Índice de Capítulo

    A manhã no cais de Luvina estava envolta de uma união de gritos de marinheiros, sons de ferramentas e as batidas de ondas. O Braço de Tritão — o navio do contrato — dominava a paisagem, com três enormes chaminés em sequência, pintado de branco na parte superior e preto na inferior, com duas listras vermelhas atravessando o casco. Evelyn estava lá, posicionada no local de candidatos, sentindo o corpo mais leve após os dois dias de descanso absoluto, embora a nuca ainda ardesse levemente pela insolação.

    Havia cerca de trinta homens e duas mulheres ali. A maioria pareciam ser mercenários brutos, com cicatrizes de batalhas que Evelyn suspeitava terem sido perdidas, e andarilhos que passaram a vida toda viajando de local em local. Segundo o anúncio do jornal, apenas quinze seriam aceitos.

    — Vai ser complicado… — comentou para si mesma, com o coração começando a bater mais forte. — Ahh, eu preciso ser aceita, se não terei vindo aqui à toa!

    Ela deu um suspiro alto. Pensou em todas as pessoas presentes aqui. Quantos guerreiros e soldados, prontos para arriscar as vidas por ouro. Se lembrou de um ano atrás, quando estava segurando o mesmo rifle das costas, não por ouro, mas por ódio.

    — Será que… eles também lutaram na guerra?

    A multidão no porto de Luvina era um caos de suor e gritos, mas Gabe caminhava como se estivesse em um passeio de domingo. Ele ajustou o coldre da arma na cintura e olhou para trás, para o seu grupo que, honestamente, sempre se questionava como foi formado.

    — Olhem só para isso, pessoal. — disse Gabe, abrindo os braços enquanto se aproximava da fila de seleção, ou algo próximo disso. — Tem uns trinta marmanjos querendo ser heróis por um punhado de ouro. Vai ser moleza passar nessa seleção. Matteo, tente não desmaiar antes de subirmos a rampa, ok?

    — Ha ha, muito engraçado, Gabe. — respondeu ele, apoiando o cajado no chão como uma terceira perna.

    Em seguida, o homem pálido apenas tossiu, ajeitando os óculos. Jakob, o musculoso careca, soltou um bufo de riso, enquanto Tsumugi, a garota baixinha com cabelos negros e orelhas de gato, apenas permanecia em silêncio, com seus olhos grandes e palpebra grossa escaneando o local e as pessoas.

    — Esperem… — Gabe parou de repente, seus olhos castanhos brilhando. — Meus instintos acabaram de detectar algo fora do comum.

    Ele apontou discretamente para uma garota élfica jovem — parecia ter a mesma idade que ele — de cabelos grisalhos e rifle nas costas, um retrato destoante do resto das pessoas ali. Ela exalava uma aura de confusão e insegurança que era, para Gabriel, o convite mais tentador do mundo.

    — Uma beldade dessas bem aqui fazendo papel de mercenária? — Gabe ajeitou o cabelo, exibindo um sorriso digno de um pôster de procurado. — É o destino me chamando. Fiquem aqui, vou garantir que a nossa viagem tenha uma companhia muito mais agradável.

    — Gabe, não começa… — murmurou Matteo, mas o líder já estava em movimento.

    Gabriel caminhou com a confiança de quem já tinha o contrato no bolso. Ele parou ao lado da elfa, inclinou levemente o corpo e usou seu melhor Tevescano, carregado de uma intenção óbvia:

    ¡Ave, faina domna! Un flos inter las spatas, ¿nonne? — disse ele.

    Ele esperava um sorriso, talvez um coro, ou quem sabe um tapa — como aconteceu nas últimas quatro vezes que tentou algo do tipo. Em vez disso, a garota virou o rosto lentamente, com um olhar confuso. Ela levantou e balançou os dois indicadores no ar, sinalizando um “não”, sem seguida apontou para si mesma e disse uma única palavra:

    Kyndral.

    Gabriel congelou por meio segundo, e então sua risada ecoou pelo cais, atraindo alguns olhares irritados dos outros mercenários.

    — Ah, ha ha, que coincidência! Você também é da minha terra natal! — respondeu ele, mudando instantaneamente para o Kyndralês. — Meu nome é Gabriel, mas pode me chamar de Gabe. É melhor do que ser chamado de “estrangeiro” o dia todo, não acha?

    Ele gesticulou para o grupo atrás dele, que agora se aproximava com expressões que variavam entre a resignação e a curiosidade.

