Capítulo 303: Sombra Útil
O favelado pressionou o dedo contra os lábios e sibilou exasperado:
“Retire o que disse! Você está louco?”
Sunny piscou.
“O quê? Não. Bem, eu era louco por um tempo. Mas agora não sou mais.”
O jovem olhou para ele com dúvida e balançou a cabeça:
“Mesmo assim, não se arrisque. Você pelo menos tem uma Memória para mantê-lo seguro?”
A questão de se armar era um grande problema para os seguidores de Nephis. Mais da metade deles não tinha uma armadura ou arma de Memória, tendo que se contentar com armamentos mundanos feitos de qualquer coisa que estivesse à mão. Era uma das razões pelas quais lutar contra os Guardas e os Caçadores era tão difícil para eles.
O outro rapaz, aquele que costumava pagar tributo, suspirou e gritou para o amigo:
“Você perdeu a cabeça? Você está falando com um membro do grupo pessoal de Lady Nephis. Claro que ele tem Memórias.”
Com isso, ambos desprezaram suas próprias espadas improvisadas.
Esses dois estavam entre aqueles que empunhavam as Garras Negras, lâminas feitas das garras do Mensageiro da Torre que Sunny e o resto mataram. Suas bases eram envoltas em couro, permitindo que uma pessoa usasse a longa garra curva como uma arma.
Considerando que essas garras vieram de um Monstro Caído, no que diz respeito a armas, elas eram algumas das melhores. Manejá-las eficientemente não era uma tarefa fácil, no entanto.
O favelado fez uma careta.
“Certo. Droga! Tenho orgulho de empunhar uma das Garras Negras, não me entenda mal. Mas se cada um de nós tivesse um conjunto adequado de Memórias… aqueles bastardos não estariam mais nos eliminando um por um, isso é certo.”
Sunny olhou para ele com uma expressão complicada. Então, ele sorriu.
“Uma boa memória pode mudar muita coisa, isso é verdade.”
Assim que ele se virou, o sorriso desapareceu de seu rosto.
‘…Mas isso não vai salvar suas vidas. Vocês são apenas cadáveres ambulantes.’
Com isso, ele deixou os dois Adormecidos para trás, escalou a barricada e foi embora.
No entanto, eles estavam certos. A falta de Memórias era um grande problema.
…Sunny andou pelas sombras, movendo-se cada vez mais fundo na antiga cidadela. O Castelo Brilhante era enorme em tamanho e tinha inúmeros corredores tortuosos. Alguns eram comparativamente fáceis de navegar, enquanto outros não seguiam nenhuma lógica aparente. Havia torres altas conectadas por pontes aéreas e masmorras profundas cheias de escuridão e perigo.
Havia humanos assassinos rondando esses corredores, assim como coisas muito mais aterrorizantes. Sons perturbadores às vezes ecoavam pelos corredores de pedra, fazendo Sunny parar e franzir a testa.
Algumas vezes, ele decidiu se esconder para não ser notado pelas patrulhas dos Guardas ou dos Caçadores. Seguindo em seus rastros, ele tropeçou em alguns corpos frescos e se arrependeu de não ter matado aqueles bastardos quando teve a chance.
Meia hora depois, Sunny estava em algum lugar sob a torre principal do Castelo, movendo-se por um corredor escuro com passos cuidadosos. Foi então que ele ouviu os sons de uma luta vindos além da próxima curva.
‘…Ugh, que chatice.’
Hesitando um pouco, ele fez a curva e testemunhou uma cena típica da antiga cidadela nos dias de hoje.
Um humano estava tentando matar outro.
Neste caso, era um Guarda corpulento que parecia vagamente familiar. O homem grande estava pressionando alguém pequeno e magro contra a parede, estrangulando-o com mãos enluvadas. Uma lanterna de óleo quebrada queimava no chão, fazendo as sombras das duas pessoas lutando parecerem grandes e ameaçadoras.
O rosto do Guarda tinha quatro arranhões profundos, dos quais escorria sangue. Estava contorcido em uma expressão de raiva e prazer sombrio. O rosto de sua vítima, enquanto isso, estava lentamente ficando azul.
Era uma jovem pequena, de cabelos escuros e olhos castanhos, que naquele momento estavam cheios de dor e desespero.
Poucos momentos antes de perder a consciência, porém, uma mão surgiu da escuridão e deslizou uma estranha adaga transparente pela garganta do Guarda. Sangue quente disparou no ar, e ele caiu no chão com um som horrorizado e gorgolejante.
A jovem cambaleou e respirou fundo, esfregando o pescoço machucado. Alguns momentos depois, ela olhou para cima e estudou cautelosamente seu salvador.
Era um jovem muito pálido e esbelto, com um rosto jovem e olhos escuros e estranhamente calmos. No momento, ele estava limpando sua adaga na manga de sua armadura e encarando o Guarda moribundo com uma expressão indiferente.
Na verdade, ele estava perturbadoramente indiferente, nada parecido com alguém que tinha acabado de matar outro ser humano. Não havia nojo e medo, nem alegria e triunfo em seu rosto, apenas… nada.
Era o rosto de um assassino de sangue frio.
Virando-se para ela, o jovem sorriu:
“Uh… você é Aiko, certo?”
Sunny olhou para a jovem, certificando-se de que ela não estava gravemente ferida. Ele a conhecia um pouco de seus dias no Castelo. Naquela época, ela era uma das poucas pessoas que conseguiam pagar tributo sem se preocupar em trazer fragmentos suficientes na semana seguinte.
Ela era dona do único antro de apostas na Cidade das Trevas, o que automaticamente tornou seu estabelecimento popular entre os membros do Castelo. Mas também era a razão pela qual muitos deles guardavam ressentimento em relação à pequena garota.
Aiko assentiu cautelosamente. Normalmente, havia faíscas travessas em seus olhos, mas agora, não havia nada além de medo contido. Sunny dispensou o Fragmento do Luar1 e disse em um tom amigável:
“Prazer em conhecê-la. Sou Sunny.”
A jovem olhou para ele por um momento e então disse:
“Você é um dos homens da Estrela da Mudança, certo?”
Ele fez uma careta.
“Não sou homem de ninguém. Sou completamente meu. Mas sim, atualmente, Nephis é minha… empregadora, eu acho.”
Aiko hesitou e disse com uma voz educada e agradável:
“Entendo… bem, Sunny. Obrigada por salvar minha pele. Vou indo então.”
Sunny sorriu.
“Oh, desculpe… eu disse que você pode ir? Acho que não. Na verdade, devo insistir que você fique.”
Aiko olhou para o cadáver do Guarda, depois de volta para o jovem pálido. Ela imaginou ou havia leves indícios de loucura em seus olhos agora?
“Ah, por que você não disse antes! Se você quer que eu fique, então eu definitivamente ficarei. Será um prazer, de verdade. Mas, uh, Sunny… por que exatamente você queria que eu ficasse?”
Ele coçou a nuca e respondeu após uma breve pausa:
“Oh, que bom que você perguntou. Veja, estou tentando caçar um grandão. E pensei que você seria capaz de ajudar…”
- gente, não é culpa minha, do nada o autor trocou ‘moon’ por ‘moonlight’ [↩]

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