Índice de Capítulo

    Esse abraço confortável, esse sentimento de paz neste mundo cruel é estranhamente suspeito.

    Por que estou tendo essa sensação de conforto com esse abraço dela?

    Desde sempre, quando estou com ela, sinto-me em casa.

    Quando a toco, sinto que o mundo cruel é um mundo de felicidade.

    — Yuki? Me fale, o que aconteceu ontem? O que está acontecendo com você?

    Eu não sei. Quero descobrir isso, mas não consigo.

    A raiva e a suspeita que tenho contra você, por que agora estão sumindo?

    Como se eu não acreditasse mais em nada.

    Como se todo o meu corpo estivesse dizendo para ficar ao seu lado.

    Ela, que estava atrás de mim, rondou até minha frente ainda me segurando.

    Pelo seu tamanho, sua testa está perto do meu pescoço.

    Sua respiração quente por cima da minha blusa, mas atravessando o tecido, entrando em contato com minha pele.

    — Itsuki… por quê…

    Eu não consigo perguntar nada a ela.

    O que preciso perguntar?

    Eu já não sei mais.

    Só consigo fazer uma coisa agora.

    Sondei-a entre meus braços, não muito forte, nem muito fraco.

    Delicadamente a abracei, abaixando meu queixo, consegui sentir um cheiro de morango vindo do seu cabelo.

    — Me desculpa… Itsuki. Eu… eu estou bem. Não se preocupe, tá bom?

    Ela apertava minhas costas com seu abraço, dava para ver que estava insegura.

    — Mas… por que você estava chorando então? Isso mostra que você não está bem. O que aquelas meninas fizeram com você?

    — Elas… não se preocupe com elas, Itsuki. Você é a única que me importa aqui.

    Itsuki começou a movimentar seu rosto em ambas as direções na minha roupa, como se estivesse enxugando lágrimas em mim.

    — Yuki, eu sou… egoísta, não sou? Por querer você só para mim?

    — O que você quer dizer com isso? — indaguei, acariciando sua cabeça.

    — Eu estava diferente com você… porque estava com medo de você não querer mais eu como amiga. De me trocar pelas irmãs Yagame.

    Itsuki falou com uma voz trêmula e um jeito bem dramático.

    — Então é isso que estava te incomodando. Me perdoe por não ter percebido antes. Mas Itsuki, posso te fazer uma pergunta?

    Ela mexeu a cabeça de uma forma lenta, parecia que isso foi um sim.

    Por um momento, eu havia esquecido o que havia ocorrido ontem.

    Mas comecei a sentir um incômodo perto do pescoço; um pequeno broche azul no cabelo da Itsuki estava me pinicando.

    Sim, não foi esse broche que havia sonhado e encontrado perto da piscina?

    Então quer dizer que ela tem mais desses broches?

    Espera, eu não posso perder meu foco na investigação, preciso procurar saber… tenho certeza que não foi a Itsuki que fez isso comigo.

    Não tenho provas que mostrem o contrário; na verdade, tenho evidências que indicam que foi ela a culpada.

    Porém, meu corpo, minha alma e meu coração têm certeza de que não foi ela.

    Esse sentimento que sinto estando com ela é a prova que tenho.

    Coloquei a mão no queixo dela, erguendo sua cabeça; nossos olhos se encontraram.

    Um maravilhoso olho azul oceano. Que vista linda.

    — Por que você se importa tanto comigo?

    Ela continuou me encarando, mas rapidamente deu um sorriso fofo enquanto suas bochechas coravam.

    Desviou o olhar para o lado e abaixou a cabeça novamente, encostando em mim.

    — Porque… muitas coisas, sabe? Mas tem um motivo em especial que me faz querer ter você por perto… É que toda vez que estou com você, que fico de mão dada e te abraço, não importa onde e o tempo, eu me sinto confortável, não sinto medo, não sinto vergonha.

    Ela apertou ainda mais o abraço e continuou dizendo:

    — Você perguntou por que eu me importo com você, né? Porque, de todo mundo aqui nesse lugar, a única pessoa que me traz sensação de lar é você! Com você, eu me sinto confortável o bastante para viver.

    O que ela disse é exatamente o que sinto quando estou com ela; o que isso significa?

    Por que nós dois sentimos isso apenas quando estamos juntos?

    Preciso descobrir isso mais a fundo também.

    Para dar certo, acho que vale a pena ficar ao lado dela.

    Pelo menos, dessa forma, eu me sinto tão bem estando ao seu lado.

    — Itsuki… eu prometo, não vou mais te deixar triste. Prometo não te deixar de lado. E prometo sempre ficar ao seu lado, não importa onde, eu vou te levar.

