Allos - Cicatrizes V
Já estava de noite, enquanto o salão de jantar principal do Braço de Tritão fervilhava com a cantoria barulhenta e o bater de canecas dos outros dez mercenários, o grupo de Gabe havia se retirado para uma pequena sala perto da popa. O espaço era apertado, com vigas de carvalho baixas e o som rítmico do motor a vapor vibrando sob o piso, mas oferecia algo que o dinheiro do contrato ainda não pagava: privacidade.
Jakob estava diante de um fogão de ferro fundido, se movendo com uma agilidade surpreendente para alguém do seu tamanho. Ele manuseava as panelas e os utensílios com uma experiência visível.
— A cozinha é o único lugar onde o mundo faz sentido. — murmurou Jakob, sua voz grave preenchendo o pequeno cômodo enquanto o vapor subia de uma panela grande. — É o único lugar onde as pessoas se reúnem para criar algo para desfrutar do prazer mais essencial do homem: a comida.
Evelyn, sentada em um banco de madeira que parecia minúsculo perto do gigante, assentiu com um olhar pensativo.
— É uma boa filosofia. No fim do dia, depois de tanto cansaço, a comida é realmente a única coisa que faz a pena viver.
— Com a comida que o Gabe tenta fazer é justamente o contrário. — Matteo interrompeu, sem tirar os olhos do livro, mas rindo de leve. — É uma experiência que te faz questionar se a vida vale mesmo a pena ser vivida.
— Ei! — protestou Gabe, jogando as mãos para o alto, indignado. — O meu Risotto de emergência não foi tão ruim assim!? Foi minha primeira vez cozinhando, qual é?
— Foi um crime contra a humanidade. — rebateu o mago, tossindo secamente.
Jakob soltou um riso baixo, que fez os pratos vibrarem levemente na prateleira. Ele se virou para a elfa enquanto mexia o ensopado.
— E você, pequena Gélis? Que tipo de comida faz seu estômago ficar aquecido?
— Eu gosto de carne. — Evelyn respondeu sem hesitar, seus olhos brilhando sob a luz da lanterna na mesa. — Qualquer tipo, desde que seja bem preparada. O último ano em Reiken me deu um paladar bem prático. Mas, se eu fosse chutar o seu prato favorito, Gabe… com esse seu jeito de quem gosta de luxo, deve ser algo como Krautenporgi.
Gabe soltou uma risada curta, balançando a cabeça com um ar de superioridade fingida.
— Errou feio, Evelynzinha. Krautenporgi é comida de festival de rua. Meu coração pertence ao legítimo Krustenbraten. Vaca defumada lentamente, com aquela crosta de gordura crocante que faz um barulho divino ao morder. É a minha única fraqueza.
— Carne e feijão. — Matteo murmurou, finalmente fechando o livro por um segundo. — É um cozido rústico de Riganital, bem temperado. É a única coisa que me faz ignorar o enjoo desse navio.
Tsumugi, que até então estava em um silêncio absoluto em seu canto, apenas ajoelhada sobre os calcanhares com as costas retas, levantou o olhar. Ela parecia não querer ficar de fora daquela pequena partilha de conforto, embora o Kyndralês ainda fosse uma barreira.
— Peixe… arroz… — disse ela, de forma pausada e direta.
Foi a primeira vez que Evelyn viu um vislumbre de um desejo simples no rosto da oriental. Em resposta, deu um sorriso em direção a garota, que levantou as orelhas de gato e depois as desceu, desviando o olhar.
Jakob deu um passo à frente, trazendo as tigelas com a comida já pronta.
— Comida é sagrada, pessoas. — ele disse, voltando ao tom sério. — Não importa o nome ou a origem. Se você tem algo no prato enquanto outros têm o estômago vazio, esse é o melhor prato do mundo. Qualquer tipo é o suficiente para mim, desde que eu não precise comer sozinho.
Ele entregou o prato para Evelyn. O vapor carregava o cheiro de ervas e carne cozida no ponto certo. Ela levou a primeira colherada à boca e fechou os olhos, sentindo o calor se espalhar pelo corpo.
— Tá uma delícia!
…
No dia seguinte, o sol de Saqiien brilhava forte, mas o vento que cortava o convés trazia o frescor necessário para não tornar o calor insuportável. Evelyn caminhava pela lateral do navio quando avistou Matteo sentado em um caixote de madeira, sob a sombra de um dos botes salva-vidas.
Ele estava tão imóvel que parecia parte do navio, se não fosse pelo movimento de seus dedos virando as páginas e as piscadas a cada sete segundos. Evelyn se aproximou lentamente, parando ao lado dele.
— Você não larga esses papéis por nada, não é? — perguntou ela, inclinando a cabeça para tentar ler o título.
Matteo deu um pequeno salto, fechando o livro com um estalo seco. Ele tossiu no punho da camisa antes de olhar para ela com um sorriso tímido.
— É mais seguro do que olhar para as ondas. O mar me deixa enjoado, mas as histórias… elas me deixam suportar a viagem.
— É algum manual de navegação ou coisa assim? — Evelyn perguntou, acostumada com a utilidade prática das coisas.
— Não, é ficção. — respondeu Matteo, acariciando a capa de couro desgastada. — O título é “O Arquiteto de Nuances”. É sobre um homem que nasceu isolado em uma torre, apenas com materiais para construir maquetes que vão para a vida real e ele consegue ver pela janela da torre. Então ele passa a vida construindo cidades inteiras, sua população e história, sem nunca poder visitar suas criações…
Evelyn ficou em silêncio por um momento, processando a ideia da obra.
— Parece… solitário.
— Talvez. — Matteo olhou para o horizonte. — Mas ele “viaja” mais do que qualquer marinheiro deste navio. Eu me sinto um pouco como ele. Minha saúde nunca foi das melhores, e a guerra só piorou meus pulmões. Se não fossem os livros, minha mente ainda estaria presa naquele abrigo militar.
Evelyn olhou para o rapaz pálido e percebeu que, de certa forma, as histórias eram a alma de Matteo e, assim como ela, o garoto teve uma escolha, porém ele decidiu ficar com aquilo que dava valor, diferente da elfa.
— E como termina? — perguntou ela, sentando-se no caixote ao lado.
Matteo abriu um sorriso mais aberto.
— Ele descobre que não precisava construir cidades para ser livre. Ele só precisava saber que haviam pessoas felizes nas cidades que ele criava. Acho que foi por isso que resolvi sair em aventuras com o Gabe.

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