Allos - Cicatrizes VI
Mais tarde, o sol começava a baixar, tingindo as águas do mar de um laranja e roxo profundo. Evelyn encontrou Tsumugi no parapeito do navio. A garota de Yzell-ha estava em uma postura relaxada, mas seus olhos estavam fixos em cada movimento na água. Em suas mãos, ela segurava uma katana de bainha negra, balançando-a levemente para os lados em um ritmo mecânico, como se estivesse sentindo o peso da arma.
Evelyn se aproximou e apoiou os braços no metal, observando um cardume de peixes bioluminescentes saltar na esteira de espuma deixada pelo navio. Era isso que ela estava observando.
— Eles saltam alto, não é? — Evelyn comentou, tentando quebrar o gelo.
Tsumugi virou o rosto lentamente. Suas orelhas de gato deram um pequeno espasmo antes de ela voltar a olhar para o mar. Ela apontou para um dos peixes prateados.
— Peixe… brilho… — disse Tsumugi, com sua voz melodiosa e baixa, mas falando de um jeito pausado, como se estivesse traduzindo mentalmente a língua. — Lembra… casa. Grande mar de Yzell. Água lá… fala mais alto.
Evelyn assentiu, sentindo um aperto familiar no peito.
— Você sente falta de casa?
Tsumugi apertou a mão ao redor da empunhadura da espada. O metal da guarda reluziu sob a luz do entardecer do sol. Sua piscada ficou mais lenta, ficou mais difícil de fechar os olhos.
— Coração dói. Longe demais. Vento aqui tem cheiro diferente.
Evelyn olhou para a katana. Era uma peça de artesanato refinado, muito diferente da baioneta rústica que possuía em sua arma. A empunhadura era revestida em um couro de arraia de um verde esmeralda, trançada com cordas negras impecáveis que formavam losangos perfeitos. Não havia marcas de desgaste, apenas o brilho de algo que era cuidado com carinho.
— É uma bela arma. Como conseguiu ela?
Tsumugi ergueu a espada levemente, olhando para a bainha com uma doçura que Evelyn ainda não tinha visto nela.
— Katana de irmão. — explicou a garota, as palavras saindo bobas, mas carregadas de peso. — Amo presente dele. Amo ele. Ele disse… “Tsumugi, voa. Corta vento. Para proteger irmã”.
Evelyn ficou em silêncio por um longo momento. Ela pensou no seu próprio rifle, uma ferramenta de sobrevivência que ganhou na guerra, e comparou com o presente que Tsumugi carregava: um pedaço de casa que servia para protegê-la.
— Ele ficaria orgulhoso. — disse a elfa, com sinceridade. — Você está voando bem longe, Tsumugi.
A garota de Yzell-ha deu um pequeno e raro sorriso, voltando a balançar a bainha no ritmo do mar.
— Evelyn também. Voa longe.
…
O amanhecer no Mar de Saqiien finalmente chegou, incendiando o céu com tons de cobre e rosa. Evelyn subiu ao convés superior, sentindo o ar úmido da manhã contra o rosto, e encontrou Gabe na popa. Ele estava sentado de frente para a amurada, observando o rastro de espuma branca que o navio deixava para trás.
Desta vez, ele não estava pousando, estava casual demais até. Os ombros de Gabe estavam caídos, e o sorriso de sempre foi substituído por um olhar fixo e distante.
— O sol está bonito, não é? — Evelyn comentou, aproximando-se sem fazer barulho.
Gabe deu um pequeno sobressalto, mas não se afastou. Ele soltou um suspiro longo, passando a mão pelo rosto cansado.
— É. Mas o nascer do sol sempre me lembra que é mais um dia em que preciso manter a responsabilidade por esse grupo, atuando toda hora. Às vezes, o peso do otimismo é maior que o peso do chumbo, Evelyn.
Ela arqueou uma sobrancelha, surpresa com a súbita honestidade. Se aproximou dele, sentando ao seu lado.
— Achei que você gostasse de ser o centro das atenções.
— Eu gosto disso. Mas cansa às vezes. — ele deu um sorriso fraco, de canto. — Manter o otimismo para o Matteo e garantir que a Tsumugi não se sinta um fantasma… dá mais trabalho do que qualquer duelo que já tive. Eles são minha família e eu sou o escudo deles, mesmo que o Jakob seja o muro físico. Preciso fazer com que todo mundo se sinta acolhido.
Evelyn olhou para o horizonte, onde o azul do mar encontrava o dourado do sol. Em silêncio, ela sentiu uma pontada de admiração. Aquela não era a resposta de um aventureiro imprudente, era a fala de alguém que carregava o peso de três vidas nas costas e tentava transformar esse fardo em algo leve para eles. A maturidade por trás da máscara de Gabe era impressionante. Nunca esperava que ele fosse assim.
— Além dos vinhos e das flores, o que vai fazer com o resto do dinheiro quando o contrato acabar? — perguntou ela, curiosa para saber se o plano dele era tão sólido como aparentava ser.
Ele se virou para ela, os olhos castanhos agora focados e intensos, parecendo maiores do que realmente são.
— E você, Evelyn? Você fala tanto desse apartamento. De que cor seriam as cortinas?