    Abracei-a mais forte enquanto acariciava suas costas.

    Ela sorriu para mim enquanto acenava com a cabeça.

    — Promessa é absoluta, você não pode quebrar, viu? — disse ela, com um tom mais leve agora.

    — Certo. Não vou quebrar.

    Após esse momento de reconciliação, eu e ela fomos para o refeitório de mãos dadas.

    Alguns alunos ficaram olhando com uma cara estranha para nós.

    Inclusive meus amigos ficaram surpresos comigo; Arushi estava com uma expressão ainda mais sinistra.

    Mas ninguém falou nada, apenas comemos.

    Depois, voltamos para a sala de aula, com ela segurando meus braços.

    Assim que ela se afastou de mim para voltar à sua cadeira,

    foi uma sensação bem ruim.

    Minhas costas pesaram, o clima ao meu redor ficou estranho, meu corpo ficou incomodado com algo.

    — Você vai acreditar nela mesmo? — disse a voz estranha.

    Eu quero acreditar, quero acreditar que não foi ela.

    Vou fazer de tudo para confirmar.

    A aula continuou normalmente. O dia foi passando como outro qualquer.

    — Espero que vocês tenham aprendido corretamente o que ensinei hoje.

    Após o fim da aula, todo mundo guardou o tablet na gaveta da mesa enquanto conversavam sobre o conteúdo do dia.

    — Aliás, Yuki. O que você andou fazendo ontem? — indagou Fuutaro.

    — Hmm… por que a pergunta?

    — Porque ontem bati na sua porta, mas você não abriu. E já era de noite.

    — Fora que eu estava acordado até tarde; por conta disso, escutei sons vindo do seu quarto, como porta se abrindo. — disse Sasori, com os braços cruzados.

    Não posso contar para eles ainda o que está acontecendo; manter em segredo é um desafio enorme que estou tendo que enfrentar.

    — Bem, é segredo e não posso contar isso…

    — Ah, para com isso, Yuki, é sério que não vai confiar na gente para isso? — perguntou Fuutaro enquanto dava um leve soco no meu ombro.

    — Espera eu terminar de falar, me cortou no meio, poxa!

    — Ah, hehe… desculpa, desculpa. Pode continuar o que ia dizer.

    Fuutaro ficou com uma expressão sem graça após isso enquanto coçava a cabeça.

    — Bem, como eu dizia, é um segredo. Mas eu confio em vocês; por conta disso, irei falar. Porém, entretanto, só falarei se vocês prometerem não contar a ninguém. Certo?

    Sasori e Fuutaro olharam para mim, trocaram olhares e acenaram com a cabeça.

    — Mas não aqui. Vamos para o lado de fora da escola.

    Quando estávamos saindo da sala, Itsuki veio e segurou meu braço.

    Seus olhos viraram para mim de um jeito bem fofo, além de um sorriso bem aberto.

    Não consegui evitar; acabei sorrindo para ela também.

    Mas durou pouco; ela soltou de mim e ficou apenas do meu lado, acho que era para evitar qualquer tipo de comentário dos outros.

    Mas, mesmo estando perto dela, eu me sinto bem; não é o mesmo que tendo seu toque, mas ainda assim é um alívio.

    Caminhamos da sala até fora da escola.

    Ninguém nos impediu dessa vez; ninguém me parou para conversar.

    Só os dois que ficaram olhando de recanto para mim e Itsuki junto, vindo atrás deles.

    — Pronto, estamos sozinhos aqui. Agora pode contar. — disse Fuutaro, ajeitando seus óculos.

    — Mas, e ela? — indagou, de forma curiosa, Sasori, apontando para a Itsuki.

    — Bem, o segredo envolve ela. A partir de hoje, ela faz parte do nosso grupo de amigos. Espero que vocês a tratem bem, ok?

    Ambos me encararam com olhares duvidosos.

    — Bem, para mim tudo bem. Mas, sabe, o problema é que, fala para ele, Sasori.

    — Q-que, por que eu?

    — Falar o quê para mim? O que vocês estão querendo dizer?

    — Cara… ela entrar pro grupo até que está tudo bem. Só que o problema…

    Itsuki abaixou a cabeça de forma triste, dizendo: — Ayumi. O problema é a professora Ayumi, não é?

    Sasori e Fuutaro acenaram com a cabeça, também com a cabeça baixa.

    — Entendi. Esse problema é realmente grande. Mas não me importo. O que vier, enfrentarei em nome do grupo e dos meus amigos. Sendo professor ou aluno! — disse, orgulhoso.

    Após falar isso, um vazio tomou conta do ambiente, dando para escutar o som das árvores de longe mexendo por conta do vento.

