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    Evelyn não perdeu tempo lamentando o pouco dinheiro que ainda lhe restava. Ela calçou as botas, ajeitou a camiseta e desceu as escadas rangentes do hotel em direção ao coração pulsante de Luvina: as docas.

    Enquanto caminhava pelo mercado de peixes, onde o cheiro de sal e vísceras a acompanhava por todo lugar, ela ouviu uma gritaria vinda de um dos armazéns principais. Se aproximou, vendo um grupo de trabalhadores cercando um homem gordo que gesticulava freneticamente — para o grupo de homens e para caixas ao seu lado.

    ¡Maledicte! ¡Lo gelu è soltu! — berrava o homem, chutando uma das caixas de onde escorria água morna. — ¡Si lo piscu putresce, sumus perdutu! ¡Nullu baccante pro nemos!

    Evelyn parou a alguns metros. Ela não entendia uma palavra daquela língua cantada e ruidosa, mas o significado era universal. O homem apontava para o sol escaldante, para o gelo derretido e para as carroças que deveriam estar a caminho. Aparentemente, o lote de peixes ia estragar antes mesmo de sair do porto.

    Os trabalhadores gesticulavam e respondiam de volta, frustrados, apontando para um sistema do armazém, uma série de canos de cobre. Talvez fosse um sistema de refrigeração, somente isso explicava a situação. Evelyn não entendia uma palavra sequer, mas isso não diminuiu sua empatia.

    Talvez eu possa ajudar”, pensou a elfa.

    Evelyn caminhou entre os homens. A conversa diminuiu gradualmente, até parar por completo quando a garota de cabelos grisalhos parou diante do mercador.

    ¿Quis es tu, parvula? ¡Foras de hinc! — resmungou o gordo, fazendo um gesto de como ela estivesse sendo expulsa.

    Evelyn não respondeu. Em vez disso, ela se aproximou da caixa cheia de peixes que exalava um odor forte. Ela estendeu a mão pálida e tocou a madeira. Em segundos, um estalo seco ecoou pelo local. Uma camada de geada branca e espessa cobriu a caixa instantaneamente, e o vapor gélido subiu, batendo no rosto do mercador que arregalou os olhos. O silêncio foi absoluto por dois segundos, quebrado apenas pelo som do mar batendo nas pedras.

    Evelyn olhou para o mercador e depois para as outras carroças. Ela apontou para si mesma, depois para os peixes e, por fim, esfregou os dedos em um gesto universal de dinheiro. Não precisava de tradutor para negociar a sobrevivência do negócio deles.

    — ¡Sic, sic! ¡In cordu! — exclamou o homem, limpando o suor da testa e gesticulando para que ela pudesse começar o resto do trabalho.

    Pelas próximas horas, Evelyn tornou-se uma engrenagem vital no porto. Ela passou o tempo concentrando sua Alma para congelar fileiras intermináveis de caixas. A notícia se espalhou rápido pelas docas: uma estrangeira silenciosa conseguia manter o frescor das cargas melhor que qualquer sistema de tubulação de cobre. Outros vendedores, ansiosos para economizar com a cara energia das máquinas refrigeradoras, logo compraram seu serviço.

    Quando os clientes das docas finalmente acabaram, ela já estava para acabar o dia de trabalho. Usando sinais de mão, negociou uma carona em uma das carroças de entrega em troca de ajudar no descarregamento pesado. No quinto descarregamento, após mover caixas pesadas e fedidas, ela finalmente terminou o trabalho provisório, descendo em uma rua desconhecida no centro de Luvina.

    Enquanto caminhava tentando se localizar, seus olhos de atiradora captaram um cartaz colorido pregado em um poste. Havia o rascunho tosco de um gato gordo e a palavra “PREMIO” escrita em letras garrafais. Evelyn não sabia ler o idioma, mas reconheceu o desenho, o escrito “UN PIASTRA” e o número de telefone logo abaixo. Ela olhou para os telhados de terracota ao redor e concluiu: o animal estava desaparecido e alguém estava disposto a pagar por ele.

