— O… O QUEEE?!

    Elicia expressou sua perplexidade num tom bastante alto, chamando a atenção de Luna e Will.

    — Eu tinha acabado de desativar o artefato, quando me virei para avisar vocês senti um arrepio nas minhas costas e me virei para o artefato novamente, então vi que ele simplesmente desapareceu.

    Todos estavam atônitos diante da situação.

    Quando Elicia estava prestes a dizer algo sobre o que deveria ser feito, ela viu entre as árvores mortas, à cerca de vinte metros do acampamento, um vulto escuro se movendo nas sombras, agitando a névoa. O que quer que fosse, era rápido, e estava se afastando. 

    Elicia teve apenas uma fração de segundo para decidir entre seguir ou não aquela coisa. Ela então correu até seu lobo.

    Os lobos, mesmo criados em cativeiro, carregavam em sua genética a habilidade de lidar muito bem com aquele tipo de ambiente. O lobo de Elicia seguiu seus comandos fielmente e desviou de cada obstáculo em seu caminho, fossem pedras ou os troncos de árvore semelhantes às pedras, para seguir a sombra em alta velocidade.

    Os companheiros de Elicia não ficaram para trás. Preparados para reagir rapidamente em casos como esse, eles montaram em seus lobos e dispararam atrás de sua líder.

    Eles mantiveram aquela perseguição por alguns minutos, mas pareciam não conseguir de nenhuma forma se aproximar mais da criatura, por mais que seus lobos disparassem com toda energia que possuíam. Aos poucos, porém, o lobo de Elicia conseguiu diminuir em alguns metros a distância da coisa.

    Com aquela aproximação, enquanto a criatura se movia agilmente pela névoa, quase como se deslizasse ao invés de correr, foi possível à Elicia distinguir vagamente sua forma. Tinha o corpo bastante alongado, parecido com uma cobra. Era escuro, de um tom de verde quase negro, e parecia esfumaçado, como se não fosse completamente corpóreo.

    Elicia então espalhou seus sentidos pela névoa para tentar entender melhor com o que exatamente estava lidando, se era um espectro ou uma besta. 

    Inúmeras informações visuais, auditivas e olfativas inundaram sua mente. Ela acabara de descobrir uma fraqueza naquele novo poder, não conseguia processar toda aquela informação enquanto precisava estar tão concentrada em seus sentidos pessoais.

    Uma forte vertigem a atingiu e ela quase caiu das costas do lobo, tendo que voltar toda sua atenção e fazer uma grande força para estabilizar sua postura novamente.

    Ela teria que aprender a usar melhor aquele poder no futuro, mas naquele momento não havia tempo a perder, então ela teve que restringir seus sentidos novamente a si mesma.

    Infelizmente, quando Elicia se recuperou, a criatura havia desaparecido de vista. Ela desacelerou com seu lobo para deixar os outros a alcançarem e perguntou:

    — Alguém viu para onde foi?

    A resposta foi negativa, como esperado. Seus companheiros reagiram bem ao segui-la rapidamente, mas ainda estavam bons metros atrás de seu passo. Da distância em que ela estava já era difícil de ver a criatura, então seria praticamente impossível  para os outros mais atrás fazerem o mesmo.

    Elicia parou seu lobo e todos fizeram o mesmo. Ela fechou os olhos e espalhou os sentidos pela névoa novamente, desta vez concentrando-se apenas nisso, como fizera para observar o Behemoth, mas focando em procurar onde a névoa era agitada. 

    Nada.

    Elicia forçou seu poder ao máximo. Ela descobrira suas limitações ao longo da viagem, conseguia espalhar seus sentidos pela névoa em todas as direções num raio de trezentos metros ou focar em apenas uma direção em um cone que alcançava até meio quilômetro, mas, mesmo focando apenas na direção para onde a coisa estava indo, nenhum sinal podia ser notado.

    A névoa antes dispersada pela passagem da criatura já estava novamente espalhada em todas as direções.

    — MERDA! — Elicia agarrou o rosto com as duas mãos. Estava verdadeiramente frustrada, se tivesse percebido antes aquela limitação tola de seu poder, não teria perdido a criatura de vista. — Me desculpem, eu não consegui mais encontrá-lo…

    — Tudo bem, fique calma. Seja lá o que for aquilo, roubou o artefato furtivamente e, em vez de nos atacar, tentou fugir. Provavelmente não tem poder para nos enfrentar. — Viktor tentava tranquilizar a amiga apresentando a lógica da situação.

    Ele se aproximou, pegou gentilmente as mãos dela e as abaixou. Olhando-a nos olhos então perguntou:

    — O que devemos fazer?

    Elicia, que se recompora com aquele gesto, começou a pensar no próximo passo.

    Luna, que observava aquela cena terna, discretamente revirou os olhos e suspirou.

    — Vamos voltar para onde estávamos, talvez haja alguma pista lá. Luna, pode dar uma olhada?

    — Claro.

    O grupo voltou rapidamente ao ponto de acampamento onde, à poucos minutos, estavam prontos para seguir em viagem. Tudo parecia exatamente como antes do incidente, exceto pela falta da estrutura inteira onde o artefato deveria estar.

    Elicia procurava por qualquer pista, mas não conseguia ver absolutamente nenhuma anormalidade.

    — Por favor, não fiquem mexendo mais ainda na cena, isso só dificulta identificar alguma coisa relevante daquilo mexido por vocês. — Luna orientou-os.

    — Ah, desculpe. — Elicia afastou-se da área para deixar Luna fazer seu trabalho.

    Luna analisou com seus olhos e sua magia o local no qual o artefato ficava antes de ser roubado. Rastrear coisas era sua especialidade. Sua magia tinha uma qualidade peculiar, podia sentir como as coisas eram no passado e como tinham mudado até o presente. Aquele poder parecia pertencer ao campo do tempo, mas na prática funcionava mais como uma análise minuciosa do espaço que lhe dava a capacidade de deduzir o que era natural de um lugar e o que era consequência de alguma interação com qualquer coisa ou fenômeno.

    Ela espalhou sua magia por toda a área do acampamento e um pouco mais ao redor, ela tentou se focar mais na direção na qual perseguiram a criatura, como Elicia fizera com o sentido da névoa, mas aquela abordagem não lhe rendeu resultados, então ela teve que analisar o lugar todo.

    Depois de vários minutos, ela finalmente declarou:

    — Isso… não faz sentido!

    — Óh não, mais uma coisa que não faz sentido não… — Will, que apenas participara passivamente de toda a comoção, se manifestou. — O que foi dessa vez?

    Luna internamente esforçou-se muito para responder à ele civilizadamente.

    — Há rastros, mas eles não condizem com o que vimos.

    Luna podia ver muito bem aquilo que parecia invisível aos olhos dos outros. Ela havia visto muitas pegadas pelo acampamento e teve que separar os rastros produzidos por seu próprio grupo do que eram potenciais rastros da criatura que os roubara. Ela encontrou então outro par de pegadas, quase imperceptíveis, que tinham um formato inesperado.

    — Eu vejo pegadas de botas, do tamanho de pés humanos. Além disso, elas vêm de lá e voltam para lá. 

    Logo todos entenderam a problemática que Luna lhes apresentava. Ela apontava para o lado oposto daquele em que perseguiram o vulto.

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