    Como estávamos do lado da escola e o sol do outro lado, o prédio da escola nos fornecia uma sombra para nós, deixando um clima bem agradável.

    Mas, mesmo com um clima desses, não evitou que eu estivesse suando de nervosismo.

    Por que estou ansioso e tremendo? Deve ser porque estou perto da Itsuki.

    Fuutaro e Sasori me encaravam com uma expressão de surpresa em seus rostos.

    Mas começaram a rir logo em seguida.

    — Só você mesmo para falar essas coisas, Yuki, haha. — disse Fuutaro, limpando seus olhos enquanto gargalhava.

    — Uma pérola mesmo. — comentou Sasori.

    Sem graça com isso, apenas sorri junto.

    — Tá bom então. Seja bem-vinda, Itsuki, ao nosso grupo Chiheisen.

    Fuutaro ergueu seu braço em direção a Itsuki para cumprimentá-la.

    Ela olhou para a mão dele e depois olhou para mim.

    Será que ela nunca havia cumprimentado alguém fora eu?

    E se Fuutaro sentir o mesmo que sinto quando toco nela?

    Espera, e se… Não, estou com ciúmes?

    — Espe…

    Tentei impedir o cumprimento, mas foi tarde.

    Eles haviam se tocado, mas nada aconteceu.

    Fuutaro apenas continuou sorrindo.

    Após isso, ela cumprimentou o Sasori também e foi normal.

    Pelo visto, não aconteceu nada; isso prova que sou só eu que sinto algo diferente quando estou com ela?

    — Yuki, por que suas bochechas estão coradas? — indagou Fuutaro.

    Droga, acho que o medo de acontecer algo impactou até do lado de fora de mim.

    — É que… fiquei feliz por vocês aceitarem ela. Hehe.

    Itsuki me encarou com os olhos arregalados, depois sorriu e ficou mexendo em uma mecha de seu cabelo.

    — Entendi. Mas agora, Yuki, está na hora de falar o segredo que iria contar, que segredo é?

    Fuutaro está ansioso para saber isso desde que saímos da sala.

    — Certo, certo, vou contar. Bem, é que eu estava… ontem, desde que saí da escola… estava com a Itsuki. Por isso.

    — Que???

    Sasori e Fuutaro falaram a mesma coisa ao mesmo tempo, como um coral.

    Fuutaro ficou com as bochechas coradas, enquanto Sasori desviou o olhar e fez uma expressão pensativa, como se estivesse refletindo profundamente.

    — Que foi, gente? Por que isso? — indaguei, gesticulando as mãos tentando entender.

    — Isso… isso quer dizer que… Sim! Agora faz sentido, querer ela no grupo, ter passado a tarde toda com ela após a aula e chegar tarde. Óbvio, tudo faz sentido! — disse Fuutaro, andando em várias direções ao mesmo tempo enquanto bagunçava seu cabelo.

    — Então é isso, acho que é a primeira vez que vejo isso aqui. Estou surpreso. — disse Sasori, com os braços cruzados.

    — C-como assim, gente? O que foi? O que vocês concluíram?

    Ambos trocaram olhares, viraram para mim e prepararam-se para falar; parecia que ia ser mais uma vez um coral.

    — Vocês estão namorando!

    — O quê??

    Dessa vez fui eu que gritei.

    Mas Itsuki não fez o mesmo; ela estava com as bochechas vermelhas em um nível que nunca vi antes.

    Tanto que ela tampou o rosto com o cabelo e virou de lado.

    Ela realmente ficou com raiva disso?

    Eu entendo, ela me vê como um grande amigo e agora tem duas pessoas dizendo isso na frente dela.

    Acho melhor eu negar rapidamente antes que ela fique com raiva de mim.

    — Não, gente, nada disso. Vocês entenderam errado, hehe. Ela é minha amiga e a vejo como uma irmã, então isso é impossível de acontecer!

    Dizer que a vejo como irmã foi uma ótima cartada; desse jeito, é impossível verem a gente dessa forma errada.

    — Foi uma escolha burra! — disse a voz da minha cabeça.

    Itsuki virou seu rosto avermelhado para mim, respirou fundo e fez uma expressão mais aliviada agora.

    — I-isso mesmo. Eu e o… Yuki, somos apenas… amigos.

    Ela disse de uma forma melancólica, mas entendo o motivo; ela quase foi vista como uma qualquer agora.

    Meus amigos fizeram uma cara de quem não está acreditando nisso, mas entenderam pelo menos.

    — Entendi. Amigos, né? Ver como irmã, né? Então tá bom, me desculpem por isso, eu e o Sasori. — disse Fuutaro, se curvando para nós.

