Allos - Cicatrizes VIII
Gabe e Evelyn se empalideceram entre o suor, o sangue e a fumaça. Os piratas queriam afundar o navio para depois saqueá-lo. Os dois sabiam que se o plano funcionasse, ninguém ali iria sobreviver, não importando quantos piratas derrubassem.
— Eles não podem ir pro porão, Evelyn! — gritou Gabe, com a voz carregada de urgência. — O Matteo tá lá! Se eles o pegarem, o casco cede e o Tritão vai pro fundo em segundos!
— Eu cuido disso! — Evelyn respondeu, já saltando por cima da caixa de carga com o rifle em mãos.
Os três piratas de bandana eram rápidos e se moviam com a confiança de quem já tinha feito aquilo mil vezes. Eles foram para as escadas, descendo os degraus em direção às máquinas. Evelyn e Gabe foram logo atrás, mais cautelosos, indo de proteção para proteção, seguindo o caminho mais próximo até o porão. Antes de descerem para os níveis inferiores, Gabe disparou uma rajada curta para afastar dois piratas que tentavam avançar pelo corredor central.
No andar dos quartos, cozinha e cargas, os dois desceram a escotilha de serviço, seguindo os inimigos. A descida foi um mergulho no caos. O ar mudou assim que cruzaram as escadas de mão: quente, úmido, pesado com vapor e pólvora.
Estavam em um corredor direto para os motores. A água que era para invadir o navio pelos buracos e canos quebrados estava magicamente parada, não invadia, comprimida por uma pressão artificial, formando barreiras líquidas que tremiam sob o impacto de cada novo ataque.
“Deve ser a Alma do Matteo”, raciocinou Evelyn.
Os dois correram rapidamente pela linha reta para o fundo do compartimento, se escondendo antes de chegarem à sala. Matteo estava ajoelhado, os dentes cerrados, as mãos erguidas esticando o cajado como se segurasse algo invisível. Ao seu redor, uma grande porção de água funcionava como uma barreira, distorcendo sua imagem.
Os três piratas de bandana já estavam ali. Eles circulavam a bolha líquida com passos calculados, testando seus limites. Um deles golpeou a superfície com a lâmina do machado, fazendo a água vibrar como vidro prestes a rachar. Outro deu um disparo à queima-roupa, a bala afundou na barreira e foi cuspida de volta, desviada, ricocheteando pelo chão metálico. O terceiro riu alto, cuspindo no piso encharcado.
— Vamos logo! — rosnou ele. — Estoura essa porcaria de bolha e mata esse moleque!
Matteo gemeu, com seu corpo tremendo sob o esforço. A água ondulou perigosamente, perdendo forma por um segundo. O cajado em suas mãos parecia pesado demais, como se o mar inteiro estivesse pendurado nele.
Evelyn não esperou mais nem um segundo. Ela saiu da cobertura em um movimento seco, com o rifle já apoiado contra o ombro. Correu até a sala ampla, puxou o gatilho uma única vez. A bala atravessou o ombro do pirata mais próximo, jogando-o contra a parede com um grito abafado. Antes que os outros reagissem, Gabe avançou pelo flanco, disparando em sequência, forçando-os a recuar para longe de Matteo.
— Continua focado! — gritou ele para o Hydro. — Não solta isso!
Um dos piratas girou sobre o próprio eixo e arremessou uma adaga em direção a Matteo. Evelyn reagiu por instinto. O frio explodiu no ar entre eles, e a lâmina foi engolida por uma camada súbita de gelo, parando-a no ar.
A água respondeu ao comando de Matteo em seguida. A barreira se expandiu por um instante, empurrando os dois piratas restantes para trás. Um deles escorregou no gelo e caiu de joelhos. Evelyn avançou sem hesitar, usando o próprio rifle como alavanca, acertando a lateral do crânio do homem com força suficiente para fazê-lo desabar, inconsciente.
O último tentou fugir, mas Gabe foi mais rápido. Ele jogou uma pequena carga de pólvora no chão à frente do pirata. A explosão curta levantou vapor e metal, derrubando o homem de costas. Antes que pudesse se mover novamente, Gabe pisou contra seu peito e disparou contra sua cabeça, pintando o chão metálico de vermelho.
