Capítulo 150 | Pancrácio(2)
Hermes tocou o pé no chão e libertou o braço direito, deslizou o membro por baixo da axila esquerda do sileno e travou a articulação num gancho profundo e justo.
Num movimento contínuo, o deus girou o próprio quadril, deu as costas para o adversário e dobrou os joelhos, rebaixando o seu centro de gravidade até ficar abaixo da linha de cintura da fera.
“Não consigo vencê-lo com pura força.” Constatou.
Mas possuía uma técnica.
Bateu o quadril contra o abdómen do adversário e puxou o braço travado da criatura para a frente e para baixo com tração máxima. O centro de massa do sileno foi transferido e o seu corpo pesado foi catapultado pelo ar.
Descreveu um arco completo sobre o ombro de Hermes e chocou com as costas planas contra o chão de pedra maciça. O estrondo do impacto sacudiu a poeira da praça.
A força da colisão expulsou todo o ar dos pulmões do sileno num engasgo agudo, deixando a criatura estática e vulnerável sobre o calçamento rachado.
Assim que as costas colidiram contra a pedra, Hermes se atirou para o solo, assumindo o controle da posição.
O sileno debateu-se. A criatura desferiu joelhadas cegas no ar e balançou os braços largos na tentativa de afastar o oponente. Forçou os músculos do pescoço e tentou rolar o próprio corpo pesado para trás, visando esmagar Hermes contra o calçamento com o seu volume de massa bruto.
Hermes antecipou a transferência de peso. Ele deslizou pelo chão e posicionou-se exatamente nas costas da fera. O deus prendeu as duas pernas ao redor do quadril largo do sileno, cravando os calcanhares na parte interna das coxas adversárias. A fixação dos ganchos travou a base da criatura e impediu a rotação.
Em seguida, Hermes avançou para a imobilização final. Ele passou o braço direito por cima do ombro do guia e deslizou o antebraço por baixo do queixo peludo e rígido. A articulação do cotovelo de Hermes alinhou-se perfeitamente com a garganta do sileno. O deus segurou o próprio bíceps esquerdo com a mão direita e posicionou a palma da mão esquerda na nuca da criatura, fechando um estrangulamento direto.
Hermes comprimiu os braços com força total e pressionou o peito contra as costas do adversário.
Sileno arregalou os olhos. A criatura cravou as unhas grossas no antebraço de Hermes, rasgando a pele do deus em linhas retas e profundas para tentar afrouxar a chave. Os cascos pesados chutaram a pedra rachada repetidas vezes.
Hermes ignorou a dor dos arranhões e sustentou a contração muscular isométrica. O sangue que escorria do seu nariz e lábio estourados pingava continuamente sobre o ombro do adversário.
— Durma. — bramiu o lutador.

Os movimentos espasmódicos do sileno perderam a intensidade. Os músculos dos braços largos relaxaram e as garras soltaram a pele de Hermes. Os olhos de pupilas horizontais começaram a revirar nas órbitas. Um segundo antes de apagar por completo, o sileno ergueu a mão direita e bateu a palma espalmada contra o chão de pedra em três toques rápidos e sonoros.
O movimento sinalizou a desistência oficial e incondicional do combate.
Hermes desfez o estrangulamento de imediato, soltou o adversário, afastou-se e ergueu-se de forma lenta e arrastada.
Puxou o ar com dificuldade pela boca, passou as costas da mão pelo supercílio para limpar o sangue que ameaçava escorrer para os olhos e olhou para baixo.
Magno atravessou a praça e abraçou Hermes com um sorriso e exagerado entusiasmo.
— Pa-agh- solte-me seu idiota!
— Você ainda apanhou demais, pensei que ia perder pra um bode magricelas desse aí. — O gatuno zombou e empurrou Hermes no ombro, o que enviou mais uma onda de choque dolorosa pelo corpo do colega.
Hermes crivou os dentes com a dor e encarou o colega incandescido.
Sileno permaneceu deitado de costas no calçamento. A criatura tossiu de forma ruidosa, massageando a própria garganta com uma das mãos e puxando grandes volumes de ar para os pulmões.
Segundos depois, a tosse transformou-se numa gargalhada. O som grave e ecoante espalhou-se pela praça principal, silenciando por completo as conversas das ninfas e dos outros silenos ao redor.
Sileno sentou-se na pedra, apoiou os cotovelos nos joelhos grossos e olhou para o grupo de homens.
