Allos - Cicatrizes IX
Ela avançou sozinha pelo convés. O cenário havia se estreitado. Restavam poucos piratas conscientes, espalhados, hesitantes, formando um semicírculo irregular ao redor de seu capitão. O resto dos marinheiros e mercenários estavam do outro lado do navio, lidando com os que podiam.
O vento soprava de forma errática, levantando fumaça, cinzas e gotas de sangue seco do chão. No centro de tudo, ele permanecia ereto, relaxado demais para alguém em meio a um massacre. O capitão a observou se aproximar e o sorriso lento se abriu no rosto.
— Olha só… — disse ele, inclinando levemente a cabeça. — Ouvi dos meus homens que tinha uma garota aqui, mas não sabia que era tão bonitinha assim.
Ele deu alguns passos preguiçosos em sua direção, descansando a enorme espada curva no ombro, a pistola ainda na outra mão.
— Sabe, eu até pouparia sua vida. — continuou, passando a língua pelos lábios de forma nojenta. — Mas pra isso, você precisa me deixar provar essa sua boquinha maravilhosa!
Evelyn levantou parte dos lábios em uma expressão física de repulsa e raiva. Apertou a arma de fogo ainda mais forte. Queria apertar o gatilho bem entre seus olhos, mas sabia que, com sua velocidade e barreira de vento, seria impossível.
— Eu vou te matar. — ela respondeu, a voz baixa, firme e sem tremor.
O capitão deu um sorriso quase ofendido. Abriu os braços e olhou para a sua tripulação que o cercava. Todos eles riram. Risadas altas e pés batendo no chão, como se tivessem ouvido a coisa mais engraçada do dia.
— Ela te deu um fora em, capitão. — disse um deles, à direita.
— Ui, será que ela sabe o que acontece com quem diz não pra gente? — outro.
O homem do centro deu mais um passo, colocando a espada na bainha ao seu cinto, massageando sua longa barba enquanto olhava fixamente para Evelyn.
— É sério isso? Vai mesmo negar a chance da sua vida para o grande Farid Nassar? — ele começou, rindo. — Que decepcionante, ma-
Antes que ele pudesse terminar a frase, três estacas de gelo surgiram do chão em ângulos irregulares, disparando em direção ao capitão como presas translúcidas. O ataque foi rápido, brutal, preciso. Por um instante, pareceu impossível escapar.
Mas o vento se curvou e o capitão desapareceu em um borrão. Uma rajada o lançou para o lado no último segundo e as lâminas passaram a centímetros de seu corpo, se estilhaçando umas contra as outras. Ele reapareceu alguns metros adiante, rindo alto, os pés mal tocando o chão.
— Você realmente achou que isso ia funcionar? Eu tenho a Alma da família Ánemo. — anunciou, abrindo os braços enquanto correntes de ar giravam ao seu redor. — E a Bênção da Velocidade Real. Uhuhuhuhul.
O riso ecoou pelo convés, distorcido pelo vento que girava ao redor do capitão. Evelyn não respondeu. Nem mesmo perdeu tempo com provocações. Seus pés deslizaram para trás enquanto o rifle já subia para a altura do ombro. O dedo apertou o gatilho em uma sequência curta e precisa. Três disparos cortaram o ar, cada um acompanhado com o ferrolho sendo puxado para trás.
Farid desviou de todos. O vento o empurrou para os lados, para cima e depois para frente. Em um piscar de olhos, ele já estava sobre ela. Evelyn girou o corpo, usando a baioneta acoplada ao rifle em um golpe de cima para baixo, criando gelo ao longo da lâmina improvisada. Farid recuou por centímetros, sentindo o frio raspar sua roupa. Quando tocou novamente no chão, se impulsionou contra a elfa.
A cada novo golpe de Farid, Evelyn recuava, congelando o chão sob os pés do capitão, tentando limitar seus movimentos, criando estacas e paredes rápidas demais para um combate convencional. Farid respondia destruindo as barreiras com sua espada em mãos e o vento para fortalecê-la.
— Vamos lá! — gritou ele, avançando mais uma vez. — Me ataca com toda a sua força, menina!
A provocação deu a Evelyn exatamente o que ela precisava: um intervalo. Ela travou os pés, puxou o ar com força e recuou dois passos rápidos, criando distância. O rifle já estava no ombro quando apertou o gatilho duas vezes em sequência. O primeiro tiro passou rente ao rosto de Farid; o segundo foi deslocado com uma rajada lateral do capitão.
A bala ricocheteou adiante e atingiu um pirata mais atrás, perfurando seu pescoço. O homem caiu sem som, morto antes de tocar o chão. Os demais piratas finalmente entenderam o erro de estarem ali expostos. Eles recuaram instintivamente, se espalhando atrás de mastros, caixas e restos de destroços, mas continuaram observando a batalha.
Farid pousou alguns metros à frente de Evelyn, com os pés tocando o convés com leveza causada pelo vento. Endireitou o corpo, girou os ombros uma vez e estalou os dedos da mão livre.
— Já tive o suficiente.
Em seguida, ele concentrou a Alma na mão direita. O ar ao redor de seus dedos se condensou, girando, ficando visível como um furacão bem na palma de sua mão. Em um piscar de olhos, garras translúcidas se formaram em lâminas curvas de vento comprimido, vibrando com um som agudo.