    Após quarenta minutos de uma busca silenciosa e repetitiva, ela encontrou o bicho em uma pracinha — um gato gordo e preto —, deitado atrás de uma estátua de Isalya, o Anjo da vida e das plantas. Com um pedaço de peixe que sobrou do porto, ela o atraiu, finalmente tendo o gatinho em mãos.

    Para resolver o problema da comunicação pelo telefone, Evelyn parou um nativo na rua, apontou para o cartaz, para o gato em mãos e para o aparelho público de metal na calçada. O homem, entendendo a situação, discou e anunciou para o dono que alguém havia encontrado seu animal.

    O encontro aconteceu bem na praça onde estava, uma praça quente, onde o sol de Tevesco batia sem piedade. O dono do gato, um senhor velho e careca de barba e óculos grandes, chorou de alegria ao ver o bichano. Ele entregou a Evelyn uma nota de uma piastra como recompensa.

    Analisou com atenção o dinheiro, finalmente prestando atenção nos detalhes. A nota era elegante, de um verde-musgo profundo. O papel era firme ao toque, com bordas adornadas por detalhes renascentistas em tons de bronze. No centro, havia a ilustração de um tridente cruzado com um ramo de oliveira. Ao fundo, marcas d’água sutis em azul claro.

    Após o encontro, o homem careca acenou em sinal de despedida e saiu da praça com o gatinho no colo.

    Ali, no meio da praça quente, Evelyn sentiu o calor subir pelas solas das botas. Ela viu as pessoas se abanando com leques, com os rostos vermelhos e uma criança choramingando. Viu uma oportunidade de ouro. Com as piastras que acabou de ganhar, comprou garrafas de suco de limão e uva em uma banca próxima, além de um punhado de palitos de madeira.

    Sem precisar de balcão ou anúncio, ela se sentou em um banco, congelou o líquido instantaneamente nos palitos, andou até uma mulher com um vestido fabuloso e ofereceu o refresco — mas, claro, cobrando centavos por isso. Logo, a ação de Evelyn ganhou atenção na praça, a informação se tornando o melhor marketing possível. Em menos de uma hora, ela havia multiplicado seu investimento inicial, vendendo picolés para uma fila de clientes sedentos.

    Quando o sol finalmente começou a mergulhar no horizonte, tingindo a cidade de Luvina em um laranja profundo, Evelyn decidiu que era o bastante. Ela caminhou de volta para o hotel com o passo arrastado.

    Ao entrar no quarto, ela nem sequer acendeu ao seu lado. Ela sentou-se na e, com as mãos fadigas, começou a organizar o que havia arrecadado. O que começou como um simples bico nas docas havia escalado para uma jornada exaustiva de quase nove horas que passou por transporte de carga, resgate de animais e comércio de rua.

    — Uma, duas, três, quatro, cinco…

    Ela contou contou cada uma das notas e moedas que tinha, uma a uma. Ao final, alinhou o dinheiro que recebeu no dia colocando-o na cabeceira de mesa ao seu lado: onze piastras.

    Evelyn encarou o dinheiro em silêncio. Aquilo era mais do que ela ganharia em uma semana inteira em Reiken. Era o fruto de um esforço que dependia apenas de sua própria Alma e suor. Parecia que ali seu trabalho era verdadeiramente recompensado. Um sentimento raro de orgulho aqueceu seu peito, em contraste direto com a dor física.

    Ela deu um suspiro alto e retirou as botas, os calçados batendo alto contra o chão. Se ajeitou na cama, esticando o corpo por completo e modelando o colchão à sua imagem.

    — Chega… — murmurou, com a voz quase sumindo em um bocejo. — Eu não dou… nem mais um passo.

    Ela olhou de relance para o rifle encostado na parede, banhado pela luz prateada da lua que entrava pela janela.— Onze piastras. — concluiu com um suspiro pesado, fechando os olhos. — Eu tenho o suficiente. Vou descansar até o dia do contrato… Não saio dessa cama nem que o hotel pegue fogo.

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