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    Por dentro, Niko estava inquieto. O silêncio da carroça só deixava espaço para a lembrança das palavras de Väinö, ecoando como um barulho insistente. O convite para voltar à Skarshyn não saía da sua cabeça nem por um minuto. Estava pensando em quem era antes de acordar naquela floresta. “E se for minha única chance de descobrir quem eu realmente sou?”, pensou ele.

    Não havia falado nada até agora com Evelyn sobre o assunto, sobre a proposta. É claro que não falou isso para ela. Como poderia contar isso à garota? Como poderia olhar nos olhos dela, depois do que ela passou, e dizer que talvez estivesse considerando escutar os inimigos? Não podia. Aquele não era o momento. Talvez nunca existisse um momento certo. Sim, nunca deveria falar sobre isso com ela, nem com ninguém.

    Enquanto Niko se afundava nos próprios pensamentos, o mundo ao redor se tornava mais hostil. A neve engrossou, deixando de cair em flocos suaves para despencar em rajadas que lembravam punhados de farinha sendo arremessados do céu. Cada partícula atingia a pele como pequenas agulhas de gelo. Aguro bufou, diminuindo o trote, as patas pesadas afundaram mais fundo no chão branco. As rodas balançavam a cada metro. Os rangidos da madeira ficavam mais altos, competindo com o uivo do vento para ver quem gruía mais alto.

    — O rastro tá sumindo… — disse Evelyn, com olhos fixos no chão, onde os vestígios da destruição já se confundiam com a neve fresca. — Se a gente tivesse demorado mais um dia, ele teria desaparecido de vez.

    Niko ergueu os olhos, com a testa franzida.

    — Mas ainda dá pra seguir, né? E mesmo que sumisse… a gente saberia pra onde ir de qualquer jeito. Não é normal uma trilha reta de centenas de metros sem nenhuma árvore.

    Evelyn soltou uma risadinha curta, sem muita força, e apenas assentiu. O olhar dela, porém, continuava baixo, pesado. O silêncio voltou por um instante.

    — Sabe… — disse ela, de repente, quebrando a quietude. — Eu fico pensando… se a gente tivesse se conhecido em outra situação, talvez na escola… ou no trabalho como mercenários… será que ainda seríamos amigos?

    Niko piscou, surpreso com a pergunta inesperada. Pensou por alguns instantes, encarando a estrada branca. Ele não era dali, tinha quase certeza disso. Acreditava ser de outro país, talvez do hemisfério norte, diferente de Evelyn, nascida e crescida em Kyndral. E mesmo que se cruzassem uma vez, a diferença de personalidade seria um problema.

    — Eu queria dizer que sim… — murmurou, totalmente sincero. — Mas honestamente, acho que não.

    Evelyn desviou o olhar, os dedos apertando as rédeas com mais força.

    — Entendo. — disse, olhando baixo, como se já tivesse esperado por aquela resposta, mas ainda assim ela a machucasse.

    — Foi uma situação muito específica que nós dois nos encontramos. — continuou Niko. — Se você não tivesse aceitado aquele contrato, se eu tivesse andando para outra direção quando acordei ou até mesmo se fosse outro dia, nada do que vivemos até agora teria acontecido. Isso me faz perguntar se isso foi obra de um Anjo ou algo assim… Foi muito improvável.

    Evelyn respirou fundo, tentando esconder a pontada que sentiu no peito. Sempre foi realista, sabia que um encontro como o deles era algo que se acontecia uma vez em um milhão de vidas. Ainda assim, ouvir Niko admitir aquilo em voz alta doeu mais do que imaginava.

    — Mesmo assim… — completou Niko, virando-se para ela.

    — Uhm?

    — Em toda a oportunidade que eu tivesse de te conhecer eu gostaria de vivê-la. Mesmo que fosse improvável.

    Um sorriso pequeno escapou dos lábios dela, mesclando leveza com a gratidão. Evelyn abriu a boca para responder, mas algo no horizonte chamou sua atenção. Os olhos se estreitaram, fixos na estrada branca.

    — Espera… tem… alguém andando ali?

    O coração de Niko disparou. Seguiu o olhar dela e viu. À frente, contra o branco da neve, uma silhueta caminhando devagar, lutando contra a neve a cada passo que dava. Tinha os cabelos escuros e cacheados, a jaqueta longa quase colada ao corpo pelo vento, e a lança presa de qualquer jeito nas costas. Era impossível confundir.

    — É ela! — gritou, já se levantando no banco da carroça.

    Evelyn soltou as rédeas sem hesitar. Niko saltou do banco para a neve, o frio queimava seu rosto, mas nem se importou com isso. Correu, com as botas afundando até o tornozelo a cada passo. Atrás dele, Evelyn também pulava da carroça e avançava, mesmo com o vento balançando seus cabelos grisalhos.

    A figura adiante parou, como se tivesse ouvido o chamado. Ergueu o rosto com dificuldade. Os olhos roxos, antes vibrantes, agora estavam opacos, quase apagados. O cansaço estava marcado em sua pele escura, parecia não aguentar mais. Ainda assim, ao reconhecer aquelas duas silhuetas correndo, seus lábios rachados se curvaram em um sorriso frágil.

    — Por que… demoraram… tanto…? — murmurou, a voz rouca quase inexistente.

    — Brigitte! — Niko gritou, acelerando o passo.

    Ela cambaleou para frente. Os joelhos cederam antes que pudesse dar mais um passo. Evelyn correu pelo outro lado, mas foi Niko quem a alcançou primeiro. Segurou-a pelos ombros, com o corpo dela tombando contra seu peito. O impacto foi leve, mas o peso daquele momento quase o derrubou. Brigitte estava mole, franca, inconsciente de cansaço.

    Ele a envolveu com os braços, apertando contra si, como se temesse que o vento pudesse levá-la embora de novo. A respiração dela era fraca, mas constante.

    Evelyn ajoelhou ao lado dos dois, puxando os cabelos da garota para trás com cuidado. Os olhos dela tremiam, entre alívio e dor.

    — Tirando os curativos e as ataduras, ela parece bem… só tá exausta. — disse, com a voz falhando. — Eu não acredito… pensei que…

    As palavras morreram na garganta. Niko apenas assentiu, sem conseguir falar nada. Olhava o rosto apagado de Brigitte, e sentia o peso dos últimos dias finalmente acabar. Todo o medo, a incerteza, o vazio que carregava desde o desaparecimento dela… tudo deu lugar a um calor silencioso no peito. Conseguiu recuperar o que havia perdido.

    Pela primeira vez em dias, ele sentiu paz.

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