O silêncio caiu pesado sobre o compartimento. Os três corpos estavam espalhados pela sala, imóveis. A água ainda pressionava as paredes do casco, contida por pura força de vontade. Matteo deixou escapar um suspiro longo e rouco, e a barreira líquida começou a se estabilizar, menos tensa que antes.
— Obrigado… — ele sussurrou, com a voz falhando. — Eu não… eu não conseguiria segurar mais se vocês não tivessem aparecido.
Evelyn recarregou o ferrolho, o rosto suado e sujo de graxa, enquanto Gabe verificava se os invasores estavam realmente fora de combate. Eles haviam vencido aquela rodada, mas o resto dos piratas ainda estavam lá em cima.
— Aqui já acabou. Vamos voltar para cima agora. — anunciou Gabe.
A subida foi apressada. Evelyn subiu as escadas de mão com o rifle apoiado no ombro, o corpo ainda quente do esforço no porão, enquanto Gabe vinha logo atrás, recarregando as pistolas com movimentos rápidos. Quando emergiram novamente no convés, o cenário havia piorado.
Corpos de mercenários, marinheiros e piratas estavam espalhados pelo chão, alguns ainda se debatendo, outros completamente imóveis. Próximo ao centro do convés, Jakob lutava como um animal ferido, girando o porrete em arcos largos, afastando inimigos mesmo com o corpo coberto de cortes profundos. Cada movimento parecia exigir mais esforço que o anterior. Ao seu redor, Tsugumi surgia e desaparecia entre os inimigos, usando sua lâmina, fazendo cortes rápidos e precisos.
Porém, à frente dele, o capitão pirata se movia rápido demais. O homem parecia deslizar pelo convés, impulsionado por rajadas invisíveis. O vento se curvava ao redor de seu corpo, empurrando-o para fora do alcance dos golpes de Jakob no último instante. A cada passo, ele surgia em outro ponto, rindo, provocando, deixando cortes rasos como lembretes de que estava no controle.
— Fica parado, seu maldito! — Jakob rugiu, desferindo um golpe horizontal com tudo o que lhe restava.
O capitão deu um grande sorriso. Em um piscar de olhos, ele desapareceu do alcance do porrete e reapareceu à esquerda do gigante, girando a espada envolta em correntes de ar comprimido. O golpe foi certeiro. Jakob tentou girar o corpo, mas não foi rápido o bastante. A lâmina atravessou sua lateral com um estalo seco, abrindo um corte profundo abaixo das costelas e arremessando-o contra a amurada.
— Jakob! — gritou Gabe, correndo em sua direção.
Tsugumi tentou intervir, surgindo pelas costas do capitão, mas uma explosão de vento a lançou para longe, arremessando-a para fora do navio.
Eles correram até ele, com Gabe chegando primeiro. Jakob ainda respirava, mas o olhar já estava vidrado, o corpo tremendo em espasmos involuntários.
— Fica comigo, Jakob, por favor. — implorou o amigo, com a voz dura. — Não se atreve a ir para o outro mundo!
Evelyn se ajoelhou ao lado dele sem pensar, largando o rifle no chão e pressionando as mãos sobre o ferimento.
— Não se mexe. — ela ordenou, a voz dura.
A elfa ativou sua Alma e em seguida o sangue começou a escurecer sob seus dedos, congelando parcialmente sua lateral, a hemorragia sendo contida à força. Jakob soltou um gemido baixo, o corpo relaxando aos poucos, até finalmente perder a consciência.
— JAKOB! JAKOB! — gritou Gabe, já esperando pelo pior, lágrimas se formando em seus olhos.
— Gabe, relaxa. Ele só desmaiou. Ele vai viver. — Evelyn disse para tranquilizar o amigo, virando-o para ver seus olhos. — Mas não aguenta mais lutar. Ele precisa descansar agora. Tá bom?
— T-tá… — respondeu, limpando os olhos com o braço.
— Cuida dele. — Evelyn disse baixo, já se levantando. — Não deixa ninguém chegar perto.
Gabe assentiu sem discutir. Segurou Jakob com cuidado, afastando-o da linha de combate, enquanto Evelyn recolhia o rifle, apertando forte contra seu ombro. Estava na hora de acabar com aquela batalha de uma vez por todas.

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