Capítulo 84 - O Sacrifício Nas Terras Cintilantes
A lua era a rainha dos céus quando Anayê e Fenrir invadiram o vilarejo.
Moviam-se rápido, silenciosos, sombras entre sombras.
Casas, barris e cercas, qualquer coisa poderia ser um esconderijo.
Fenrir não exibia uma expressão muito feliz, diferente de Anayê que liderava o caminho. O formigamento voltara no momento que pisara ali.
Ela parou do lado de uma janela e espiou por uma fresta. Nenhuma vela, apenas escuridão.
Foi até a próxima casa. Depois outra. Nada.
Fenrir verificou outra janela e exibiu uma cara fechada ao fazê-lo. Nenhuma luz. Balançou a cabeça para Anayê e ela fez um gesto para segui-la.
Eles passam para a próxima quadra rapidamente.
Fenrir observou Anayê olhando outra casa e quando ela se virou, disse num sussurro:
— Eu não me tornei ceifador para xeretar casas.
Anayê franziu o cenho e apontou para a casa atrás dele. Fenrir balançou a cabeça e obedeceu, contrariado.
Nenhuma luz, nenhuma vela, nenhuma tocha, nenhum lampião.
A ceifadora sinalizou para correrem até a próxima quadra, mas o ceifador a segurou pelo cotovelo.
— O que nós…? — Suspirou, frustrado. — Isso não vai dar em nada.
— Nós combinamos — ela relembrou, sussurrando. — Eu lidero, você observa.
— Eu observo quando existe algo para observar — ele apontou para o seu redor. — E eu não tô vendo nada.
Anayê se desvencilhou da mão dele em seu cotovelo.
— Eu estou sentindo que tem alguma coisa errada — a voz baixa, mas firme. — Você não acredita em mim?
Ele hesitou um segundo e ela percebeu.
— Sério? — o olhar dela endureceu. — Você não acredita?
— Não é isso. — Ele coçou a cabeça. — Eu acreditei, mas agora… parece tudo normal.
Anayê revirou os olhos.
— Tudo bem, tudo bem — Ele ergueu os braços em posição de rendição. — Só tô dizendo… e se você estiver errada?
Uma expressão de desconfiança se apossou do rosto de Anayê.
— No Ribeiral, você também não viu de primeira — ele continuou.
A afirmação fez a mandíbula da ceifadora travar.
— Desculpe, eu não devia… — Fenrir tentou dizer.
— Silêncio!
Anayê cerrou os olhos.
— Você não precisava… — Fenrir ousou outra vez.
Ela ergueu o dedo, séria.
Então, Fenrir escutou também. Primeiro, um ruído confuso, misturado. Não demorou a tomar forma de vozes. Muitas vozes. Entoando uma canção.
Anayê já estava se movendo e Fenrir a seguiu.
Quanto mais avançavam, mais o volume da música aumentava e o local ficava mais claro. O poço.
Tochas acesas lançavam luz sob o lugar e as sombras dançantes se projetavam sobre as casas. As pessoas do vilarejo cantavam trajando túnicas brancas e coroa de flores coloridas na cabeça.
A melodia era estranha e antiga em uma língua desconhecida pelos ceifadores.
Em cima do palanque, Anayê reconheceu o idoso careca e ao lado dele, Bretna, cantando e sorrindo.
O estômago da ceifadora embrulhou de repente e ela caiu sentada no chão.
— Você tá bem? — Fenrir perguntou.
Anayê confirmou e agachou novamente.
A música passou de um ritmo lento e cadenciado para algo mais rápido e visceral, e as vozes acompanharam, correspondendo com energia.
A visão da ceifadora ficou turva e o mundo girou por um instante. Ela baixou a cabeça e se apoiou em um barril. Piscou os olhos e suspirou devagar, buscando manter a consciência enquanto a canção ficava mais veloz e feroz.
Ela sentiu a mão de Fenrir tocando suas costas.
— Anayê…
Ela forçou um aceno.
Neste momento, uma voz se destacou, mais alta, mais fervorosa.
Bretna.
Lágrimas escorriam pelo seu rosto enquanto levantava as mãos.
E então os ceifadores viram algo a mais. No poço.
Uma fumaça esverdeada começou a subir, lenta e espessa, como se estivesse tomando a forma de uma coisa viva.
Anayê prendeu a respiração.
A fumaça subiu até a altura dos telhados e então se expandiu. Explodiu sobre a praça e todos caíram de joelhos ao mesmo tempo.
Anayê sentiu um cheiro podre grudando na garganta, mas desviou o olhar, pois algo estava se formando dentro da fumaça. Uma silhueta torta.
