Índice de Capítulo

    O céu de Reiken estava nublado em uma névoa cinzenta, tornando a cidade cinza do outono ainda mais sem vida. Evelyn, aos quinze anos, não se importava mais com a política ou com os tratados que assinalavam o fim da guerra, sua única luta agora era com o estômago vazio. Seu dinheiro havia acabado logo depois do café da manhã. Só sobraram trocados que não compravam nada.

    Ela estava caminhando pelas ruas da capital com as mãos nos bolsos de um casaco remendado, com os olhos afiados como os de um falcão, vasculhando o chão e as paredes em busca de algo útil. Talvez pudesse encontrar dinheiro ali — semana passada havia encontrado uma nota de dez Yzakels —, anúncios de vagas de emprego — as poucas que ainda tinham —, ou qualquer coisa que pudesse ser, em algum nível, rentável.

    — Ai, que porcaria. Esse país não muda mesmo. — resmungou um homem bem vestido, lendo algo no jornal.

    Em seguida, ele dobrou as centenas de folhas e as atirou em uma lixeira de metal ao seu lado. Mesmo com o papel mergulhado na sujeira, Evelyn não se importou em resgatá-lo — aquilo já havia virado rotina para ela. Com o jornal em mãos, se sentou em um banco ao lado para analisar melhor as notícias.

    Ela ignorou as manchetes sobre crimes, anúncios da monarquia ou planos de reconstrução de cidades, indo direto para a seção de economia. Na seção, um suspiro amargo escapou de seus lábios, se lembrando do que houve recentemente.

    Semanas atrás, em um surto de esperança alimentado por boatos de taverna, ela havia investido 50 Yzakels na Nord-Licht Logistik, uma empresa gigante do setor de transportes navais que prometia retornos milagrosos. Acreditou naquilo, afinal havia homens que ficavam ricos da noite para o dia com o mercado de ações, mas a sorte não veio para ela. O valor de mercado da empresa havia despencado 14% em três dias. Em pânico, ela retirou o que restava para não morrer de fome.

    — Investimentos… — resmungou para si mesma, jogando o jornal contra a parede. — No fim, a única coisa que rende é mesmo o trabalho.

    Ela ia descartar o papel quando uma pequena nota no rodapé chamou sua atenção:

    CONTRATO DE ESCOLTA NAVAL: Porto de Luvina. Procura-se combatentes com experiência. Destino: Braqielus via Mar de Saqiien…

    — Esse é um tipo de missão que eu até iria, mas Tevesco fica a mais de mil quilômetros daqui. — disse Evelyn, já decidida sobre o trabalho que com certeza não iria fazer. — Afinal, como eu… iria…

    “…Pagamento: 10.000 Yzakels.”

    Ao ler o resto da notícia, os olhos da elfa se arregalaram. Dez mil. Era o suficiente para comprar um apartamento novo e bem localizado. Era o suficiente para nunca mais dormir em um celeiro — literalmente — de favor. Era o preço de uma vida nova. Repensou na missão que com certeza não iria fazer, decidindo, no mesmo instante, aceitá-la.

    Evelyn não perdeu tempo. Enfiou o jornal no bolso do casaco e correu para um beco isolado, longe dos olhares curiosos de Reiken. Levou a mão ao bolso, tirando um pequeno frasco de vidro brilhante que guardava. Com um movimento ágil, destampou-o, libertando uma névoa azulada e etérea que rapidamente tomou forma. Aguro, a égua fantasma, relinchou silenciosamente, com os seus olhos brilhando com a mesma determinação da dona.

    — Oi garota. A gente vai embarcar em uma viagem hoje. — disse Evelyn em um grande sorriso.

    No segundo seguinte, montou o animal em um salto em suas costas. Sem olhar para trás, Evelyn guiou Aguro em direção à avenida ao norte — passando primeiro na sua casa provisória para pegar suas armas.

    Enquanto deixava Reiken para trás, a elfa de quinze anos já não via apenas a estrada; via o reflexo de todo o ouro que ganharia com aquele contrato. O ouro que fazia a viagem de mil quilômetros valer a pena ser corrida.

    Quatro dias depois, finalmente estava em Luvina. Enquanto cavalgava sob o sol forte de Tevesco, Evelyn sentia cada músculo do corpo protestar, como se ela tivesse se esforçado além do necessário.

    A capital não se parecia com nada que a elfa já tivesse visto. Luvina era um labirinto de prédios de pedra calcária com telhados de argila — menos íngremes do que estava acostumada —, onde roupas de linho balançavam em varais esticados entre janelas. O ar era espesso, como cheiro de limoeiros plantados em terraços e peixe frito que vinha das docas. As ruas eram pavimentadas com pedras irregulares de basalto negro, brilhando sob o sol quente que obrigava Evelyn a usar sua Alma para se refrescar.

    O que mais a chocava, porém, era a multidão. Luvina não era apenas uma cidade comum, era um porto onde todas as linhagens de Sapientes pareciam se encontrar. Evelyn observou, boquiaberta, os tipos de pessoas que passavam pelas avenidas: humanos mercadores gritando preços ao lado de híbridos de diversas pelagens; orcs carregando ânforas gigantescas de um lado para o outro; e, pela primeira vez na vida, ela viu goblins, pequenas figuras verdes de narizes pontudos que passavam entre as pernas dos viajantes, negociando objetos brilhantes.

