Índice de Capítulo

    Anayê suspirou, firmou ainda mais a adaga na mão e sentiu o fluido expandindo por todo o seu corpo. 

    O mundo desacelerou.

    Elchor erguendo o braço. Fenrir, imóvel. As pessoas, observadoras ao redor rosnando palavras insignificantes.

    E então o peito da criatura se abriu e se liquefez.

    E, de repente, três objetos afiados parecidos com espinhos e cobertos por uma energia roxa pulsante avançaram na direção da ceifadora.

    Anayê reagiu. A sua lâmina cortou o ar três vezes.

    Clang.

    Clang.

    Clang.

    A aberração curvou os lábios em um sorriso.

    — Fenrir… — ela alertou, sem tirar os olhos do oponente. — Energia impura. Toma cuidado!

    O ceifador engoliu a saliva e fechou o punho tentando conter a mão trêmula. Eu não posso falhar com ela agora, pensou.

    — Agora… — Anayê visou a criatura. — É a minha vez!

    O braço balançou, a lâmina girou e o vento respondeu com uma rajada de vento que cortou a distância até Elchor.

    A criatura levantou o braço e o processo de se liquefazer se repetiu. A carne derreteu e se transformou em um escudo imbuído de energia impura. 

    Uma onda de choque transpassou a praça quando as duas técnicas se chocaram.

    Mas Elchor ainda estava de pé e já se movia.

    O escudo se contraiu e se fragmentou em três novos espinhos, maiores e mais densos.

    A ceifadora zombou com o ombro e repeliu o ataque com facilidade.

    Porém, um dos espinhos não estava destinado a ela.

    — Fenrir! — ela exclamou ao perceber.

    O grito veio tarde. Ou quase.

    O espinho já estava sobre ele quando seus pés travaram. Se mova, seu covarde, disse consigo. Mas o corpo só respondeu no último instante.

    Ele se jogou de lado e o espinho passou raspando e mordeu seu braço. A dor foi pequena e quente.

    Ele caiu no chão, arfando.

    — Tô… bem!

    Anayê notou um arranhão no braço esquerdo dele, mas cerrou os dentes e controlou a vontade de correr para ajudá-lo.

    — Foi só um arranhão — garantiu.

    Anayê virou a cabeça para a criatura que ainda mantinha uma postura tranquila e quase zombeteira.

    — Eu vou te mostrar — ela ergueu a adaga. — Que não se deve brincar com ceifadores!

    Um brilho dourado relampejou em sua arma e Anayê disparou contra Elchor. Para os observadores era como se ela não estivesse tocando o chão.

    A aberração franziu o cenho por causa da luz e levantou o braço para proteger os olhos. Um movimento tardio. Ela já estava ali no palanque diante dele.

    Segurou a adaga, pronta para invocar a rajada de vento cortante.

    Entretanto, o chão reagiu. Ao menos, Anayê achava que tinha sido o chão, mas descobriu que havia sido ele.

    A carne da criatura se espalhou pelos pés e então explodiu em campo de espinhos. Por todos os lados. Subindo e rasgando o ar.

    Anayê saltou. Não foi um pulo bonito. Abriu as pernas enquanto um espinho passava assobiando, quase rasgando a borda da calça. Girou no ar e caiu, pesada, imprimindo uma cicatriz no chão de areia da praça.

    — Tsc…

    Ela se levantou com os olhos fixos na criatura.

    — Fenrir, eu vou precisar de cobertura.

    O ceifador já estava em pé, abrindo e fechando as mãos, reunindo toda a coragem dentro de si.

    — Pode deixar.

    Fechou os olhos. O fluido respondeu e percorreu seu corpo. Se concentrou e tomou forma.

    Um arco feito de energia azul surgiu em sua mão.

    Anayê franziu o cenho. Era a primeira vez que via a técnica especial do ceifador.

    Fenrir puxou a corda e uma flecha apareceu. Sem hesitar, disparou.

    O projétil cortou o ar, rápido e preciso.

    Elchor reagiu. O braço se deformou em escudo novamente, pouco antes do impacto.

    Outra onda de choque assolou a praça e alguns moradores soltaram gritos de medo.

    A aberração mal tinha defendido o ataque quando percebeu o movimento.