E então, finalmente, apareceu.
Fenrir congelou de olhos arregalados.
A criatura tinha forma humana, porém, havia muita coisa errada com seu corpo. A carne estava preta e apodrecida, como se tivesse sido roída por um bando de ratos imundos.
Os lábios carcomidos se abriram num sorriso ocupado por presas brancas e caninas. Se aproximou de Bretna, sem pressa.
— Levante-se, minha filha — a aberração falou, calma.
Anayê estreitou os olhos com a cena. Bretna ergueu a cabeça, devagar. Os trapos de roupa vestidos pela criatura roçavam seus cabelos e ela estremeceu.
— Não tenha medo.
Suas pernas e braços tremiam, mas ela se levantou e manteve uma expressão de felicidade e maravilhamento.
A mão decrépita tocou os seus cabelos, deslizou pelo rosto e parou nos seus lábios.
— Você é tão… perfeita.
O sorriso dela se abriu mais.
— É uma honra, meu senhor.
A criatura se voltou para o idoso careca ajoelhado.
— Levante-se, Desmond, meu sacerdote.
Anayê ficou boquiaberta, pois a expressão de devoção de Desmond era ainda mais profunda do que a de Bretna. Seus olhos ficaram iluminados como duas estrelas solitárias em uma noite muito escura.
A ceifadora percebeu que Fenrir estava imóvel e usou o cotovelo para cutucá-lo. Foi semelhante a tirar alguém de uma hipnose e ele quase berrou.
— Se prepara — Anayê disse, cheia de autoridade.
Fenrir assentiu, mas ela notou as mãos dele tremendo.
— Que noite… gloriosa — a criatura entoou.
Virou-se para a multidão ajoelhada.
— Levantem-se! Contemplem!
Todos se ergueram ao mesmo tempo.
— A prosperidade do vosso vilarejo! — A aberração ergueu os braços.
Os cidadãos se juntaram em uma só voz:
— O sangue é o preço da prosperidade!
Anayê voltou a sentir náuseas. Piscou os olhos com força e engoliu seco.
— Gritem para as estrelas, meus amigos! — a aberração bradou.
— O sangue é o preço da prosperidade!
A frase ficou mais rápida e mais alta. As pessoas começaram a ser tomadas por êxtase. Aplausos, pulos, risos, gritos, choros.
— O sangue é o preço da prosperidade!
A criatura no palanque de pedra levantou os dois braços apodrecidos. Atrás dela, Desmond aplaudia e Bretna chorava de alegria.
— O sangue é o preço da prosperidade!
Fenrir sentiu seu coração galopar. Sentiu que ele poderia sair de seu peito a qualquer momento. Sentiu um frio subindo por suas pernas e escalando até arrepiar sua nuca. Sentiu a palavra terror encarnada a sua frente. Sentiu que nunca deveria ter saído das Colinas Verdes. Sentiu um sopro no seu ouvido e jurou ter sido a própria morte.
— O sangue é o preço da prosperidade!
A mão esquerda de Anayê começou a tremer. Ela tentou segurá-la com a direita, mas então as duas tremeram. Depois, as pernas. Depois o corpo inteiro. Arregalou os olhos, incrédula. Suas pernas balançaram e desafiaram seu controle sobre elas. O mundo girou enquanto ela quase caía.
Fechou os olhos e buscou o fluido de oração em seu corpo. Ao encontrá-lo, expandiu para todo o corpo num segundo. A energia percorreu seu corpo como um choque.
Então, devagar, fitou seus dedos. A tremedeira passara. Suspirou. Abriu e fechou as duas mãos.
— O sangue é o preço da prosperidade!
A criatura se voltou para Bretna e mostrou-lhe a bocarra. A jovem inclinou a cabeça e exibiu o pescoço liso enquanto sorria e chorava, ofegante.
— O sangue é o preço da prosperidade!
Bretna fechou os olhos e respirou lentamente. Aguardou o fim.
Mas então o ar explodiu.
Uma rajada de vento violenta cortou a praça como uma lâmina invisível.
Bretna foi arrancada do lugar e lançada para trás. O corpo girou no ar antes de cair do outro lado do palanque.
Desmond também foi atingido e arremessado como um boneco.
O impacto ecoou na pedra seguido de um silêncio brusco e forçado.
O canto morreu, as vozes se apagaram e os corpos paralisaram.
No palanque, apenas ficara a aberração com um olhar de surpresa.
As cabeças começaram a se virar, uma a uma, até enxergarem Anayê.
De pé, com a adaga firme nas mãos e olhos frios.

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