O som dos martelos havia voltado.

    Caminhões passavam carregando entulho, equipes trabalhavam nas fachadas destruídas, grades de contenção cercavam ruas que ainda não podiam ser usadas. O cheiro de poeira permanecia no ar, mas, aos poucos, a cidade parecia tentar se convencer de que tudo estava voltando ao normal.

    Nos campos de treino da Nexus, os alunos também haviam voltado à rotina.

    Golpes estão sendo praticados, passos repetidos, instrutores observando em silêncio.

    O torneio estava próximo.

    Lance treinava, repetindo movimentos.

    Avanço, socos.

    Erro.

    Ganchos, recuo.

    Soca bonecos e paredes.

    Recebe pancadas de propósito em seu corpo.

    Ele já estava cansado, coberto de suor, respiração pesada, mas continuava treinando.

    Dessa vez, rápido demais.

    Os braços começam a tremer.

    Ele usa sua gravidade para se mover mais rápido, porém perde o equilíbrio e erra o golpe.

    — Acho que se machucar antes do torneio não é a opção mais inteligente!

    Lance nem se virou, apenas limpou o suor do rosto.

    Katsu estava parado na entrada do campo, apoiado na parede com os braços cruzados.

    — Eu vim pegar água — continuou, dando de ombros. — Mas aí eu vi alguém tentando assassinar um boneco de madeira e pensei: “Cara, por acaso você é madeirofóbico?”

    Lance se vira, sem entender o que Katsu falou.

    — O que você ta falando?

    Katsu ri.

    — Não é nada…

    Katsu suspirou e caminhou até o suporte ao lado.

    Pegou uma luva de treino.

    — Beleza, vou tentar também.

    Ele imitou a postura do Lance.

    Avançou.

    Errou feio.

    Ele tenta novamente.

    Girou.

    Quase tropeçou.

    — …Isso foi intencional.

    Katsu tentou de novo. Dessa vez acertou melhor, mas ainda longe da precisão de Lance.

    Lance suspira.

    — A posição está errada!

    Ele se aproxima de Katsu, segura seu braço, ajeita sua postura.

    — Quando gira o quadril, tenta jogar o peso do corpo quase como transferindo para o soco.

    Katsu assume a postura e tenta novamente.

    Agora acerta com precisão.

    — Impressionante, nunca consegui acertar um soco assim!

    — Eu preciso ficar mais forte. — Lance fala baixo enquanto olha para o punho.

    Katsu inclinou a cabeça.

    — Todo mundo precisa.

    — Não é a mesma coisa.

    O vento passou entre eles.

    — Então vamos ficar mais fortes juntos. Mas se você está deixando sua perna e torso expostos durante os golpes!

    — Sério? Como você percebeu?

    — Eu sou um espadachim, se estivesse com minha espada, você teria levado vários cortes!

    Lance para e olha para seu corpo.

    — Posso te ajudar a melhorar a guarda e reflexos, mas preciso que me ensine a usar os punhos, parece que não será permitido armas no torneio…

    — Claro, vamos lá!

    Anoiteceu.

    As luzes do campo estavam parcialmente apagadas.

    Lance avançava mais uma vez. O corpo mais lento. A respiração pesada. A visão turva por um instante.

    O pé deslizou, ele caiu de joelhos.

    Passos se aproximaram.

    Katsu se joga ao chão, se deitando ao lado de Lance, também ofegante.

    — Meu Deus, você é mais louco que meu tio treinando!

    Silêncio.

    “Eu não aguento mais, quero desistir, parece que vou morrer!” — Katsu pensa, chorando por dentro.

    Ele olha para o lado e se levanta, estendendo a mão.

    — Levanta. A gente ainda não terminou.

    Lance olhou para a mão por um instante longo demais.

    — Você não precisa fazer tudo isso por mim, Katsu!

    — Não é nada disso, Lance, eu também quero treinar, e eu estou gostando, tá tranquilo.

    Então segurou.

    Levantou-se e retomou a posição.

    No prédio administrativo da Nexus, uma reunião era encerrada.

    — As delegações internacionais já confirmaram presença — disse um dos responsáveis. — Segurança reforçada em todas as entradas. Nenhuma falha será tolerada.

    Uma tela exibia o cronograma.

    Início do Torneio Nexus: três dias.

    Do outro lado do mundo.

    No Japão.

    O som de corpos caindo ecoou no salão de treino.

    Um garoto de cabelos vermelhos escuros limpava o suor após ter derrubado 10 soldados no chão.

    A porta se abre.

    — Fallon, o torneio foi adiado para a outra semana, então não vamos estar saindo hoje! — Um jovem com cabelos brancos e expressão fria fala enquanto lê uma carta. — Também outros quatro milagres irão participar!

    Fallon soltou um riso baixo.

    — Então finalmente vamos conhecer os outros.

    — Rays e Seth foram nomes sobre os quais ouvi falar muito bem.

    — Só nomes?

    — Por enquanto.

    Fallon pegou a toalha sobre o banco.

    — Hm. Achei que fossem fazer mais barulho sobre gente no nosso nível.

    — Assim espero, falaram que nossa equipe era do nosso nível, no final são todos fracos.

    — Se forem fracos… — Fallon comentou, jogando a toalha sobre o ombro. — Vai ser decepcionante.

    — Ser chamado de milagre não significa muita coisa. — Fubuki respondeu. — Não depois que começaram a nos usar como padrão.

    Fallon sorriu de canto.

    — Tomara que pelo menos um deles sobreviva até a final.

    Fallon começou a caminhar em direção à saída.

    — Você sabia que o seu irmão vai estar na 3ª divisão?

    Fallon parou.

    Um breve silêncio se instalou.

    Ele desviou o olhar.

    — Meio-irmão! Mas fiquei sabendo sim, espero não enfrentar ele…

    Fubuki ergueu a sobrancelha.

    — Por que não?

    — Porque seria uma perda de tempo, qual destaque eu teria em vencer um fraco?

    Silêncio.

    — Se ele não for eliminado na primeira fase, já vai ser mais do que eu espero.

    Fubuki não respondeu de imediato.

    Apenas o acompanhou até a porta.

    — Mas, sendo sincero, estou sentindo que esse torneio vai ser divertido, não sei o porquê.

    Fallon sorriu de leve.

    Ele olha para a prancheta e vê um nome estranho, franzindo a testa.

    — Fubuki, esse Lance Shelford é um dos milagres?

    Fubuki confere em sua prancheta.

    — Não, esse eu nunca ouvi falar, o Shelford que conheço é o milagre Søren, mas ele não vai participar do torneio.

    — Deve ser um fraco com apenas um sobrenome de valor!

    A porta automática se abriu.

    Alguns dos soldados de treinamento que ainda estavam no corredor imediatamente se afastaram ao vê-los passar.

    — E o Fantasma de Gelo, e o Imperador… — alguém murmurou baixo, ao fundo.

    Fubuki e Fallon não reagiram.

    Eles apenas continuaram andando.

    De volta à Nexus, Lance desferiu mais um golpe.

    Dessa vez, controlado.

    Agora ele consegue atacar e manter a defesa alta.

    Katsu melhorou sua postura e golpes com mais força, seu boxe melhora significativamente.

    Ao longe, alto-falantes ecoaram pelo campus:

    — Atenção a todos os participantes. Faltam três dias para o início oficial do Torneio Nexus. As equipes deverão se apresentar conforme o cronograma divulgado.

    O som se espalhou pelos corredores.

    Os preparativos começaram.

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