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    Santa não respondeu, olhando para Mordret com uma expressão congelada. Ela parecia atordoada com a traição. Antes, havia pelo menos uma pessoa que se recusava a compartilhar da insanidade. Mas agora, até ele se fora, tendo escolhido se juntar aos lunáticos.

    Ela foi deixada completamente sozinha. Havia uma sutil sensação de desistência em seus lindos e brilhantes olhos. Morgan balançou a cabeça e olhou para Mordret.

    “Bem, agora que todas as pretensões acabaram, vamos ter uma conversa honesta… querido irmão?”

    Mordret lentamente retraiu a mão e olhou para baixo. Ele ficou em silêncio por um tempo, com os ombros caídos. Por fim, disse baixinho: “Claro, claro. O que você quiser, Morgan.”

    Ela o estudou com uma expressão impassível.

    “Você não está curioso sobre nada? Não tem perguntas para mim?”

    Mordret balançou a cabeça lentamente.

    Morgan suspirou e recostou-se um pouco. “Bem, então, deixe-me atualizá-lo. Você perdeu muitos eventos interessantes, afinal… admito que entretê-lo com essas histórias pode ser um castigo cruel demais. Mas, pensando bem, você não é exatamente inocente, é?”

    Ao ouvir isso, Mordret finalmente ergueu os olhos. “Do que exatamente sou culpado?”

    Seu tom era hesitante. Morgan sorriu sombriamente.

    “Aprendi algumas coisas interessantes com os detetives. No dia em que seu carro foi jogado da ponte, seu motorista não morreu apenas devido aos ferimentos sofridos no acidente, morreu? Ele foi morto com uma lâmina afiada… seu irmão deve ter segurado aquela faca, mas você o encobriu. É disso que você é culpado.”

    A expressão de Mordret ficou um pouco preocupada. “Ele estava… só tentando me proteger.”

    Morgan riu baixinho.

    “Tenho certeza de que sim. Você se convenceu de que ele te jogou no Grande Espelho para protegê-la também? Qual é. Eu sei que você não é burro — você tem que ser diabolicamente inteligente, ou melhor, ser a cópia espelhada dele.”

    Mordret não respondeu, o que a levou a sorrir com desdém.

    “Aposto que não adianta perguntar quem é o Castelão. Naturalmente, ele teria escondido essa informação de você — para que você não assumisse o controle total do Palácio da Imaginação e escapasse.”

    Não houve resposta. Morgan zombou.

    “Deixe-me contar como o outro Mordret se saiu no mundo real, então. Sua vida aqui deve ter sido muito boa, mesmo que nada disso fosse real. Cercado por uma família amorosa e vivendo em um mundo pacífico… você deve ter esperado que ele também estivesse se divertindo lá fora. Ah, mas vou ter que te decepcionar. Ele não estava.”

    Mordret estremeceu ligeiramente. Ela olhou para longe com uma expressão melancólica.

    “Presumo que você ainda se lembre de que nossa mãe biológica faleceu. Só nos restou nosso pai… mas quando seu outro eu retornou à Bastion, meu pai nunca o aceitou de fato como seu. Para ser justa, havia algo muito errado com meu querido irmão — ele era sinistro, assustador, excepcionalmente cruel e não sentia nenhum remorso. A Criatura dos Sonhos deve ter te deixado muito mal, né?”

    Morgan balançou a cabeça.

    “O outro Mordret também era excepcionalmente talentoso, inteligente e imensamente poderoso para um mero Desperto. Mas nosso pai já duvidava de sua herança, desconfiava dele por causa dos anos que você passou sendo criado pela Criatura dos Sonhos e se preocupava com sua estranha personalidade. Portanto, esse poder excepcional só fazia o jovem Mordret parecer mais perigoso. Logo, o Clã Valor decidiu se livrar dele.”

    Mordret olhou para baixo, com o rosto contorcido. Morgan continuou:

    “Então, nós o matamos. Só que ele não morreu de verdade… e por mais que tentássemos, ele permaneceu vivo. No fim, construímos uma armadilha inescapável para ele. É engraçado, na verdade — você é quem deveria estar preso, mas, na verdade, foi ele quem acabou numa gaiola. E era uma gaiola muito menos confortável do que o Palácio da Imaginação, veja bem.”

    Ela suspirou.

    “Ah, mas ele massacrou seus guardas e escapou da prisão inescapável. Depois disso, tornou-se Mestre, depois Santo. Conspirou com nossos inimigos para nos destruir, perpetrou um massacre horrível após o outro e devastou os dois mundos como uma fera sanguinária.”

    Morgan sorriu sombriamente.

    “O que mais há para dizer? Ah… nosso pai está morto, aliás. Decapitado no final de uma guerra devastadora que ele mesmo havia iniciado. Ki Song também está morta. Bastion tem um novo mestre, e o Clã Valor não existe mais. Você e eu — vocês dois — somos tudo o que resta, além de alguns membros das famílias secundárias.

    Mordret respirou fundo, trêmulo. Ele permaneceu em silêncio por um tempo, então de repente levantou a cabeça e olhou para Morgan.

    “E quanto à Criatura dos Sonhos?”

    Ela parou por alguns momentos.

    “Ele foi traído pelo nosso pai e selado. Ninguém mais o viu ou ouviu falar dele por muito, muito tempo.”

    Mordret soltou um pequeno suspiro.

    “Entendo. Isso é… bom, eu acho.”

    Morgan o estudou atentamente e então disse calmamente:

    “Agora, é hora de fazer perguntas.” Ela se inclinou um pouco para a frente e sorriu.

    “Eu compartilhei qual é o meu Defeito com você, então é justo perguntar. Você… você foi dividido ao meio, não foi? É por isso que existem dois de vocês — duas metades do mesmo todo. Um gêmeo bom e um gêmeo mau. Um homem e seu reflexo monstruoso. Esse é o seu Defeito? Qual de vocês é o verdadeiro Mordret e qual de vocês é o reflexo?”

    Mordret olhou para ela com um sorriso triste. Ele permaneceu em silêncio por um tempo e depois balançou a cabeça.

    “Não, você está errada.”

    Ele fez uma pausa, suspirou e recostou-se. “Nós dois somos reais, e nosso Defeito não nos partiu ao meio. Em vez disso, nos estilhaçou… nos partiu em sete pedaços.”

    Morgan piscou algumas vezes, atordoado. “O quê? São… são sete?”

    O sorriso de Mordret desapareceu. Ele demorou-se alguns instantes e então disse em tom triste:

    “Éramos sete. No começo… mas agora somos só dois.”

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