Farid, sem nenhum aviso sequer, avançou de uma vez. Com uma velocidade impressionante, ele surgiu à frente de Evelyn impulsionado por uma rajada curta de vento, descendo o braço em um arco lateral. Evelyn tentou erguer o rifle, mas estava meio segundo atrasada.
As garras atravessaram o ar e rasgaram sua bochecha esquerda. A dor veio imediatamente, quente e dilacerante. Duas linhas sangrentas se abriram de uma só vez, como se a pele tivesse sido arrancada à força. Evelyn sentiu o impacto antes mesmo de entender o que havia acontecido. Cambaleou para o lado, colocou a mão no ferimento, conseguindo sentir o sal do mar queimando dentro do corte.
Ela tentou se afastar, girando o corpo, criando gelo sob os próprios pés para impulsionar um recuo, mas Farid não deu nem um segundo de descanso. O vento a puxou para frente por uma fração de segundo. Ele descartou as garras e, no mesmo movimento fluido, sacou a espada. A lâmina subiu em um golpe ascendente, limpo e preciso.
Evelyn não pode fazer mais nada a não ser esperar pelo ataque. A cada instante o rosto ficava mais próximo da lâmina. Até que, finalmente, a espada passou rente ao rosto e abriu um corte profundo logo abaixo do olho direito. A dor foi mais intensa que a outra. Seu mundo perdeu foco quando o sangue quente escorreu, invadindo sua visão. Por milímetros, o olho não foi atingido.
— AAAARRRGGHHHH!!! — ela gritou pela dor insuportável.
Ele cambaleou para trás do homem, caído no chão. O rifle escorregou de suas mãos e bateu no convés com um som oco. Evelyn levou a mão ao rosto por reflexo, sentindo o sangue escorrer entre os dedos, a respiração ficou pesada e o corpo lutando para se manter consciente.
— Que merda, que merda, que merda, que merda! — repetiu para si mesma.
Farid deu dois passos para trás, satisfeito, girando a espada uma última vez antes de deixá-la apontada para baixo. Em seguida, puxou todo o ar que podia para os seus pulmões, e deu uma alta e longa gargalhada.
— AAAAAH RAH RAH RAH RAH RAH RAH RAH!
O convés respondeu em coro. Piratas bateram palmas, assobiaram alto, alguns chutaram o chão e ergueram as armas, celebrando como se a vitória já estivesse selada. O nome do capitão ecoava entre risadas e gritos animalescos.
— Hah… — Farid abriu os braços. — É só isso? Eu já derrubei os maiores guerreiros desse navio. E olha pra mim… — ele girou lentamente, exibindo o próprio corpo intacto. — Nem uma gota de sangue sequer!
O vento uivava ao redor dele como um lembrete constante de seu poder. Cerrou os punhos e desferiu vários soquinhos no próprio peito, um sinal de intimidação.
— Tem mais alguém que quer tentar a sorte?! Mais alguém quer enfrentar o grande Farid Nassir?!
O riso de Farid ainda ecoava quando seu vento começou a falhar, mas não de uma vez — apenas um vacilo sutil, quase imperceptível, como uma vela perdendo a chama por um segundo. O capitão ainda estava de braços abertos, saboreando a própria vitória, quando sentiu algo frio tocar sua nuca. Não houve aviso e nem tempo para reagir. Uma lâmina atravessou seu pescoço por trás em um único movimento limpo
O corte foi tão preciso que o corpo deu dois passos à frente antes de entender que já estava morto. O vento cessou abruptamente, como se tivesse sido arrancado do mundo a força. A cabeça de Farid Nassir se desprendeu do corpo e rolou pelo convés, batendo contra uma caixa de carga antes de parar, os olhos ainda arregalados em surpresa. Em seguida, o corpo tombou para frente, pesado e sem vida.
Por um instante, ninguém se moveu. O silêncio que se seguiu foi absoluto — quebrado apenas pelo estalo distante do navio e pela respiração irregular de Evelyn no chão. Onde antes o vento uivava forte, agora só restava ar parado e o cheiro de sangue.
Atrás do cadáver, foi revelado a silhueta de uma garota de cabelos negros longos e orelhas de gato. Era Tsugumi, que permanecia imóvel como uma estátua. Sua katana ainda estava estendida, pingando sangue. Seu rosto continha uma frieza pragmática.
Os piratas demoraram alguns segundos para entender o que tinham acabado de ver. Quando entenderam, o pânico veio.
— O capitão… — murmurou um deles, recuando.
— Ele… e-ele morreu… — disse outro.
Armas começaram a cair no convés. Espadas escorregaram de mãos trêmulas. Um assobio nervoso soou, seguido por passos apressados vindo das bordas do navio.
Então, das laterais do navio, surgiram os marinheiros e mercenários restantes, formando um cerco fechado. Entre eles, estavam Gabe, apontando suas armas para todos dali, e Jakob, sendo apoiado por dois homens — pálido, ferido, mas vivo. A simples presença do resto da tripulação desestabilizou todos os invasores restantes.
— Armas no chão! — alguém gritou.
Nenhum pirata discutiu. Todos levantaram as mãos instantaneamente, o restante que ainda tinham armas em mãos, largaram-as e, um a um, eles se ajoelharam, mãos erguidas, olhos fixos no corpo sem cabeça de Farid Nassir. O homem que, minutos antes, parecia intocável, agora era apenas mais um cadáver no convés.

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