Capítulo 2454 - Lobo Solitário
O Niilista… era o nome idiota que os jornalistas deram ao predador desequilibrado que espreitava pelos becos escuros de Miragem1.
Os assassinatos pareciam aleatórios, mas foram executados com tanta perfeição que não podiam ser outra coisa senão um planejamento meticuloso. O assassino também não fazia distinção na escolha das vítimas, deixando a cidade inteira em alerta. O incidente que levou Sunny a ser enviado para aconselhamento obrigatório, bem como a promoção repentina do novo capitão, também estavam conectados ao Niilista.
‘Merda. Até eu estou começando a chamá-lo por esse nome idiota.’
Sunny não só odiava a ideia de dar a um perdedor doente e covarde um nome tão pomposo como aquele, como também era uma espécie de deslealdade pessoal para ele. O assassino não deixou rastros e escolheu suas vítimas por meio de um processo aparentemente sem sentido, então os jornais inventaram um apelido sinistro — o Niilista — para chamar mais atenção para a história e vender mais exemplares.
Cada vez que uma nova vítima era encontrada, sua receita publicitária explodia. Políticos, por sua vez, faziam discursos apaixonados para construir plataformas populistas, ao mesmo tempo em que introduziam leis invasivas sob o falso pretexto de garantir a segurança pública para reforçar seu controle sobre a população. Muitos fantasmas se beneficiavam das mortes horríveis das vítimas do assassino em série…
Mas já era o suficiente.
Os mesmos políticos que usaram o pânico público para marcar pontos começariam a parecer tolos se o niilista não fosse pego logo. A imprensa não podia continuar vendendo a mesma história repetidamente sem perder o interesse do público. E os policiais que haviam ascendido na carreira com promessas de resultados rápidos estavam cada vez mais desesperados para produzi-los.
Então, não importava o quanto o novo capitão não gostasse e fosse ameaçado por Sunny, ele não podia fazer nada a respeito. Porque Sunny era de fato o melhor detetive da divisão, de longe. Ele havia subido na hierarquia de forma justa e honesta, primeiro como policial de ronda, depois como detetive na Divisão de Crime Organizado… naturalmente, ele fez mais do que alguns inimigos na corrupta e podre Polícia de Miragem como resultado.
O fato de nunca ter sido rebaixado ou demitido era a melhor prova de quão bom ele era no que fazia. Embora seus métodos fossem frequentemente confusos, Sunny sempre trazia resultados. O novo capitão o encarou silenciosamente, fervendo de fúria. Mas Sunny não se importava — ele iria capturar o niilista, e um mero bajulador não o deteria.
“Então… posso dar uma olhada na cena do crime antes que a chuva leve tudo embora? Senhor.”
O velho rangeu os dentes e depois praguejou alto.
“Tudo bem! Vou te dar o caso, droga! Mas fique avisado: se você não prender esse doente, vai ser a sua cabeça que vai voar. Vou te entregar para os jornais e te transformar num bode expiatório de verdade. Depois não diga que eu não avisei!”
Sunny deu de ombros com um sorriso irônico.
“Novidade? Vou indo então.”
O capitão se inclinou para frente.
“Calma, seu babaca. Eu disse que te entregaria o caso, mas não disse que não haveria condições. Na verdade, eu tenho uma condição.”
Sunny soltou um longo suspiro.
“Por que todo mundo quer me dar condições hoje? Capitão… você não vai me dar seu número também, vai?”
O velho zombou.
“Que diabos você está… na verdade, deixa pra lá. Você pode ficar com o caso, mas eu vou te designar um parceiro. Alguém tem que te proteger, de qualquer forma — para que o incidente recente não se repita.”
Sunny franziu a testa profundamente e então disse com um toque de raiva mal contida na voz:
“Ora, nem pensar. Você sabe que eu trabalho sozinho, Capitão.”
O capitão olhou para ele com os olhos arregalados.
“Que tipo de besteira você está falando? Você bateu a cabeça várias vezes em algo duro, Sunny? Você trabalha sozinho… o quê? Não importa qual seja a sua preferência, aqui é o Departamento de Polícia de Miragem. Existem regras que até mesmo idiotas como você têm que seguir.”
Ele balançou a cabeça, depois suspirou e acenou com a mão.
“Se você está preocupado achando que é alguém que eu estou enviando para te espionar, não se preocupe. Esta é uma… situação diferente. Ela é uma boa garota — uma ex-atleta nacional com uma história empolgante de superação. Ela é o orgulho da nação, o orgulho! Entendeu? Estávamos todos comemorando quando alguém assim se matriculou na Academia de Polícia!”
O velho suspirou melancolicamente.
“Ela também se formou em primeiro lugar na turma e se saiu excepcionalmente bem como policial de patrulha. Como resultado, ela estava a caminho de se tornar detetive antes, bem… enfim, agora que ela voltou de uma licença-maternidade prolongada e foi promovida para a Divisão de Homicídios, quero que você mostre a ela o básico. E seja gentil!”
Sunny estudou o capitão com ar de dúvida.
“Na verdade, não entendi. É por isso?”
O velho olhou para ele com desgosto e então suspirou novamente.
“Bem… e ela fica ótima num pôster. Não que um bandido como você entenda a importância de uma imagem limpa e comovente. Então, quando os repórteres te atacarem — e você sabe que eles farão isso, considerando o caso —, quero que você a coloque firmemente na frente das câmeras e dê um passo para trás. Melhor ainda, dê três passos e saia da cena, seu desgraçado rabugento. Você não gosta de lidar com relações públicas de qualquer maneira, então é uma situação em que todos ganham.”
Ele se inclinou para frente e acrescentou em tom uniforme:
“De qualquer forma, não é uma discussão. É uma ordem. Ou você pega um parceiro e entra na brincadeira, ou eu passo o caso para outra pessoa.”
Sunny permaneceu em silêncio por um tempo, olhando sombriamente para o velho.
‘Então, ele quer que eu leve uma mãe esgotada e a deixe ficar na frente das câmeras?’
Tudo dentro de Sunny se rebelava contra a ideia de trazer alguém cujo único valor era a aparência atraente para a caçada ao Niilista. Mas ele entendia que, se havia uma coisa com a qual os superiores se importavam, era o visual.
Uma atleta nacional — com uma história inspiradora, nada mais, nada menos — escolher o Departamento de Polícia foi uma grande vitória para a Divisão de Relações Públicas. Agora que ela era uma mulher de família e uma mãe dedicada, todos provavelmente estavam salivando. Suavizar a imagem da força policial tradicionalmente rude, predominantemente dominada por homens, foi uma coisa que esses canalhas não conseguiram resistir.
E daí se ele tinha que carregar um peso morto por aí? Cuidar de uma novata fraca e inútil não era o pior castigo. E se aquela garota-propaganda… bem, a mãe-propaganda… acabasse realmente morta como resultado, a culpa seria dela. Não dele. Sunny xingou baixinho e depois assentiu.
“Tudo bem. Contanto que ela não atrapalhe, não vou mandá-la de volta para brincar de casinha.”
O capitão lançou-lhe um longo olhar.
“Ótimo. Ela estará esperando por você na cena do crime. Agora, saia da minha sala!”
Sunny se levantou e fez exatamente isso, já pensando no que encontraria na cena do assassinato.
‘Essa maldita chuva…’
A água podia lavar o sangue e, às vezes, até mesmo os cadáveres. Mas não conseguia lavar o pecado. Limpar a cidade do pecado era o trabalho de Sunny, e ele era muito bom nisso — mesmo que, no processo, mais sangue fosse derramado.
- vou tirar essa merda de “cidade” e deixar só miragem[↩]

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