    — Estes são Matteo, nosso erudito de Riganital; Jakob, de Levidhia, nosso “muro” particular; e Tsumugi, que veio lá de Yzell-ha.

    O loiro pálido deu um passo à frente, ajustando o cachecol mesmo sob o sol de Tevesco.

    — Olá, prazer em te conhecer. — disse Matteo, com uma voz suave que denunciava sua saúde frágil.

    O gigante ao lado dele apenas inclinou o tronco de forma gentil, em contraste direto com sua aparência.

    — Bom dia, dama. — Jakob completou, de voz grave.

    Tsumugi, por outro lado, manteve as mãos escondidas nas mangas largas de seu traje escuro, limitando-se a um pequeno aceno de cabeça, seus olhos verdes estavam avaliando Evelyn com uma curiosidade silenciosa.

    — Vocês parecem bem confiantes pra esse contrato. Acham que vão conseguir entrar? — perguntou Evelyn, cruzando os braços e analisando o grupo.

    Eles eram… diferentes. Não pareciam ter o mesmo medo ou ansiedade que ela e alguns dos outros mercenários do local.

    — Claro que sim, somos um grupo de mercenários fortes. Além disso, confiança é o que separa os heróis dos figurantes, minha cara. — Gabe respondeu, apoiando a mão casualmente em um poste de amarração. — Mas e você? Uma elfa kyndralina, tão longe de casa… O que te levou a se tornar uma “espada de aluguel”? Ou melhor, uma “arma de aluguel”?

    Evelyn baixou um pouco o sorriso e desviou o olhar para o galeão, onde os marinheiros começavam a abrir as escotilhas. A verdade é que não havia motivos específicos para isso. Evelyn havia recebido seu primeiro contrato na capital, quando teve que fazer escoltas ilegais pelo país. Nunca quis ser uma mercenária de verdade, mas os empregos eram escassos e pagavam mal, a única opção que restou foi os contratos.

    — O mesmo que todo mundo. Ouro. — disse ela, logo pensando em como completar a frase. — Mas não para gastar em vinho ou apostas. Quero um lugar que eu possa chamar de meu. Sem barulhos na madrugada ou telhados furados.

    — Um objetivo nobre para uma alma solitária. — Gabe aproximou-se um pouco mais, baixando o tom para uma frequência quase sedutora. — Mas sabe, ficar em Braqielus, mesmo que por pouco tempo, pode ser muito solitário. Eu conheço ótimos restaurantes por lá, caso você-

    — Gabe… menos, por favor. — Matteo interrompeu, com a voz soando como um balde de água fria na performance do líder.

    O mago limpou os óculos no lenço, sem sequer olhar para o amigo, como se já tivesse feito aquela intervenção centenas de vezes.

    Gabe se virou para ele, visivelmente indignado, abrindo as mãos para os lados em sinal de protesto.

    — Ah, qual é, Matteo? Até parece que você não aprecia a hospitalidade! Eu estou apenas sendo um guia turístico proativo para essa garota, só isso.

    Evelyn deu uma risadinha curta. Não era o tipo de risada que encorajava o flerte, mas sim uma reação genuína ao ver o “garanhão” ser cortado de forma tão eficiente pelo seu colega. O som da risada casual pareceu surpreender até a ela mesma, fazia tempo que um humor bobo surgia entre tantas preocupações.

    Gabe parou por um segundo, com os olhos brilhando ao notar que, de alguma forma, tinha conseguido arrancar uma reação positiva, mesmo que fosse às custas de sua dignidade.

    — Viu só? Ela tem senso de humor! — ele riu, recompondo-se e ajeitando a gola da camiseta. — De qualquer forma, esse contrato não é brincadeira. O navio está carregando mobília cara e jóias preciosas. É o tipo de carga que faz os piratas esquecerem o medo da morte e só olharem para o lucro. Você realmente sabe usar esse brinquedo nas suas costas?

    Evelyn olhou para o rifle em suas costas e depois para Gabe.

    — Na guerra, ele destruiu vários inimigos.

    — Guerra, hein? — o olhar de Gabe suavizou por um milésimo de segundo, perdendo um pouco da máscara de galanteador.

    Ele inclinou a cabeça, observando-a com uma seriedade que não parecia combinar com sua postura de minutos atrás.

    — Você também lutou na Grande Guerra?

    — “Também”? — perguntou ela, notando a palavra específica usada pelo rapaz.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota