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    Dionísio encarava o nada com certa melancolia.

    — A mente de Zeus foi envenenada na época da cisão — seu tom tornou-se mais grave e as sobrancelhas se projetaram rigidamente. — Nós três cremos que alguém orquestrou aquela contenda. Uma manipulação direta, embora não tenhamos um nome ou um rosto para o culpado.

    Hermes processou a informação. O sangue seco repuxou no seu lábio estourado quando ele cerrou os dentes. A constatação de que a sua queda foi arquitetada por uma terceira peça alterou a estrutura lógica que ele mantinha sobre o próprio exílio.

    A imagem de Apolo voltou à sua mente. Sua expressão relaxou imediatamente.

    “Eu tenho mesmo o direito de sentir raiva de alguém?”

    — Enfim, creio ter satisfeito as tuas dúvidas.

    Dionísio caminhou até ao pilar de mármore e recuperou a sua clava rústica. Ele apoiou o osso colossal sobre o ombro direito com uma facilidade que desmentia o peso do objeto e começou a afastar-se do centro da praça, na direção das vielas laterais.

    Hermes acompanhou o movimento do irmão com um olhar fixo, as mãos pendidas ao lado do corpo, ainda sujas com o sangue seco do combate. O silêncio da praça, antes preenchido pelos gritos dos silenos, tornara-se denso.

    Quando Dionísio estava a poucos metros de desaparecer entre as sombras das ruínas, Hermes deu um passo involuntário à frente. O seu pé direito arrastou-se na pedra rachada antes que ele pudesse conter o impulso.

    — Está voltando para o Olimpo? — a pergunta escapou-lhe da boca antes que o filtro da sua arrogância a pudesse barrar.

    No instante seguinte, Hermes travou a respiração e baixou os olhos. Ele sentiu o músculo do maxilar contrair-se com tanta força que os dentes rangeram. Admoestou-se mentalmente, amaldiçoando a própria língua por ter exposto aquela curiosidade vulnerável, por ter admitido, num deslize de cinco palavras, que o destino daquela montanha ainda ocupava os seus pensamentos.

    Dionísio parou e inclinou o rosto por cima do ombro, permitindo que a luz do entardecer iluminasse a sua barba castanha e o brilho brando dos seus olhos. O Deus do Vinho não exibiu um sorriso de troça nem uma expressão de pena.

    — Não, caro irmão. Estou seguindo para o norte. Venha me visitar alguma hora.

    Os olhos de Hermes subiram imediatamente, a boca aberta numa mistura de confusão e surpresa.

    O gigante já havia sumido. No instante seguinte, no entanto, uma voz surgiu na mente do deus caído.

    “Tire esse carrasco de dentro do peito, Hermes. Absolva-se e siga sua jornada. Eu tenho certeza de que ele também já te perdoou.”

    Anaxímenes, que até então observava a cena com uma mistura de espanto e frustração, deu uma corrida curta à frente, erguendo a mão.

    — Espera! Eu ainda tenho perguntas sobre a natureza da…

    O rapaz de Mileto contornou o barril logo atrás do deus, mas estacou subitamente. Ele olhou para a esquerda, depois para a direita, e correu até ao meio da rua seguinte. Estava vazia.

    O som dos tambores, que pulsava de forma rítmica e abafada desde que chegaram a Focéia, cessou de forma instantânea. O cheiro denso a vinho, suor e carne assada evaporou-se, substituído pelo odor seco de poeira e pedra antiga. As dezenas de silenos e as ninfas de cabelos coloridos que ocupavam cada fresta das ruínas simplesmente deixaram de existir.

    Hermes, Magno e Sêneca olharam ao redor. O assentamento de Focéia voltara a ser apenas uma carcaça de pedra abandonada e silenciosa sob a luz pálida da lua que começava a surgir.

    Eles estavam sozinhos.

    Anaxímenes voltou para o centro da praça com passos duros. O rapaz cruzou os braços sobre o peito e cravou um olhar irritado nas costas de Hermes.

    — Você monopolizou a atenção de um Deus por completo — reclamou num tom estridente que fez o ouvinte querer tapar os ouvidos. — Eu não consegui formular uma única pergunta. Isso foi de um egoísmo prático absurdo.

    O deus ignorou a existência do rapaz e continuou a limpar o resto de sangue do próprio queixo, com os olhos fixos na viela por onde Dionísio desaparecera.

    Magno soltou uma risada nasalada e aproximou-se do jovem de Mileto.

    — Aquele que foi subjugado por uma náiade em questão de minutos e não somou uma única vitória para o grupo não possui o direito de exigir tempo de fala — o ladrão zombou, cruzando os próprios braços. — Faça um favor a todos e fique calado.

    Anaxímenes abriu a boca para retrucar a ofensa, mas Sêneca interveio. Olhou para as ruínas desertas ao redor e pigarreou, cortando a discussão inútil.

    — Bem… para Mileto, eu suponho? — Sêneca perguntou, utilizando um tom estritamente interrogativo e pragmático.

    Anaxímenes fechou a boca e soltou um suspiro pesado e arrastado. Ele desfez a postura defensiva e avaliou os três homens à sua frente.

    — Esperem.

    Ele ajeitou o broche de aranha no ombro. 

    — Apesar de o grupo abrigar um membro excessivamente folgado e rabugento… — ele cravou os olhos em Magno por um segundo — …eu desenvolvi um interesse genuíno por vocês. Darei-lhes uma carona até Mileto.

    Hermes franziu o cenho. O deus virou-se e mediu as ruelas estreitas e cheias de entulho de pedra de Focéia.

    — Você possui uma carroça escondida nesses escombros?

    O rapaz torceu o nariz.

    — Nah. Carroças são estruturas rústicas e demasiadamente lentas.

    Então, levou os dedos indicador e médio da mão direita à boca, encheu os pulmões e emitiu um assovio alto e agudo que ecoou pelas paredes do assentamento abandonado.

    O silêncio reinou por três segundos. Logo depois, uma sombra bloqueou a luz pálida da lua sobre a praça.

    Um tapete retangular e bem largo, tecido com fios espessos e padrões geométricos complexos em vermelho e dourado, desceu do céu escuro. A tapeçaria estabilizou a queda e pairou de forma estática e perfeitamente nivelada a dez centímetros do calçamento de pedra, sustentada por uma força motriz invisível.

    Anaxímenes deu um passo à frente e pisou no artefato. O tecido cedeu milímetros sob o peso das suas sandálias, mas manteve a flutuação constante.

    — Subam.

    Hermes encarou o rapaz e o tapete com desconfiança, estava prestes a enchê-lo de perguntas, mas o cansaço começava a consumí-lo. Ele subiu em silêncio.

    Sêneca embarcou a seguir, analisando as fibras do artefato com evidente curiosidade acadêmica.

    Magno praguejou baixinho, resmungando sobre a exibição espalhafatosa do garoto, mas caminhou até à borda e subiu no tapete. 

    Assim que os quatro estabilizaram o peso sobre a tapeçaria, o tapete voador ganhou altitude num impulso rápido e silencioso. 

    O veículo mágico ultrapassou a linha das ruínas mais altas de Focéia e rasgou as correntes de ar do céu noturno, acelerando numa trajetória direta para o sul.

    Em direção a Mileto.

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