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    — Prendam todos por enquanto. — ordenou o marinheiro chefe, o mesmo que fez o anúncio nas docas dias atrás. — Depois a gente vê o que faremos com eles.

    Correntes foram trazidas e os piratas não resistiram à ordem. Seu capitão estava morto, não sobrou nenhuma força de vontade entre eles. Resistir seria suicidio.

    Do outro lado do convés, Evelyn estava caída de lado, com a respiração irregular e a visão ainda turva de sangue. Gabe chegou primeiro, escorregando de joelhos ao lado dela.

    — Ei… ei, olha pra mim. — disse, segurando com cuidado o rosto da elfa. — Não dorme agora. Não faz isso comigo.

    Ela tentou responder, mas apenas um som fraco escapou de sua garganta. O sangue continuava escorrendo insistentemente pelo rosto, quente demais. Gabe rasgou um pedaço de pano da própria camisa e pressionou contra os cortes. Suas mãos estavam tremendo apesar do esforço para parecer firme.

    — Tsugumi! — chamou ele. — Preciso de ajuda aqui!

    A espadachim apareceu em silêncio, ajoelhando-se do outro lado. Com movimentos rápidos e precisos, ajudou a imobilizar a cabeça de Evelyn enquanto Gabe pegava ataduras médicas dos bolsos, envolvendo o rosto com cuidado para não pressionar demais o olho ferido.

    — Vai ficar tudo bem… — Gabe murmurava, mais para si do que para ela. — Você me ouve? Vai ficar tudo bem.

    Segundos depois, metade de seu rosto estava enfaixado — com exceção da orelha e olho esquerdo. Evelyn piscou com dificuldade o único olho disponível. A dor pulsava, mas o mundo começava, aos poucos, a se organizar novamente. Foi então que percebeu algo estranho. Tsugumi estava… diferente.

    Ela permanecia imóvel demais. O olhar não estava mais nos ferimentos de Evelyn, nem nos piratas rendidos e nem mesmo no corpo de Farid. Estava fixo no vazio, como se observasse algo que mais ninguém podia ver. Um arrepio percorreu a espinha da elfa.

    — Tsugumi… — Evelyn murmurou, a voz fraca, abafada pelas ataduras. — O que foi?

    A espadachim demorou um segundo a responder. Quando falou, parecia mais surpresa do que preocupada, como se o mundo tivesse se expandido para ela, mesmo que por um único segundo.

    — Algo… entrou em eu. — disse baixo. — Flechas atravessando o corpo. Não dói.

    Ela fechou a mão lentamente, depois abriu os dedos, testando o próprio movimento. O ar ao redor de seus dedos reagiu de forma quase invisível, como uma brisa tímida que só existia porque ela queria. Tsugumi piscou algumas vezes, inclinando a cabeça.

    — Sinto que… — continuou, buscando as palavras certas. — Sinto que eu mais rápida. Olho mais lento.

    Gabe franziu a testa, confuso, mas não soltou o rosto de Evelyn em nenhum momento. As mãos continuavam firmes nas ataduras improvisadas, como se, se largasse por um segundo, ela pudesse desaparecer.

    — O quê?

    Tsugumi desviou o olhar para o corpo de Farid Nassir, agora sendo arrastado para longe. Três homens da tripulação se esforçavam para empurrar os restos mortais até a amurada. Houve apenas um empurrão final e o mar engoliu o que sobrou do capitão.

    Bênção dele… — concluiu Tsugumi, com a voz neutra. — Veio em mim.

    O amanhecer no navio trouxe uma luz diferente. Braqielus surgiu no horizonte como uma pintura viva: construções de pedra clara subindo em camadas, telhados avermelhados, torres finas com bandeiras coloridas tremulando ao vento. A cidade parecia crescer a partir do próprio mar, abraçada por muralhas antigas e banhada por um porto amplo e movimentado.

    Todos que restaram da tripulação — cerca de nove mercenários e cinco marinheiros — estavam na frente do navio, observando o destino final.

    ¡Virus! Beneventu ad Bráxilis. — disse um marinheiro, apoiado na amurada esquerda. — ¡La gemma de lo Septentrio!

    Evelyn observava tudo sentada em um caixote, com o rosto ainda coberto por bandagens limpas. O olho bom seguia cada detalhe da cidade com curiosidade contida. Apesar da dor persistente, havia algo reconfortante naquele lugar — havia vida demais ali para lembrar da morte da noite anterior.

