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    O silêncio no Mar de Saqiien era tão denso quanto o nevoeiro que envolvia o Braço de Tritão. Já era a madrugada do quarto dia e faltavam menos de mil e seiscentos quilômetros para a chegada em Braqielus. Naquela região, a bruma era um companheiro constante, até mesmo nas primeiras horas da manhã acompanhavam a viagem de Evelyn.

    No beliche estreito da cabine compartilhada, Evelyn estava em um sono profundo — embora o caminho até ele tivesse sido tortuoso. O quarto era pequeno para abrigar a metade das pessoas: Matteo dormia em um silêncio total, mas Jakob — junto dos outros brutamontes — soltava roncos pesados que faziam as tábuas da parede vibrarem como se um motor estivesse ao lado do travesseiro. Evelyn demorou horas para ignorar o ruído, mas agora, finalmente, estava descansando.

    Dentro de sua mente, estava sonhando com um campo de flores brancas, muito parecido com o que imaginava para suas cortinas. Ela caminhava calmamente pelo campo. Por onde seus pés tocavam, sempre criava máquinas a vapor. Metal surgia no chão como mágica e, quando olhava para trás, via a enorme estrutura que acabava de criar em contraste com a natureza. A fábrica de canos retorcidos, grades altas e válvulas em lugares impróprios, o desgaste, a ferrugem, era tudo tão… ruidoso.

    O sonho, porém, foi estraçalhado.

    ¡PIRATAS! ¡PIRATAS A BABOR!

    O grito do vigia atravessou a madeira da cabine como uma flecha. Antes que Evelyn pudesse abrir os olhos, um impacto enorme sacudiu o navio. O Braço de Tritão balançou violentamente para a direita quando o primeiro ataque veio.

    Evelyn foi arremessada de seu beliche, atingindo o chão com força. O som de vidros quebrando, o grito de alerta dos marinheiros lá fora e a sirene barulhenta transformaram o refúgio pacífico em uma câmara de pânico.

    — Mas que droga… — murmurou Evelyn, a mão tentando alcançar o rifle que deixou encostado ao lado da cama.

    Ao seu redor, o quarto explodiu em movimento. Gabe surgiu da porta com uma pistola enorme em cada mão, seu rosto foi iluminado por um flash de luz vindo de uma explosão externa. Jakob já estava de pé, pegou o seu imenso porrete de madeira com uma expressão de fúria protetora, enquanto Matteo tentava manter o equilíbrio enquanto o chão oscilava.

    — Matteo, desça para as máquinas! — ordenou Gabe, o tom de flerte agora enterrado sob uma autoridade fria. — Usa sua Alma de Hydro! Se o casco romper, você é o único que pode segurar a pressão da água!

    — Tá bem! — respondeu ele.

    Evelyn agarrou seu rifle, sentindo conforto do metal em suas mãos. Seus olhos encontraram os de Gabe por um breve segundo, um entendimento silencioso entre os dois, antes de ela disparar em direção à porta.

    Ao sair para o corredor, o ar já estava com o cheiro de pólvora e o vapor quente que escapava de uma tubulação rompida. Matteo passou por ela, correndo em direção às profundezas do navio para cumprir sua missão crítica. Ali, Tsugumi apareceu, com a katana ainda na bainha.

    — Jakob, Tsumugi, comigo lá em cima! — ordenou Gabe de novo.

    Evelyn correu até as escadas no final do corredor à esquerda, subindo os degraus de dois em dois, surgindo no convés principal sob um céu que não era mais preto, mas tingido de um laranja infernal.

    O que ela viu foi um cenário de pesadelo: dois navios menores — ágeis e de velas negras — haviam cercado o Braço de Tritão sob a névoa. Ganchos de ferro, presos a cordas grossas, já estavam cravados na amurada, e dezenas de piratas saltavam para dentro, como formigas sobre uma presa ferida.

    ¡Malditos! — gritou um marinheiro de Tevesco apoiado na amurada, estocando o sangramento no peito.

