Allos - Cicatrizes IV
O silêncio que se seguiu foi pesado. Evelyn percebeu que o olhar de Matteo e dos outros se suavizou instantaneamente. Apenas Tsumugi parecia alheia, mantendo sua vigília silenciosa, como se as palavras em Kyndralês fossem apenas ruído de fundo.
— Éramos de cidades ou até países diferentes, mas sofremos a mesma dor. — Gabe explicou, sua voz perdendo o tom teatral. — Eu, Matteo e Tsumugi somos órfãos daquela guerra, eu e Matteo nem estávamos em casa no dia.
Ele gesticulou para o musculoso Jakob, que estava parado como uma rocha ao lado deles.
— Jakob foi quem nos encontrou. Ele não era um soldado e não era um órfão, mas foi ele quem nos manteve vivos em um abrigo depois dos bombardeios em Levidhia. — continuou, com uma expressão de conforto surgindo no rosto. — Ele cuidou da gente quando ninguém mais queria saber de bocas extras para alimentar. Pode-se dizer que ele fundou esse grupo, mesmo que a ideia de vender nossas habilidades tenha sido minha.
Jakob apenas colocou uma mão pesada sobre o ombro de Matteo, um gesto protetor que dizia mais do que mil discursos. Evelyn sentiu um aperto no peito que não vinha do cansaço físico. Ela olhou para as próprias mãos, lembrando de todas as lutas que passou no último ano.
— Eu também perdi minha família. — disse ela, com a voz baixa, quase engolida pelo barulho do porto. — Meu único arrependimento foi ter lutado naquela guerra maldita. Pensei que ia me sentir bem lutando, mas eu tava enganada.
Gabe assentiu devagar, um entendimento sombrio passando por seus olhos.
— É… no fim das contas, a guerra só serve para deixar cicatrizes nos inocentes. Por isso estamos aqui. Para garantir que, da próxima vez, a gente tenha ouro suficiente para que pessoas sofram menos.
A conversa foi interrompida pelo som estridente de um apito metálico. Um homem de roupas militares da marinha subiu em um palanque, chamando a atenção de todos ali. Evelyn, Gabriel e os olhos instantaneamente viraram os olhos para o marinheiro.
— ¡TACETE OMNES! — gritou ele. — ¡Incipiemus lo scrutiniu! ¡Illos qui non habent stomachu pro lo Mare de Saqiien, exite de la linea jam!
Gabe se afastou, recuperando sua máscara de confiança com uma rapidez impressionante. Antes de sair, lançou para Evelyn confiante em direção à elfa.
— Boa sorte, Evelyn. Nos vemos no convés.
Evelyn apenas deu um sorriso contido e balançou a cabeça de leve. Enquanto caminhava para o final da fila, sentiu o coração bater de forma diferente. A ansiedade ainda estava lá, subindo pela garganta, mas as palavras de Gabe sobre a confiança do grupo serviram de inspiração.
Quando finalmente chegou sua vez, um marinheiro de pele bronzeada pelo sol e braços tatuados a olhou de cima a baixo com ceticismo.
— ¿Armi? ¿Capacità? — perguntou ele, secamente.
Evelyn não precisava de tradução para aquilo. Ela estendeu a mão direita, com a palma voltada para cima. Em um instante, o ar ao redor de seus dedos condensou em um brilho azulado e transparente. Um floco de neve gigante, perfeitamente simétrico e afiado como uma navalha, se materializou entre seus dedos, emanando uma névoa gélida que fez o marinheiro recuar um passo, impressionado. Ela então bateu levemente no rifle em suas costas, mantendo um olhar firme.
O homem soltou um assobio baixo e fez um sinal com a cabeça, apontando para a rampa.
— ¡Avanti! ¡Sul ponte!
Evelyn subiu, sentindo o cheiro de óleo e carvão, além de balançar do convés de um lado para o outro. Ao pisar no convés, percebeu que o Braço de Tritão não era um navio comum, era uma máquina imponente, movida por um motor a vapor que rugia nas entranhas do casco. Ela olhou em volta, maravilhada com as engrenagens de bronze e as chaminés que soltavam tufos de fumaça cinzenta contra o céu azul.
Pouco depois, viu o grupo de Gabe cruzar a rampa. O garoto, ao vê-la, abriu os braços como se celebrasse uma vitória pessoal.
— Ah, você conseguiu entrar! — exclamou ele, aproximando-se com Matteo, Jakob e Tsumugi. — Eu sabia que conseguiria. Seria um desperdício deixar uma atiradora dessas no cais.
Evelyn deu um sorriso enquanto ajustava o rifle no ombro. Ela olhou para a vastidão azul à frente e soltou um suspiro.
— É… Se bem que vai ser um tédio ficar aqui sem fazer nada um tempão.
Gabe soltou uma risada curta, encostando-se em uma das paredes com aquela sua pose despreocupada de sempre.
— Ah, não é tanto tempo assim.
— São cinco dias até Braqielus. — comentou Matteo. — Se o Mar de Saqiien for gentil, claro.
— Cinco dias… — Evelyn repetiu, processando a informação. — E o que vocês vão fazer quando chegarem lá? Com o dinheiro, quero dizer.
— Beber o melhor vinho, comer o melhor peixe e, quem sabe, encontrar um belo lugar ao ar livre para passar a tarde com uma bela flor. — disse Gabe, lançando um olhar com um brilho de esperança exagerado para Evelyn.
Evelyn soltou uma risadinha baixa, cobrindo a boca com a mão. Não era um riso de timidez, mas sim o divertimento de quem acabou de ouvir a piada mais previsível do mundo.
— De novo não… — Matteo suspirou alto.
Evelyn parou de rir e lançou a Gabe um olhar afiado, cruzando os braços.
— Tenha cuidado, Gabe. Algumas flores crescem em meio ao gelo. — disse ela, com um sorriso de canto que tinha o brilho frio de uma navalha. — Elas são famosas por terem espinhos que congelam o sangue de quem tenta colhê-las.
Gabe, longe de se sentir intimidado, abriu um sorriso ainda maior, dando de ombros com uma satisfação genuína.
— Espinhosa… — murmurou ele, passando a mão pelo queixo. — Eu adoro. Torna a conquista muito mais épica.
A conversa foi cortada pelo som ensurdecedor de um apito de vapor. O Capitão do navio surgiu na ponte de comando, pronto para dar um anúncio importante. Ele puxou uma grande quantidade de ar pela garganta e gritou:
— Gratia pro superviver lo scrutiniu, mercennarios. Los quindece electus de hodie per las regulas de la navis sunt la Elite Guerrera de Luvina, sed lo mare non curat de titulus. Elle est furens e non cogitabit bis in dare vois pro manducare ad los piscus! La navis vult navigare jam. Bonu fadu, seniores!
Gabe inclinou-se para o lado de Evelyn, funcionando como seu tradutor improvisado.
— Ele está parabenizando os “sobreviventes” da seleção. — sussurrou Gabe. — O navio vai zarpar agora. Prepare o estômago, pequena elfa.As máquinas a vapor rugiram mais alto, e o som das correntes das âncoras subindo preencheu o ar. Evelyn caminhou até a popa do navio, segurando firme na amurada de metal. Ela observou Luvina, com seus prédios de mármore e telhados de terracota, tornando-se cada vez menor conforme o Braço de Tritão ganhava velocidade. Em poucos minutos, o horizonte ficava cada vez maior, e a cidade se tornava apenas uma pontinha em relação ao mar azul.

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