Capítulo 2489 - Busca do Equilíbrio
“Senhorita Morgan? Você consegue me ouvir?”
Santa suspirou.
A mulher à sua frente não respondia. Estava presa a uma camisa de força, sentada em uma cadeira de rodas, olhando silenciosamente para a janela gradeada de seu quarto de paciente, com uma expressão ausente no rosto pálido.
O mundo do lado de fora da janela estava escuro. Já era tarde da noite, muito depois do horário previsto para Santa sair do trabalho. Sua agenda estava em frangalhos… o que a deixava extremamente frustrada. No entanto, ela não podia fazer nada a respeito — aquela paciente em particular dava um significado totalmente novo à palavra VIP, então Santa fora designada para ela e ordenada a investigar seu estado o mais rápido possível.
Ela vinha passando muito tempo com essa paciente ultimamente, mas as coisas não iam bem. Isso feriu seu orgulho. Senhorita Morgan… era um quebra-cabeça difícil.
Às vezes, ela era desequilibrada e assustadoramente astuta, e pior do que isso, era propensa a episódios de violência. O pior de tudo, porém, era o fato de que essa mulher aparentemente delicada, de alguma forma, conseguia infligir ferimentos assustadoramente horríveis aos enfermeiros cada vez que tentavam contê-la. Vários já haviam sido hospitalizados, alguns deles irreversivelmente mutilados e aleijados.
Por isso, a Srta. Morgan foi colocada em uma camisa de força e alimentada regularmente com um coquetel de neurolépticos poderosos, o que controlou parte de seu comportamento violento, mas tornou o trabalho de Santa muito mais difícil. Afinal, como ela poderia ter uma conversa com uma pessoa que estava drogada e fora de si?
Era quase como se a direção do hospital não tivesse intenção de ajudar a paciente e estivesse perfeitamente satisfeita em mantê-la internada. Soltando outro suspiro, Santa deixou um bilhete em seu diário e se levantou para sair.
“Então, te vejo amanhã.”
Ela estava quase na porta quando Morgan falou de repente — foi a primeira frase que ela falou naquele dia, fazendo Santa parar.
“Você… há algo diferente em você hoje.”
Santa permaneceu ali por um momento e então se virou. Ela não disse nada, estudando seu paciente em silêncio. Morgan também a estudou.
… Por que parecia que seus olhos tinham um brilho escarlate?
Naturalmente, era impossível. A pigmentação da íris era determinada pelo nível de saturação de melanina e variava de marrom ou marrom escuro, que podia parecer preto em certas condições de iluminação, a tons mais claros como verde, azul e cinza. Em casos raros, como albinismo, a melanina estava totalmente ausente, o que expunha os vasos sanguíneos atrás da íris e conferia aos olhos uma tonalidade avermelhada pálida.
Entretanto, não havia pessoas com olhos vermelhos vibrantes e vívidos. Santa franziu a testa sutilmente.
‘Devo ter visto errado.’
Morgan, enquanto isso, sorriu lentamente.
“Você é… real, não é? Mas que estranho. Eu não te reconheço. Bem, tanto faz — já que você chegou com aquele homem, deve ser um dos dele.”
Ela parecia estar delirando, falando bobagens. Aliás, considerando a quantidade de medicamentos antipsicóticos administrados à paciente, era um milagre que ela conseguisse formar frases coerentes. Mas o sorriso de Morgan não parecia o de uma pessoa sob efeito de tranquilizantes.
Ela riu baixinho.
“Diga a ele para vir me ver.”
Ela olhou para algo atrás de Santa e então expirou lentamente.
“… Mas talvez eu mesmo vá vê-lo.”
Com isso, ela se virou para olhar pela janela com uma expressão ausente mais uma vez. O breve momento de lucidez parecia ter chegado ao fim. Santa permaneceu em silêncio por alguns instantes, depois se virou e saiu da sala. A porta de aço acolchoada se trancou atrás dela com um clique alto.
“O estado dela parece ter piorado. Preciso fazer com que mudem a receita dela a qualquer custo.”
Uma enfermeira desconhecida e alguns auxiliares de enfermagem perambulavam pelo corredor do lado de fora. Ela não reconheceu nenhum deles, o que seria estranho em um dia normal… porém, havia muitas novas contratações ultimamente, justamente por causa do paciente no quarto atrás dela. Santa ainda não havia memorizado seus rostos.
Ainda assim, o fato de serem novos não significava que houvesse desculpa para o quão mal estavam desempenhando suas funções. Santa franziu a testa e então se forçou a falar:
“Você sabe que horas são? Por que ninguém ajudou a paciente a se deitar ainda? Você planejava mantê-la naquela cadeira de rodas a noite toda?”
Um dos enfermeiros olhou para baixo.
“Desculpe, doutora. Vamos prendê-la agora mesmo.”
Balançando a cabeça levemente, Santa os deixou para trás.
Sua agenda já era uma bagunça, mas se havia uma coisa da qual ela não podia abrir mão era de um sono reparador. O sono era fundamental para a saúde física e mental, então Santa mantinha um ciclo de sono saudável meticulosamente. Ela precisava bater o ponto e voltar para casa rapidamente.
Logo, Santa saiu do prédio do hospital, abriu um guarda-chuva e foi até onde seu carro estava estacionado. Ela olhou para o telefone enquanto caminhava para verificar as horas e notou uma dúzia de chamadas perdidas de um determinado número. O detetive Sunless parecia não ter levado seu aviso a sério. Franzindo os lábios, Santa bloqueou o número dele e guardou o celular, pegando a chave do carro. Aproximando-se do carro, ela expirou lentamente e olhou para cima.
O hospital ficava nos arredores da cidade, nos prestigiados subúrbios da zona norte. Portanto, a vista teria sido bastante pitoresca em um dia normal — infelizmente, o mundo estava encoberto pela chuva e as estrelas, obscurecidas pela densa massa de nuvens de tempestade.
As únicas luzes brilhantes que Santa conseguia ver eram os holofotes na imensa represa que se elevava sobre a cidade ao norte. Atrás dela, ficava um dos três grandes lagos de Miragem — devido às fortes chuvas, seus níveis haviam subido, então as comportas da represa recém-reformada estavam abertas.
Santa conseguia ouvir o zumbido da água caindo mesmo à distância. Essa água alimentaria o lago principal — o Lago Espelhado — e, como se não bastasse, as comportas da barragem ao sul também estariam abertas para aliviar a pressão.
Foi assim que Miragem, construída em torno de um sistema de três lagos artificiais, evitou o afogamento durante a temporada de tempestades. Permaneceu sã e salva, mantendo o equilíbrio, liberando a pressão quando necessário e permitindo que a água fluísse entre os três lagos.
Afinal, todos os sistemas buscam o equilíbrio acima de tudo. Essa era a sua natureza. A mente humana era praticamente a mesma. Precisava de equilíbrio para se manter saudável… todos os distúrbios se originavam da instabilidade e do desequilíbrio.
Santa se perguntou qual seria o desequilíbrio da Srta. Morgan. O que faltava a ela, que tinha tudo no mundo ao seu alcance? Ou seria exatamente essa a raiz do problema…
O fato de que ela tinha demais. Balançando a cabeça, Santa levantou a chave para destrancar o carro.
Foi então que ela sentiu um movimento atrás dela e, de repente, havia algo afiado e fino enrolado em seu pescoço.

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