— Eu parabenizo vocês — declarou com um sorriso curto. — Fazia muito tempo que eu não experienciava uma festa tão boa e intensa quanto esta. Vocês abraçaram o instinto, mergulharam nos prazeres sem limites, demonstraram uma sagacidade brutal e não hesitaram em recorrer às trapaças exatas para sobreviver e vencer. Uma performance impecável.
Hermes e Magno se entreolharam um pouco tensos quando ele mencionou as trapaças. Engoliram em seco.
Anaxímenes se aproximou com Sêneca do centro da arena. Tinha uma mão no queixo e o braço cruzado sobre o peito. Seu olhar era duro para o Sileno.
— Bem dizes, caro anfitrião. — Seu olhar foi dos cascos ao rosto da criatura, como se o medisse. — Não me surpreende que admire a trapaça, haja visto o uso que fez dela durante todas as provas.
Todos os olhos se focaram no rapaz, chocados com as alegações.
— Co-como é? — O sileno engoliu em seco.
— Ora, eu atrapalhei sua brincadeira por ter notado o rastro elemental que envolvia seus cascos durante o salto? Ou mesmo as uvas estranhas que comia ao longo da corrida quando ninguém estava olhando? Pior, errei em ter notado essa energia que o envolvia durante o combate?
Um assovio cortou a arena na forma de uma brisa forte. Magno e Hermes encaravam a criatura com desconfiança. Sêneca, em reprovação.
Os outros espectadores se entreolhavam, dúbios se alguma outra pessoa havia notado qualquer uma das trapaças.
Sileno encarava o rapaz de queixo caído e olhos esbugalhados. Era caricato o suficiente para entregar o veredito.
— Be-bem, o que importa é que isso não alterou o resultado final, hahaha, — ele riu nervosamente balançando as mãos. — Agora, vamos aos prêmios e às respostas…
A criatura apoiou a palma da mão na rocha e ergueu o próprio corpo pesado, ficando novamente de frente para Hermes.
— Um acordo estabelecido deve ser cumprido. Você me superou no meu próprio território — o sileno continuou, abrindo os braços largos. — Eu falarei a você tudo o que sei sobre…
— Não.
Hermes cuspiu uma gota de sangue no chão, endireitou a postura dolorida e ergueu a mão direita, interrompendo a fala da criatura.
— Antes de qualquer coisa, mostre-nos sua verdadeira forma — Hermes exigiu com voz anasalada pelo ferimento, mas direta. — Não é educado apresentar-se disfarçado ao homem que o venceu.
Sileno silenciou imediatamente. Sua expressão nervosa deu lugar à surpresa genuína, um olhar humano demais para aqueles olhos caprinos encarou o rosto de Hermes.
Ele piscou devagar. Alisou a barba no queixo e assentiu num movimento curto com a cabeça.
Uma distorção visual súbita tomou conta do corpo do sileno. A imagem da fera ondulou como o ar quente sobre a brasa de uma fogueira, mas num tom arroxeado. A pelagem grossa, a musculatura disforme, os cascos pesados e o rosto alongado dissolveram-se de forma fluida, sumindo no ar.
No lugar da criatura bestial, materializou-se a figura de um homem de feições robustas, estatura imponente e um ventre proeminente e sólido. Ele vestia uma túnica branca, adornada com faixas roxas grossas e detalhes dourados. Uma coroa entrelaçada com folhas verdes e bagos de uva descansava sobre os seus cabelos curtos e a barba castanha espessa. Na cintura, uma clava gigantesca jazia presa a uma corda. Na mão esquerda, o homem segurava um cacho farto de uvas frescas.
Com um sorriso que fechou seus olhos por conta das imensas bochechas, o homem apanhou o aulos da cintura e levou à cintura para tocar uma longa e grave nota.
Magno, Anaxímenes e o recuperado Sêneca arregalaram os olhos, recuando um passo perante a transformação abrupta. Ao redor da arena de pedra, as ninfas selvagens e os dezenas de silenos dobraram os joelhos no chão, curvando as cabeças numa reverência absoluta e simultânea.
Hermes reconheceu as feições do homem sob a coroa de imediato. Seus olhos se estreitaram e ele levantou o queixo em desacato.
— Dionísio, o Deus do Vinho, das Festas e do Êxtase. Há quanto tempo, querido irmão.


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