    Anayê deslizou pelo lado esquerdo como se tivesse sido teleportada. A lâmina da adaga brilhou, ansiando pela técnica.

    Mas, o campo de espinhos brotou do chão outra vez e ela foi obrigada a recuar rapidamente.

    — Ele é muito rápido — Fenrir falou.

    — Não foi isso — ela respondeu, ofegante. — Eu estava testando.

    — Testando?

    Fenrir piscou.

    — Ele consegue usar duas habilidades ao mesmo tempo — revelou.

    — Ah… — Fenrir entendeu, impressionado.

    Anayê já estava se preparando quando Elchor tomou a palavra.

    — Agora, é a minha vez.

    O corpo da aberração se contorceu e criou quatro objetos pontiagudos, mais longos e mais finos, como pequenas facas.

    A ceifadora ergueu a adaga, pronta para repelir, no entanto, a primeira faca explodiu. Um estourou seco que espalhou fumaça esverdeada pelo ar em questão de um piscar de olhos. E então as outras três detonaram em sequência.

    — Anayê! — Fenrir gritou.

    A ceifadora reagiu por instinto. Saltou para trás com força máxima e se catapultou para longe. Bateu contra a parede de uma casa. O impacto roubou seu ar e ela caiu de joelhos.

    A visão girou, os olhos arderam e os pulmões queimaram. Um gosto amargo grudou na garganta e ela cuspiu uma bola de gosma verde.

    — Você tá bem?!

    A voz de Fenrir parecia distante. Ela ergueu a mão.

    — Preciso… de um minuto.

    Outra tosse seguida de uma bola de gosma verde. Os olhos vermelhos lacrimejaram.

     Fenrir se voltou para Elchor. Armou o punho.

    — Seu canalha… você vai pagar!

    O fluido avançou em seu corpo preparado para lutar. E parou. 

    Seu braço travou, frio e pesado..

    —- O que está…?

    Os dedos não obedeceram. Ele olhou, incrédulo e confuso.

    — Oh, você também está começando a sentir, não é? — foi Elchor quem indagou.

    Fenrir tentou olhar para ele e só enxergou uma silhueta distante. Esfregou os olhos com a mão esquerda.

    — Apenas um arranhão, você disse — Elchor lembrou-o.

    O ceifador tonteou e perdeu o controle das pernas. O chão se aproximou com rapidez enquanto o sorriso de Elchor se alargava.

    A criatura invocou sua técnica de espinhos e atacou. Para matar.

    Mas Fenrir desapareceu da trajetória semelhante a um vulto.

    Era Anayê.

    Os espinhos atravessaram o espaço onde ele estava e se fixaram em uma parede.

    Ela o apoiou contra um barril enquanto ele arfava.

    — O fluido — lembrou-o.

    A mente estava confusa, mas ele ouvira. Deixou a energia percorrer o corpo e queimar o veneno para fora.

    — É isso — Anayê animou.

    Elchor cerrou os dentes. Pensara ter deixado a ceifadora de fora da batalha por mais tempo.

    — Fica vivo — ela falou.

    A ceifadora se levantou e virou para Elchor.

    — Desculpe deixar você esperando — disse.

    — Você se gaba demais para alguém que nem conseguiu me tocar.

    — Bem… — ela deu de ombros. — Eu só estava aquecendo.

    E avançou.

    A adaga brilhou. 

    A rajada de vento foi invocada.

    O escudo de Elchor foi levantado.

    O golpe foi bloqueado.

    Mas ela já não estava ali.

    Saltou por cima e invocou sua técnica nas costas dele.

    Elchor não precisou se virar. Sua carne se moveu e formou um escudo atrás.

    A ceifadora soltou um grunhido.

    E então o chão explodiu trazendo os espinhos à tona mais uma vez.

    Anayê recuou no limite, justamente quando a ponta do espinho cutucou seu sapato.

    — Se esquive disso, ceifadora — ele se virou para ela.

    A criatura disparou um espinho explosivo. O projétil viajou veloz e acertou a ceifadora ainda no ar, enviando seu corpo do outro lado do palanque.

    Mas antes que pudesse relaxar, Elchor sentiu uma energia às suas costas e se virou. Mas não o suficiente.

    Uma flecha azul já estava ali.

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