Evelyn hesitou. A pergunta era específica demais — tão específica que nem havia pensado sobre. Pensou um pouco até que a resposta veio.
— Brancas. Simples. Eu só quero um lugar silencioso e pacífico… calmo em geral. Onde eu possa guardar meu rifle no armário e admirá-lo sempre antes de precisar o gatilho de novo.
— Branco é bonito. Combina com você. — Gabe completou, o olhar ainda fixo no horizonte, mas agora com uma suavidade genuína. — Acho que, no fundo, somos movidos pela mesma contradição. Queremos o silêncio no lar, mas continuar nessa vida de mercenário.
Ele soltou um suspiro, rindo de si mesmo pela hipocrisia, um som seco que o vento levou para longe. Arrumou o cabelo antes de continuar a falar.
— Às vezes eu me sinto um egoísta completo. — confessou ele, baixando a cabeça. — Eu arrastei o Matteo, o Jakob e a Tsumugi para essa vida porque era o meu sonho de criança. Eu queria as moedas de ouro, queria a aventura… E agora eles arriscam o pescoço todo dia só para me seguir. Me sinto um péssimo líder, um péssimo amigo. Se o motivo de estarmos aqui é apenas o meu desejo de não ter uma vida comum.
Evelyn negou com a cabeça imediatamente, desviando os olhos do mar, olhando para os dele, que a espiava de cabeça.
— Você não é egoísta, Gabe. Eu vi como eles olham para você. Eles não estão seguindo um sonho seu, eles estão seguindo a pessoa que deu a eles um motivo para acordar de manhã. Se não fosse por você, o Matteo e o Jakob seriam pessoas totalmente sem desejos. Você deu um rumo a eles. Isso é o oposto de egoísmo.
Gabe ficou em silêncio por um longo tempo, processando as palavras dela. O peso em seus ombros pareceu diminuir visivelmente. Ele se endireitou, ajeitando a blusa e voltando a exibir aquele brilho confiante, mas desta vez era um brilho mais calmo.
— Sabe, Evelyn… — ele disse, olhando-a com um sorriso. — Você é uma pessoa divertida. Eu adoro ficar ao seu lado. Você tem esse jeito e fala as coisas com uma clareza que eu precisava ouvir.
Evelyn sentiu um calor diferente subir pelo rosto, algo que não tinha relação com o sol de Tevesco. Ela não retrucou com uma frase afiada ou um comentário seco. Apenas permitiu que um sorriso sincero e leve surgisse em seus lábios, olhando para Gabe com um reconhecimento mútuo de amizade.
— Eu também gosto da sua companhia, Gabe.
Gabe pareceu desarmado pelo sorriso dela. O silêncio do amanhecer, o balanço suave do navio e a proximidade no banco criaram uma bolha que ele, em seu instinto , não conseguiu ignorar. Ele se inclinou lentamente, diminuindo a distância entre os dois, os olhos fixos nos dela com uma intensidade que sugeria que o próximo passo era um beijo.
Evelyn nem sequer recuou; ela apenas inclinou a cabeça para trás, observando-o com uma sobrancelha arqueada e um olhar científico.
— O que você tá fazendo? — perguntou ela, com a voz perfeitamente calma.
O movimento de Gabe congelou no ar. Ele arregalou os olhos, percebendo o erro de leitura que teve, e recuou tão rápido que quase se desequilibrou do assento. Em um instante, o rosto dele atingiu um tom de vermelho que competia com o nascer do sol.
— Eu… eu… — ele gaguejou, as mãos tateando o ar como se procurasse as palavras que haviam fugido. — É que… tinha um… um mosquito! No seu rosto! Um mosquito muito perigoso da região! Eu ia… espantar com a respiração!
Evelyn continuou olhando para ele, o sorriso de canto se tornando mais evidente diante do desespero do rapaz. Gabe, em uma busca frenética por uma rota de fuga, avistou Tsumugi saindo de trás de um dos botes salva-vidas. A garota estava com os cabelos bagunçados, coçando um dos olhos e soltando um bocejo longo que exibia suas presas pequenas.
— Ah! Tsumugi! — Gabe exclamou, levantando-se em um pulo como se tivesse sido atingido por uma mola. — Você acordou! Justo a pessoa que eu precisava… pra… perguntar sobre o inventário de cordas!
Ele praticamente correu até a garota de Yzell-ha, que o encarou com uma expressão de completa confusão, ainda processando o fato de estar acordada.
— Nani…? Gabe-san, naze sonna ni isoide iru no? — murmurou Tsumugi, falando em sua língua nativa com a voz arrastada pelo sono, sem entender por que o líder do grupo parecia estar tendo um colapso nervoso às seis da manhã.
— Exatamente! Concordo plenamente! — Gabe respondeu sem fazer o menor sentido, gesticulando freneticamente para qualquer direção que não fosse a de Evelyn.
Enquanto isso, a elfa apenas observou a cena, recostando-se no banco. Ela soltou uma risada baixa e sincera, vendo o grande “escudo do grupo” fugir de uma conversa como se estivesse fugindo de uma bateria de canhões.
— Que bobo… — sussurrou ela para si mesma, sentindo que, apesar das piadas e dos flertes errados, o dia tinha começado melhor do que qualquer um nos últimos anos.

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