Capítulo 151 | O Deus do Êxtase
— Está mais magro, irmão.
Dionísio deu uma lufada pelo nariz e balançou a cabeça negativamente.
— Não me ofenda dessa forma.

Hermes ergueu a ponta da sua clâmide negra e pressionou o tecido contra o lábio inferior estourado. Ele esfregou a linha da mandíbula, limpando o rastro de sangue espesso, e cuspiu o excesso escuro que ainda amargava na sua boca diretamente no calçamento de pedra.
— Toda essa encenação e essa fantasia de fera peluda apenas para beber na poeira? — A voz saiu anasalada devido ao osso recém-quebrado, mas o tom era de ironia direta. — O Olimpo deve estar extremamente tedioso para você recorrer a um teatro tão barato.
Dionísio ergueu a mão esquerda, puxou uma uva verde do cacho farto que segurava e atirou-a na boca. A mastigação foi lenta e audível. Ele engoliu a fruta e abriu um sorriso brando.
— O disfarce atua como um filtro necessário, meu irmão — usava as palavras sem qualquer hesitação — Apenas os convidados verdadeiramente dispostos ao instinto e ao sacrifício permanecem até o fim da festa. Os covardes fogem ao primeiro sinal de suor e sangue.
Hermes travou o maxilar ao ouvir a palavra “irmão”. Os músculos dos seus braços enrijeceram. Ele estreitou os olhos, inspecionando cada milímetro da postura do Deus do Vinho em busca de um ataque velado, de um ressentimento.
Dionísio soltou um suspiro arrastado e caminhou a passos pesados até ao pilar de mármore rachado durante a luta. Encostou a sua clava rústica contra a pedra e deu as costas ao grupo para ajeitar sua túnica.
Hermes franziu o cenho.
“Ele está me subestimando?” Rangeu os dentes.
Magno e Sêneca trocaram um olhar rápido na margem da arena, acompanhando a dinâmica estática entre as duas divindades. Anaxímenes parecia petrificado.
Dionísio voltou a virar-se para o centro da praça. Ele cruzou os braços sobre o ventre proeminente e inclinou a cabeça para o lado.
— Você segue com os ombros tensos e os punhos cerrados, esperando algo que de mim não terá — Dionísio observou, apontando o dedo indicador para a postura defensiva de Hermes. — Aquele embate no chão encerrou a nossa disputa. Eu não alimento retaliações silenciosas. O que você fez ou deixou de fazer antes da sua queda não é um fardo que eu escolha carregar.
Hermes piscou devagar. A ausência total de mágoa na voz do outro desarmou a réplica afiada que ele preparava. Ele respirou fundo.
— Se não há dívidas a cobrar, então foquemos no nosso acordo. As respostas. Agora.
Dionísio arrancou outra uva verde do cacho. Ele a jogou para o alto, aparou-a com a boca e mastigou de forma ruidosa antes de quebrar o silêncio.
— Eu não sei muito sobre essas moedas esquisitas que carregas.
— Co-como é? — Hermes parecia genuinamente surpreso. — Seu maldito balofo! Você mentiu?
Dionísio gargalhou enquanto dava alguns tapas na própria barriga.
— Não, não. Eu apenas brinquei com as suas expectativas.
Hermes mostrou os dentes manchados de vermelho como as presas de um lobo.
— Tenha calma. Eu sei algo, apenas não tanto quanto você esperava.
O rapaz de cabelos brancos balançou a cabeça e suspirou.
“Como eu pude acreditar que um maldito Sileno me ajudaria.”
— Eu não sei quem forjou as moedas que você carrega. Eu não conheço o ferreiro ou o propósito — Dionísio abriu os braços. — Mas eu sinto a ressonância. Há outras por aí.
Os olhos do caído encararam o vazio em seguida. Ele já desconfiava disso, temia que várias outras pudessem existir, não apenas as que conhecia. Temia que o usurpador ou Circe tivesse posto as mãos em outras delas.
Dionísio pigarreou e cuspiu duas sementes de uva.
— Há uma peça dessas com presença mais forte no mundo. Sinto uma energia idêntica à que está no seu bolso vibrar no oeste. Nas fundações destruídas da Arcádia.
Hermes arregalou os olhos e apertou os punhos.
“É longe demais. Se eu for lá agora, vai atrapalhar minha descida a Creta.”
— Ah — exclamou Dionísio repentinamente, — aquele estranho fauno de Lácio, creio que se chama… Mer, hum, mar… Como era mesmo?
— Conte-me de uma vez o que diabos ele te disse!
O gordo coçou a bochecha. Não conseguira lembrar-se do nome.
— Contou-me um boato certo dia desses. Disse-me que um grupo de sábios em Mileto tem virado notícias com suas capacidades místicas. Talvez tenha alguma ligação com essas coisinhas.
Dionísio ergueu a mão e apontou o dedo indicador na direção da linha de cintura do rapaz de cabelos brancos. Uma ideia pareceu surgir em sua mente nesse momento.
— E no meio dessa neblina inteira, você carrega duas peças muito peculiares nesse bolso — Um sorriso de canto ressurgiu no seu rosto largo. — É irônico, não? O deus da velocidade, agora confinado à terra, caminhando com a essência de Tânatos e Hipnos na perna.
Hermes franziu o cenho em um olhar feroz.
— Você acha engraçado?
Seu irmão suspirou.
— Eu disse irônico, não cômico.
Outro bucado de uvas voou para sua grande boca.
Hermes moveu a mão instintivamente para perto do tecido da túnica, mas não tocou as moedas.
— O que você sabe sobre os gêmeos?
— Eu sei que não se ouve falar de nenhum dos dois há um tempo considerável — o Deus do Vinho respondeu, dando de ombros. — Tânatos sempre preferiu a reclusão. O silêncio da Morte é um padrão. Mas o sumiço de Hipnos é uma anomalia grave. O Sono costumava transitar entre nós com frequência. Agora, ambos evaporaram.
Dionísio atirou o cacho de uvas vazio para o lado. O galho seco bateu contra as pedras do calçamento. Seu olhar acompanhou, antes de se tornar distante.
— O Olimpo respira um silêncio doentio desde a sua partida…
Os olhos pequenos do deus do vinho se apertaram um pouco mais, pesarosos. Hermes ergueu o rosto, interessado.
— Ártemis e Afrodite vasculharam os salões. Elas encontraram rastros de uma energia estranha próximo dos aposentos de nosso pai.
Dionísio encarava o nada com certa melancolia.
— A mente de Zeus foi envenenada na época da cisão — seu tom tornou-se mais grave e as sobrancelhas se projetaram rigidamente. — Nós três cremos que alguém orquestrou aquela contenda. Uma manipulação direta, embora não tenhamos um nome ou um rosto para o culpado.
Hermes processou a informação. O sangue seco repuxou no seu lábio estourado quando ele cerrou os dentes. A constatação de que a sua queda foi arquitetada por uma terceira peça alterou a estrutura lógica que ele mantinha sobre o próprio exílio.
A imagem de Apolo voltou à sua mente. Sua expressão relaxou imediatamente.
“Eu tenho mesmo o direito de sentir raiva de alguém?”

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