    O Braço de Tritão atracou pouco depois, rangendo contra as defensas de madeira. As cordas foram lançadas, amarradas e depois ajustadas pelos funcionários do porto. O navio parecia exausto, assim como todos a bordo. Um a um, marinheiros e mercenários — menos os piratas, já que todos estavam no fundo do mar — começaram a descer pela prancha, alguns mancando, outros rindo baixo, como se ainda não acreditassem que tinham sobrevivido.

    Jakob foi ajudado a descer por dois homens, mas já caminhava com mais firmeza. Estava pálido e com o torso enfaixado, mas consciente o bastante para erguer a mão em um aceno exagerado quando percebeu Evelyn olhando.

    — Parece que não é tão fácil assim de se livrar desse velho. — resmungou, arrancando risadas cansadas de quem estava perto.

    As docas se estendiam à frente como um mosaico caótico e vibrante. Barcos de todos os tamanhos balançavam presos uns aos outros, mastros rangendo e velas secando ao sol da manhã. Mercadores gritavam ofertas em línguas diferentes, crianças corriam entre caixas e barris, e músicos improvisavam melodias alegres no porto.

    — Bráxilis… — murmurou alguém atrás dela. — Depois de tanto tempo.

    Por fim, Evelyn desceu da embarcação, sentindo o chão firme sob os pés. Caminhou devagar, absorvendo tudo com o olhar atento, como se estivesse tentando memorizar aquela cena antes que ela escapasse. As construções de pedra clara subiam em níveis maiores que em Reiken, com sacadas cheias de roupas coloridas e bandeiras tremulando ao vento. O sol refletia nas paredes como se a cidade tivesse sido feita para a estrela.

    — Bonita. — comentou, mais para si mesma do que para os outros. — Mas eu não fico mais que um dia.

    Gabe, que vinha logo atrás, parou no meio do passo, se vibrando para ela com uma expressão surpresa.

    — Como é?

    Ela virou o rosto na direção dele, simples e direta.

    — Eu vim aqui só pelo contrato, então fico no máximo um dia. Vou pegar o pagamento, descanso, como alguma coisinha e trato esses ferimentos aqui. — tocou de leve nas bandagens. — Depois volto para casa.

    Gabe ficou em silêncio por um momento, observando o movimento ao redor: Jakob discutindo com um marinheiro, Tsugumi parada perto da água, olhando as ondas como se estivesse vendo algo que o resto não via e Matteo que estava apoiado a um poste, como se estivesse próximo de vomitar.

    — Desculpa dizer isso, mas… não. — disse, enfim.

    Evelyn arqueou levemente a sobrancelha, surpresa pela resposta seca. Na resposta era como se ele falasse pela garota. 

    — Como assim não? O que você quer dizer, Gabe?

    Ele respirou fundo, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado para não afastá-la. Enquanto pensava, um burburinho das docas preenchia o silêncio entre eles: com passos apressados e risadas distantes, o bater ritmado das ondas contra a madeira.

    — Quero dizer que… você não precisa ir embora amanhã. — fez um gesto vago com a mão, apontando para a cidade ao redor. — A gente vai ficar em Bráxilis. Reabastecer, se recuperar, passar umas mini-férias. — deu uma breve pausa, engolindo em seco antes de continuar. — E… gostaria que você ficasse com a gente. Não só esses dias… mais. Entende?

    O vento soprou entre eles, trazendo um silêncio vago. Evelyn desviou o olhar por um instante, observando pessoas que não conhecia, vidas que seguiam em frente sem saber o que tinha acontecido naquela noite. Ela voltou o olhar para Gabe, com um meio sorriso surgindo lentamente.

    — Você tá me chamando pra entrar no seu grupo? — perguntou.

    — Tô. — Gabe respondeu, sem hesitar. — Se você quiser.

    Tsugumi se aproximou em silêncio, parando ao lado deles, com as mãos cruzadas atrás do corpo.

    — Grupo mais forte junto. — disse simplesmente.

    Evelyn não respondeu de imediato. Deu um sorriso de forma inconsciente, e por um segundo ela sentiu o peito apertar. Um ano inteiro se passou desde a última vez que algo assim aconteceu com ela. Um ano vivendo sem ninguém, sem promessas, sem nomes que valessem a pena lembrar. E, ainda assim, ali estava ela, ferida, cansada, viva, mas cercada por pessoas que escolheram ficar com ela.

    A garota respirou fundo. Quando sorriu de novo, foi um sorriso grande, verdadeiro, quase trêmulo, com os olhos brilhando quase como se estivessem se enchendo de lágrimas.

    — Se é esse o caso… — disse, a voz baixa, mas firme. — Eu aceito!

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