Capítulo 86 - A Batalha Nas Terras Cintilantes
Anayê suspirou, firmou ainda mais a adaga na mão e sentiu o fluido expandindo por todo o seu corpo.
O mundo desacelerou.
Elchor erguendo o braço. Fenrir, imóvel. As pessoas, observadoras ao redor rosnando palavras insignificantes.
E então o peito da criatura se abriu e se liquefez.
E, de repente, três objetos afiados parecidos com espinhos e cobertos por uma energia roxa pulsante avançaram na direção da ceifadora.
Anayê reagiu. A sua lâmina cortou o ar três vezes.
Clang.
Clang.
Clang.
A aberração curvou os lábios em um sorriso.
— Fenrir… — ela alertou, sem tirar os olhos do oponente. — Energia impura. Toma cuidado!
O ceifador engoliu a saliva e fechou o punho tentando conter a mão trêmula. Eu não posso falhar com ela agora, pensou.
— Agora… — Anayê visou a criatura. — É a minha vez!
O braço balançou, a lâmina girou e o vento respondeu com uma rajada de vento que cortou a distância até Elchor.
A criatura levantou o braço e o processo de se liquefazer se repetiu. A carne derreteu e se transformou em um escudo imbuído de energia impura.
Uma onda de choque transpassou a praça quando as duas técnicas se chocaram.
Mas Elchor ainda estava de pé e já se movia.
O escudo se contraiu e se fragmentou em três novos espinhos, maiores e mais densos.
A ceifadora zombou com o ombro e repeliu o ataque com facilidade.
Porém, um dos espinhos não estava destinado a ela.
— Fenrir! — ela exclamou ao perceber.
O grito veio tarde. Ou quase.
O espinho já estava sobre ele quando seus pés travaram. Se mova, seu covarde, disse consigo. Mas o corpo só respondeu no último instante.
Ele se jogou de lado e o espinho passou raspando e mordeu seu braço. A dor foi pequena e quente.
Ele caiu no chão, arfando.
— Tô… bem!
Anayê notou um arranhão no braço esquerdo dele, mas cerrou os dentes e controlou a vontade de correr para ajudá-lo.
— Foi só um arranhão — garantiu.
Anayê virou a cabeça para a criatura que ainda mantinha uma postura tranquila e quase zombeteira.
— Eu vou te mostrar — ela ergueu a adaga. — Que não se deve brincar com ceifadores!
Um brilho dourado relampejou em sua arma e Anayê disparou contra Elchor. Para os observadores era como se ela não estivesse tocando o chão.
A aberração franziu o cenho por causa da luz e levantou o braço para proteger os olhos. Um movimento tardio. Ela já estava ali no palanque diante dele.
Segurou a adaga, pronta para invocar a rajada de vento cortante.
Entretanto, o chão reagiu. Ao menos, Anayê achava que tinha sido o chão, mas descobriu que havia sido ele.
A carne da criatura se espalhou pelos pés e então explodiu em campo de espinhos. Por todos os lados. Subindo e rasgando o ar.
Anayê saltou. Não foi um pulo bonito. Abriu as pernas enquanto um espinho passava assobiando, quase rasgando a borda da calça. Girou no ar e caiu, pesada, imprimindo uma cicatriz no chão de areia da praça.
— Tsc…
Ela se levantou com os olhos fixos na criatura.
— Fenrir, eu vou precisar de cobertura.
O ceifador já estava em pé, abrindo e fechando as mãos, reunindo toda a coragem dentro de si.
— Pode deixar.
Fechou os olhos. O fluido respondeu e percorreu seu corpo. Se concentrou e tomou forma.
Um arco feito de energia azul surgiu em sua mão.
Anayê franziu o cenho. Era a primeira vez que via a técnica especial do ceifador.
Fenrir puxou a corda e uma flecha apareceu. Sem hesitar, disparou.
O projétil cortou o ar, rápido e preciso.
Elchor reagiu. O braço se deformou em escudo novamente, pouco antes do impacto.
Outra onda de choque assolou a praça e alguns moradores soltaram gritos de medo.
A aberração mal tinha defendido o ataque quando percebeu o movimento.
