Capítulo 139 - O Falso Imperador III
Brigitte correu pelo outro lado, veloz, quase como um borrão roxo. Para qualquer inimigo normal, aquilo seria impossível de acompanhar, mas para Kael, não. Ele virou o punho e liberou uma rajada curta e densa. O impacto seco atingiu Brigitte na cintura e a lançou para cima, batendo nas vigas baixas antes de cair no chão com um gemido abafado.
Kael bufou alto, com irritação, como se estivesse sendo obrigado a perder tempo naquele combate.
— Vocês são rápidos. E fortes. Alguns até… talentosos. — seus olhos se estreitaram. — Mas não sabem nada sobre estratégia. Essa é a diferença entre nós. Eu conheço os peões e o tabuleiro. Vocês não.
Os capangas restantes se reagruparam, formando um semicírculo em torno do salão. Os elfos avançaram para atacar Niko; dois homens comuns correram em direção a Evelyn; o lobis ferido cambaleou em investida pesada contra Brigitte. E o chefe, atrás deles, movia o ar nos momentos mais críticos.
O trio foi engolido pelo ataque conjunto. Niko bloqueou a adaga de um elfo com a lâmina da foice e girou para fugir de outro ataque de Kael, lançando uma faca e usando a Alma em uma curta distância, evitando o corte de vento que acertaria sua garganta.
Evelyn defendeu dois golpes com o rifle, congelou o segundo inimigo, mas perdeu o equilíbrio quando uma rajada de ar surgiu sob seus pés. Brigitte levantou rápido e golpeou o lobis, correndo perto de Kael, mas foi empurrada para longe pela ventania que o chefe usava para impedir sua aproximação.
Niko atacou um dos elfos com um giro lateral, mas o vento de Kael desviou o inimigo antes mesmo de a lâmina completar o arco. Não adiantava. Cada ofensiva deles era quebrada antes de nascer — como se o chefe já tivesse calculado tudo três movimentos antes. Precisavam quebrar a barreira de ar… mas como?
Foi então que as palavras do homem voltaram à mente do garoto como parte de um sussurro arrogante: “Mas não sabem nada sobre estratégia. Essa é a diferença entre nós.” Ele odiou admitir, mas era verdade. Força e velocidade não bastavam ali. Lutar de frente contra Kael era uma clara derrota. Se quisessem vencer — ou ao menos sobreviver — precisavam virar o tabuleiro. Precisavam de uma estratégia. Uma que ele, Kael Hinek Ánemo, não pudesse prever.
Kael ergueu a mão direita, devagar, como alguém prestes a esmagar um inseto. O ar ao redor dele se curvou imediatamente, distorcendo as lamparinas e fazendo as chamas dobrarem para os lados. Uma pressão brutal tomou o salão, e o vento se condensou em uma única rajada monstruosa prestes a ser liberada. Era nítido para qualquer um ali: aquele era seu golpe mais forte e iria aniquilar o grupo.
— Evelyn! — gritou Niko.
— Já vi! — a elfa ergueu as duas mãos ao mesmo tempo.
Niko lançou uma faca ao lado dela — a lâmina ainda estava no ar quando ativou o Portal. Ele apareceu instantaneamente ao lado de Evelyn, a foice erguida, parecia que o ar estava sendo sugado de seus pulmões, difícil de respirar. Brigitte avançou em disparada, quase tropeçando com a força da ventania, mas se juntando aos dois a tempo.
Uma grossa parede curva de gelo subiu do chão azul, translúcida, mas dura como aço. A garota bateu o pé no chão para reforçar a estrutura — quatorze centímetros de puro cristal gélido.
Finalmente, o ar comprimido foi lançado e um poderoso vendaval bateu contra a muralha como um aríete invisível. O impacto foi tão forte que o gelo rachou imediatamente, criando fraturas por toda a extensão.
Evelyn cerrou os dentes. Os músculos tremiam por todo o corpo pelo esforço. A pressão era tanta que seus pés foram empurrados alguns centímetros para trás. Estava dando tudo de si para frear o ataque, mas não parecia ser o suficiente.
No pior momento possível, a segunda rajada veio ainda mais forte, cortando o ar como uma lâmina gigante. Uma parte ainda maior da muralha explodiu em fragmentos translúcidos quando o vento atingiu o centro da parede, lançando pedaços de gelo para todos os lados.
Evelyn soltou um gemido involuntário enquanto o impacto estourava contra seus braços, usando sua Alma o mais rápido que podia.
— Essa parede não vai durar! — disse Brigitte, tensa.
— A gente precisa pensar rápido. — respondeu Niko, com a respiração pesada, ajeitando a posição da foice.
— Pensar o quê? A gente vai resolver isso como, exatamente?! A gente tá lutando contra um furacão! Esse cara deve ser equivalente a cinco lufadores!
A muralha estalou com mais força. Evelyn arfou quando um dos estilhaços se cravou no próprio ombro. Ela caiu de um joelho, segurando a parede com as duas mãos abertas, como se estivesse segurando um teto caído.
Niko fechou os olhos por dois segundos, raciocinando rápido, mas com foco. Atacar o Kael de frente era inútil. Eles tentaram e foram quase varridos do mapa. Balas não funcionavam. O gelo de Evelyn não impediria o golpe por muito mais tempo. A velocidade de Brigitte não o pegava de surpresa.
“Isso não é uma luta de resistência, nem uma luta de força… é xadrez. Kael é o rei e tem o conhecimento do tabuleiro inteiro.” — pensou o garoto, aplicando a lógica de Kael em seu pensamento.
“Se não dá para vencer o rei… Então basta derrubá-lo da mesa. Neutralizar a peça. Impedir que ele jogue.”
— Ele é o maior problema. — murmurou Niko, finalmente abrindo os olhos.
— A gente percebeu, ô gênio! — Evelyn retrucou.
As rachaduras se expandiram com um estalo mais alto, como um osso quebrando. Evelyn engasgou com a própria respiração.
— Se ele é o maior problema… — Niko continuou, com a voz acelerada — então precisamos neutralizar o maior problema. Agora.
Ele enfiou a mão no manto e tirou duas facas, entregando uma para cada uma delas. As duas olharam as armas rapidamente, já entendendo o plano sem ele precisar explicar por inteiro.
— Quero vocês duas com essas. — disse Niko, firme graças à estratégia. — Usem suas Almas. Em conjunto se possível. A gente precisa chegar perto dele sem ele perceber. Perto o suficiente para que ele não consiga usar o vento sem perder a cabeça junto.
Brigitte segurou a faca com força, os olhos violeta brilhando sob a máscara. Evelyn mordeu o lábio por detrás do pano e levantou o rosto, mesmo tremendo. Pensou em dizer que a melhor opção agora era fugir, mas sabia que Niko não compraria a ideia.
— Chegar perto dele é suicídio. — murmurou a elfa.
— Talvez. Mas é isso ou a gente morre agora.

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