — continuou. — Eu cuido das colheitas desse lugar.
Os lábios carcomidos se curvaram em um sorriso.
— Em troca, eles cuidam de mim.
Anayê observou as pessoas com um olhar de desprezo, quase nojo.
— É uma ironia vocês terem chegado justamente no dia da celebração. Eu…
— Não foi uma coincidência — Anayê cortou. — Somos servos do Deus sem face. Não acreditamos em acaso.
A interrupção da ceifadora fez o sorriso sumir do rosto de Elchor por um instante, mas ele recuperou a compostura rapidamente. Os trejeitos dele fizeram Anayê se lembrar de seu encontro com o ministro do rei de Skell, o pomposo Oscari. Não se surpreendeu ao concluir que desprezava ambos da mesma maneira.
— Digam-me… — Elchor apontou para os cidadãos na praça. — Eles parecem infelizes?
Anayê não respondeu, porém, Fenrir temeu pela resposta, muito mais do que gostaria de admitir.
— Eu não faço mal a eles.
— Estamos bem assim! — Desmond exclamou, rápido demais. Se virou para o povo. — Não é verdade?
As vozes de confirmação vindas do povo causaram arrepios em Fenrir.
— Felizes sacrificando vidas inocentes? — Anayê desafiou.
Nesse momento, Bretna deu um passo à frente.
— Eu ofereci minha vida voluntariamente — ela afirmou.
A ceifadora encarou a jovem por um momento longo e não percebeu hesitação em seus olhos.
— Fiz isso pelo bem do meu povo. E, para mim… — ela sorriu e aumentou o tom na frase seguinte. — É uma grande honra.
Algumas pessoas aplaudiram e um sorriso de orgulho apareceu no rosto de Elchor.
— Viram só? — Desmond disparou. — Nós queremos isso!
Ele apontou para os ceifadores.
— Vocês não pertencem a este lugar.
— Nos deixem em paz! — Bretna puxou o coro.
— Nos deixem em paz! — o povo acompanhou.
Anayê franziu o cenho. Sabia que as pernas de Fenrir estremeciam mesmo sem olhar.
Elchor ergueu um braço e o coro parou.
— É o nosso direito de liberdade! — Desmond insistiu.
— Tudo bem, Desmond — Elchor interrompeu, ainda calmo. — Nossos amigos já entenderam.
O olhar dele caiu sobre Anayê. Seguro e convicto.
— Eu entendi… — Fenrir começou e atraiu a atenção de todos. Engoliu saliva. — Entendi que você cegou essas pessoas.
Poucas vozes de desprezo soaram.
— Eu também já fui como vocês — prosseguiu, mais firme dessa vez. — E quase matei todo o meu povo.
Silêncio. Olhares duvidosos e curiosos direcionados ao ceifador.
— Sinto muito pela sua experiência ruim — foi Elchor quem falou.
Fenrir tentou captar se ele zombava ou era verdadeiro.
— Eu não os destruo. Por que faria isso?
Deu um passo lento.
— Se eu tirasse isso deles… — Gesticulou para a praça. — O que sobraria?
Fenrir não respondeu.
— Eles são livres — afirmou a criatura. — Podem ir embora quando quiserem.
Antes mesmo da frase terminar, vozes exaltadas surgiram.
— Não queremos ir!
— Esse é o nosso lugar!
Fenrir sentiu um peso no peito. Desprezaria o povo se não tivesse sido como eles no passado.
— Além disso… — Elchor abaixou levemente a cabeça — eu não desejo lutar com vocês.
Ele ergueu o olhar, observando a multidão e parando nos dois.
— Conheço a força dos ceifadores.
Anayê riu.
— Bah! Que pena — Levantou a adaga. — Porque eu quero.
E deu um passo à frente.
— E vou te matar.
— Nós queremos servir Elchor, o provedor — Bretna surgiu de novo. — Se quiser feri-lo…
Ela abriu os braços.
— Vai ter que me matar também.
Outros braços se ergueram.
— A mim também!
— É isso.
Um a um. Formando uma barreira.
Fenrir recuou.
— Anayê… — murmurou, incerto.
— Vocês… — a ceifadora abriu um sorriso desafiador. — Não deviam ter falado isso.
E então, sumiu num piscar de olhos e reapareceu no meio da multidão.
O ar ao redor dela explodiu causando uma rajada de vento violenta em todas as direções.
Corpos foram arremessados. Contra o chão, contra as paredes. Gritos e gemidos cortaram a praça.
O caminho até o palanque se abriu.
Anayê girou a adaga entre os dedos.
— Não sou do tipo sentimental.
Olhos assustados e raivosos se dirigiram a ela enquanto alguns se levantavam. Fenrir ainda estava parado, boquiaberto.
— Quem mais? — a ceifadora perguntou.
Mas então a voz firme e melancólica de Elchor bradou:
— Meu povo!
A atenção retornou para ele.
— Não façam nada. — Levantou o braço. — Deixem esses dois comigo.
Os corpos obedeceram.
Anayê virou a cabeça lentamente e encarou a aberração. Um sorriso afiado surgiu.
— Já estava na hora.
— Não tenho alegria nisto — Elchor lamentou. — Essa teimosia da sua classe…
A aura ao redor mudou.
— É irritante.
Ela gostou da afirmação.
— Mas para proteger o meu povo…
— Pode acabar com o teatro — ela interrompeu. — Eu estou farta de saber que não há nada de bom em aberrações.
— Então venha — Elchor fechou os punhos.
A fumaça esverdeada retornou.
— Vamos ver…
Seu olhar ficou mais profundo e mais estranho enquanto a fumaça se intensificava.
— Quanto tempo você aguenta.

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