    — Tudo bem. Foi apenas um mal-entendido, né?

    Eles olharam desconfiados para nós, mas acenaram com a cabeça.

    Fuutaro, com um olhar estranho, olhou para Itsuki e depois para mim, enquanto balançava a cabeça de forma negativa, como se eu não estivesse entendendo a situação.

    — Pensamos dessa forma porque aqui nunca tem um casal, ninguém se apaixona por outro, então achamos que seria a primeira vez, mas estávamos enganados, me perdoe! — disse Sasori.

    — Na verdade, não, eu sou apaixonado por uma pessoa, poxa, mas ela que não está por mim.

    Sasori olhou para Fuutaro após ele ter dito isso e fez um sorriso medonho.

    — Verdade, a Rita, né? Haha. Na verdade, você se apaixona por qualquer uma. — disse Sasori, colocando ênfase no “apaixona”.

    Nós continuamos a conversa divertida por mais um tempo.

    Eles são bobos, mas pelo menos a Itsuki gostou do clima entre nós; ela estava sorrindo.

    Depois dessa conversa, Fuutaro e Sasori foram para seus trabalhos e eu fui levar Itsuki para seu dormitório.

    No caminho até lá, Itsuki estava doida para segurar minha mão, mas estava evitando a qualquer custo.

    Talvez por medo da Ayumi ver?

    Mas, observando seu cabelo, vendo este broche azul,

    vem à tona novamente o sonho e este mesmo broche azul que peguei.

    Mas, se tem um no cabelo dela, significa que ela tem mais?

    Preciso confirmar que não foi ela; preciso perguntar sobre este broche.

    — Itsuki… posso te fazer uma pergunta? — indaguei.

    Ela está andando do meu lado pulando de alegria enquanto sua expressão está radiante.

    Dá para notar sua felicidade, mas também uma tentativa de, sem querer, pegar na minha mão com esses pulos e movimentos divertidos com os braços.

    — Hum? Pode sim, Yuki.

    — Esse broche azul seu é lindo, onde você comprou?

    Ela parou de pular, e sua expressão radiante ficou triste.

    Uma mudança abrupta de momento, por quê?

    — Ah… me desculpa, se não quiser falar, tudo bem… — disse, vendo que ela ficou diferente.

    — Não… tudo bem. Ayumi… comprou isso… numa loja qualquer no mercado central.

    Então tem como adquirir isso por aqui… faz sentido ela ter dois então.

    — Entendi, foi presente dela, que gentil da parte da Ayumi.

    — Uhum… ela pode ser grossa, séria e controladora, mas ela é gentil às vezes, se importa comigo e conversa nas horas ruins.

    Ela estava sorridente dizendo isso; seu rosto demonstrava um pingo de esperança com essas palavras enquanto mexia no broche azul em suas mãos.

    — Isso é ruim e bom; pelo menos não te trata de um jeito ruim, né? Mas você sabe me dizer a loja que ela comprou?

    Itsuki colocou o broche de volta no lugar enquanto olhava para mim.

    — Tá querendo comprar um broche para você também?

    — Sim, esse broche é bem bonito. Quando olho para ele, passa uma sensação diferente, como se houvesse um grande passado por trás, sabe?

    Ela abaixou o rosto enquanto juntava as mãos.

    — Sim… entendo bem. Mas a loja em que ela comprou eu não sei. Mas com certeza foi loja que vende broches, e só tem duas no mercado central. A gente pode ir depois para ver, o que acha?

    — Acho uma ótima ideia. Vamos amanhã, que tal?

    Ela sorriu para mim e depois acenou com a cabeça.

    Depois disso, levei-a ao seu quarto e me despedi. Tentei abraçá-la, mas Ayumi estava lá, com uma cara fechada para mim.

    Como ela chega tão rápido sendo que é uma professora? Ela devia estar na escola ainda.

    Dei apenas para acenar para ela antes de partir.

    Ela poderia ficar mais um tempo comigo hoje, mas segunda-feira, ela tinha aula de costura com a Ayumi e não poderia sair.

    Mas amanhã estará disponível; porém, hoje mesmo vou conversar com as irmãs Yagame e contar sobre este broche.

    Vou a qualquer custo provar a inocência dela para mim.

    Vou a qualquer custo achar o verdadeiro culpado por trás do broche azul.

    Essa pessoa, com certeza, está tentando culpar a Itsuki, já que é próxima a mim.

    Mas ele não esperava que eu tivesse uma conexão tão forte com ela.

    Se alguém realmente está tentando usar a Itsuki para me enganar… eu vou descobrir quem é.

    E quando descobrir…

    Não vou perdoar.

    Arco: Investigação.

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