    Jakob foi o primeiro a entrar em cena. O homem avançou contra alguns homens e desferiu um golpe horizontal com seu porrete de madeira reforçada. O impacto não apenas derrubou os três primeiros invasores, mas os arremessou de volta ao mar como se não pesassem nada.

    Logo atrás, Tsumugi estava correndo pelos mastros do navio. Avistou o primeiro inimigo, na mesma hora, pulou de cima, descendo em uma sombra escura, cortando as costas do pirata em um golpe rápido, fazendo-o cair no chão. Ela girou a arma e guardou-a novamente na bainha, já se deformando na sombra, correndo para um local protegido, fora do fogo cruzado.

    Evelyn se posicionou atrás de uma caixa de carga metálica, apoiando o cano do rifle. O navio balançava, dificultando a mira, mas ela respirou fundo, tentando estabilizar seus batimentos cardíacos..

    Ela puxou o gatilho, e uma bala atravessou o peito de um pirata que estava prestes a lançar uma granada em direção de uma das chaminés. O corpo dele atingiu o chão com força e a granada explodiu em uma mão, estilhaços de madeira vindo de todos os lados.

    — São muitos, Evelyn! Tem pelo menos o dobro de nós! — Gabe gritou, atirando com suas pistolas, eliminando dois homens que tentavam cercar outro mercenário.

    Evelyn puxou o ferrolho do rifle com um movimento rápido. O ar ao seu redor estava tão quente por causa das chamas que a fumaça parecia queimar seus pulmões, mas ela ainda mantinha o foco.

    — Eles podem tentar fugir. — comentou a elfa, os olhos correndo pelo convés, procurando os capitães ou os timoneiros dos navios menores. — Se não acabarmos com a liderança, a batalha vai se estender até o amanhecer.

    Gabe assentiu, lançando uma granada de fumaça para cobrir o avanço de Jakob. A fumaça cinza se estendeu para cima, cegando momentaneamente os inimigos.

    — Então faça o que você faz de melhor! Eu cuido do centro, você limpa as…

    Ele não terminou a frase. Um estrondo metálico vindo da amurada direita fez o convés inteiro vibrar. Três ganchos de abordagem se cravaram quase ao mesmo tempo no metal, rasgando o aço. Do meio do nevoeiro espesso, uma figura saltou com velocidade anormal, aterrissando no convés em uma queda agachada, como um predador.

    Era um homem alto e musculoso — até mais que Jakob —, com o torso nu coberto por tatuagens de criaturas marinhas e símbolos de saque. Um casaco longo encharcado de água pendia de seus ombros. Carregava uma espada curva em mãos, um chapéu tricorne pontudo na cabeça e possuía um sorriso tão largo que mal acompanhava sua barba negra cumprida.

    — Por que esse navio maldito não tá afundando?! — berrou ele, cuspindo no convés. — Pensei que vocês inúteis já tivessem explodido essa porcaria de casco!

    — A gente já fez isso, capitão, mas a água não entra! — gritou um pirata que escalava a amurada logo atrás, seguido por outros dois mercenários.

    De repente, mais três piratas estavam atrás dele, armados com machados e pistolas curtas, os três usando bandanas de cores alternadas entre vermelho e preto. Enquanto o mundo caía no Braço de Tritão, a figura central parecia calma até demais.

    — Como assim a água não entra…?! — o capitão rugiu.

    Antes que ele continuasse a frase, um dos marinheiros do navio avançou em direção aos quatro. No segundo seguinte, e o suposto “capitão pirata” elevou sua espada e atacou com tanta força que o homem foi arremessado contra o mastro como se fosse nada, continuando a reclamar logo em seguida.

    — …Me fala, como os tritões vão saquear o navio se a água não entra?! — ele cuspiu de novo, furioso. — Que se dane. Vocês três, pro porão! Vão descobrir o que tá segurando esse navio de pé. O resto comigo! — ele terminou empunhando a espada para o alto, todos os sete piratas ao seu redor gritaram em emoção.

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