    Nas águas turquesas do porto, viu sereias e tritões com escamas brilhantes, saltando entre as ondas, ajudando a guiar os cascos dos navios ou descarregando redes submersas. No centro, avistou centauros carregando cestos, outros elfos além dela, alguns gigantes de três metros, fadas voando pelas ruas… Era um lugar para toda e qualquer alma que pudesse caminhar, nadar ou voar.

    Ela estava verdadeiramente impressionada. Aquela grandiosidade fazia o esforço dos últimos dias parecer, ao mesmo tempo, pequeno e justificável. Sua mente divagou pelos últimos quatro dias, uma sucessão de paisagens e trabalhos improvisados que pareciam um borrão de cansaço.

    No primeiro dia, parou em Windenskrock, ela teve que lidar com a teimosia dos locais que ficaram com medo que Evelyn trouxesse problemas. Para pagar o almoço, passou a tarde ajudando com a manutenção um moinho de vento que havia travado. Usar sua Alma para ajudar na lubrificação foi bem eficiente — mais do que ela esperava —, e o dono do moinho pagou bem o suficiente para uma refeição quente.

    No segundo dia, cruzou as fronteiras de Arvallia, chegando em Sansey. Ali a situação ficou cômica — ou trágica, dependendo do ponto de vista. Ela aceitou um bico rápido para escoltar um carregamento de… gansos. Aparentemente, as aves eram consideradas iguarias imperiais naquele país. O problema foi quando um lobo solitário tentou atacar o bando. Evelyn abateu o lobo com um único tiro preciso, mas o barulho da pólvora assustou os gansos de tal forma que ela passou três horas correndo pelo mato para reagrupá-los.

    Seus futuros companheiros certamente ririam se vissem a elfa sendo bicada por um ganso irritado enquanto tentava os manter juntos.

    No terceiro dia, em Vincern, o cansaço começou a pesar. Glinyn foi uma das cidades mais afetadas pela guerra na região. Lá, ela trabalhou na reconstrução de uma ponte, usando sua Alma para a logística de materiais e ajustar tábuas de madeira enquanto os operários fixavam os pilares. Recebeu o pagamento sob olhares de pena — uma garota tão jovem trabalhando como um homem de carga —, mas ela apenas guardou o pequeno número de moedas — que nem ao menos sabia o valor ao certo — que recebeu.

    Finalmente, no quarto dia, o calor úmido e os grandes mercadores que finalmente aparecerem na estrada, anunciaram sua chegada à Cidade de Luvina, a capital de Tevesco, no coração de Saqiien.

    Evelyn, porém, mal tinha tempo para admirar as casas coloridas, precisava de dinheiro urgentemente. Ela guiou Aguro diretamente para um dos postos de câmbio próximos ao porto.

    — Próximo! — gritou o atendente, um homem de pele morena, cabelos brancos e orelhas de lobo que parecia entediado.

    Evelyn despejou o conteúdo de sua bolsa sobre o balcão. Era uma mistura caótica de moedas: dois Franks amassados de Arvallia; onze Sovenigns de Vincern — sendo uma nota de dez e uma moeda; e o restante do que sobrou de seu trabalho em Windenskrock — um Yzakels e trinta cêntimos.

    O cambista analisou o monte de papel e metal com desprezo, separando o dinheiro com uma vara de madeira.

    — A moeda de Arvallia tá caindo a cada dia, garota. E essas de Vincern… ninguém quer lidar com moeda de minerador agora. — ele fez alguns cálculos rápidos em um pergaminho. — Convertendo para a moeda local, dá cerca de três piastras.

    Evelyn sentiu um nó na garganta.

    — Três? Só isso? — ela olhou para as notas esverdeadas que o homem empurrou em sua direção.

    Aquele dinheiro dava cerca de quatro Yzakels. O suficiente para comprar cinco refeições decentes ou, se ela fosse muito econômica, garantir um teto por três dias. Ela pegou o dinheiro em silêncio, fechando a mão com força sobre o papel.

    Horas depois, ela estava em um quarto de hotel bem mediano. Era um lugar apertado, com as paredes pintadas de laranja e uma janela circular que dava vista para o porto. Ainda assim, tinha o mínimo de coisas para um quarto: um armário, uma cama — grande até — e um banheiro completo.

    Evelyn se deitou na cama, apoiando as mãos atrás da cabeça, soltando um suspiro longo e pesado que pareceu carregar todo o cansaço da viagem de mil quilômetros. Ela olhou para o rifle encostado na parede e depois para as quatro moedas de dez centavos que sobraram sobre a mesa de cabeceira.

    — Só três dias… — murmurou para o vazio do quarto. — Três dias para o navio zarpar.

    Ajeitou as costas, olhando para as vigas de madeira do teto, sentindo a dor em suas pernas e a incerteza do futuro. Ainda com um sorriso no rosto, ela fez as contas mentalmente: ela só tinha quarenta centavos, dinheiro suficiente para duas maçãs.

    — Eu tô falida. — concluiu, sem mudar de expressão, como se tivesse simplesmente aceitado a vida. — Preciso de um trabalho. Agora.

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