Anayê deslizou pelo lado esquerdo como se tivesse sido teleportada. A lâmina da adaga brilhou, ansiando pela técnica.
Mas, o campo de espinhos brotou do chão outra vez e ela foi obrigada a recuar rapidamente.
— Ele é muito rápido — Fenrir falou.
— Não foi isso — ela respondeu, ofegante. — Eu estava testando.
— Testando?
Fenrir piscou.
— Ele consegue usar duas habilidades ao mesmo tempo — revelou.
— Ah… — Fenrir entendeu, impressionado.
Anayê já estava se preparando quando Elchor tomou a palavra.
— Agora, é a minha vez.
O corpo da aberração se contorceu e criou quatro objetos pontiagudos, mais longos e mais finos, como pequenas facas.
A ceifadora ergueu a adaga, pronta para repelir, no entanto, a primeira faca explodiu. Um estourou seco que espalhou fumaça esverdeada pelo ar em questão de um piscar de olhos. E então as outras três detonaram em sequência.
— Anayê! — Fenrir gritou.
A ceifadora reagiu por instinto. Saltou para trás com força máxima e se catapultou para longe. Bateu contra a parede de uma casa. O impacto roubou seu ar e ela caiu de joelhos.
A visão girou, os olhos arderam e os pulmões queimaram. Um gosto amargo grudou na garganta e ela cuspiu uma bola de gosma verde.
— Você tá bem?!
A voz de Fenrir parecia distante. Ela ergueu a mão.
— Preciso… de um minuto.
Outra tosse seguida de uma bola de gosma verde. Os olhos vermelhos lacrimejaram.
Fenrir se voltou para Elchor. Armou o punho.
— Seu canalha… você vai pagar!
O fluido avançou em seu corpo preparado para lutar. E parou.
Seu braço travou, frio e pesado..
—- O que está…?
Os dedos não obedeceram. Ele olhou, incrédulo e confuso.
— Oh, você também está começando a sentir, não é? — foi Elchor quem indagou.
Fenrir tentou olhar para ele e só enxergou uma silhueta distante. Esfregou os olhos com a mão esquerda.
— Apenas um arranhão, você disse — Elchor lembrou-o.
O ceifador tonteou e perdeu o controle das pernas. O chão se aproximou com rapidez enquanto o sorriso de Elchor se alargava.
A criatura invocou sua técnica de espinhos e atacou. Para matar.
Mas Fenrir desapareceu da trajetória semelhante a um vulto.
Era Anayê.
Os espinhos atravessaram o espaço onde ele estava e se fixaram em uma parede.
Ela o apoiou contra um barril enquanto ele arfava.
— O fluido — lembrou-o.
A mente estava confusa, mas ele ouvira. Deixou a energia percorrer o corpo e queimar o veneno para fora.
— É isso — Anayê animou.
Elchor cerrou os dentes. Pensara ter deixado a ceifadora de fora da batalha por mais tempo.
— Fica vivo — ela falou.
A ceifadora se levantou e virou para Elchor.
— Desculpe deixar você esperando — disse.
— Você se gaba demais para alguém que nem conseguiu me tocar.
— Bem… — ela deu de ombros. — Eu só estava aquecendo.
E avançou.
A adaga brilhou.
A rajada de vento foi invocada.
O escudo de Elchor foi levantado.
O golpe foi bloqueado.
Mas ela já não estava ali.
Saltou por cima e invocou sua técnica nas costas dele.
Elchor não precisou se virar. Sua carne se moveu e formou um escudo atrás.
A ceifadora soltou um grunhido.
E então o chão explodiu trazendo os espinhos à tona mais uma vez.
Anayê recuou no limite, justamente quando a ponta do espinho cutucou seu sapato.
— Se esquive disso, ceifadora — ele se virou para ela.
A criatura disparou um espinho explosivo. O projétil viajou veloz e acertou a ceifadora ainda no ar, enviando seu corpo do outro lado do palanque.
Mas antes que pudesse relaxar, Elchor sentiu uma energia às suas costas e se virou. Mas não o suficiente.
Uma flecha azul já estava ali.

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