Capítulo 140 - Investida
No instante em que Niko terminou a frase, o vento de Kael cessou como uma lâmpada que havia acabado de queimar. O salão ficou silencioso — um silêncio seco, pesado, de poucos segundos — mas que deu a eles exatamente o que precisavam: um único segundo de calma.
Brigitte foi a primeira a se mover. Com um estalo contra o piso, ela saltou da cobertura improvisada de gelo e correu na direção de Kael como um raio violeta.
Evelyn rompeu a muralha, transformando os fragmentos em flocos de neve, ainda com o rifle em mãos, avançando logo atrás, criando e lançando lâminas congeladas em direção ao homem. Niko se lançou junto delas, com a foice na frente do corpo, já preparando uma das facas na outra mão.
Kael observou os três avançando. Pela primeira vez desde que tudo começou, eles pareciam organizados, coordenados. Não estavam mais pensando somente no fim, mas sim, em seu meio mais eficiente.
“Então eles finalmente tem uma estratégia.”, pensou ele, não em forma de admiração, somente analisando. Por isso mesmo ele sabia que precisava reagir com precisão, e não com fúria. A raiva viria depois.
Sem dizer uma palavra, enquanto recuperava a Alma gasta, Kael inclinou levemente a cabeça para os capangas ainda em pé. Foi apenas um gesto. Um único gesto da maior autoridade do salão para os homens se moverem como peças sendo puxadas por uma mão invisível.
O lobis ferido cambaleou para a frente, rosnando baixo, fraco, enquanto ainda tentava lutar, honrar seu sangue e seus irmãos. Os dois elfos avançaram pelos flancos, com as adagas em mão. Os tatuados recarregaram as armas com pressa, mirando para acabar com a investida. E os homens comuns, os poucos que restavam, correram para fechar o cerco, ficando entre o trio e o chefe.
Três disparos seguidos ecoaram pelo local, indo em direção à Brigite. Mas antes que os tiros pudessem alcançá-la, a garota desviou como se fosse nada. Em seguida, rolou pelo chão e reapareceu atrás de um dos tatuados, atingindo-o na mandíbula com um golpe seco do cabo da lança.
Evelyn saltou para o lado e criou uma estaca de gelo — como se fosse um tronco de árvore — que atravessou o chão e derrubou um capanga élfico que vinha por trás. Niko lançou uma de suas facas e usou sua Alma no meio da confusão, surgindo atrás de um dos capangas e golpeando seu tornozelo antes de desaparecer de novo.
— Não deixem eles chegarem perto do chefe! — gritou alguém.
O lobis-híbrido que restava avançou de quatro, em um ataque quase sem forças, e Evelyn interceptou facilmente o golpe. Ela abaixou o corpo, congelou o chão aos pés dele, fazendo-o perder o equilíbrio. Antes que o híbrido pudesse reagir, acertou-o com a coronha do rifle no focinho. A besta apagou no mesmo instante, desabando no chão.
No instante em que os tatuados estavam para disparar contra o grupo, Niko ativou sua Alma perto de onde estavam escondidos. Usou a foice como gancho, puxando um pedaço da mesa em sua direção para bloquear os tiros. No mesmo movimento, Niko avançou e deu um golpe no estômago de um dos tatuados — o mais baixo, que já estava ferido antes —, que caiu de joelhos antes de tombar de vez.
Enquanto isso, os elfos focaram em Brigitte, avançando com as adagas apontadas para seu peito, mas ela simplesmente não deu atenção. A garota desviou de uma das estocadas, saltando para a lateral, deixando que o inimigo furasse apenas o ar e correu em linha reta na direção de Kael, o verdadeiro objetivo.
Ela correu pela lateral, tão rápido que deixou um rastro violeta no ar. O ar ao seu redor se distorcia, como se o corpo dela estivesse tão rápido que o mundo não conseguia acompanhá-la.
Kael finalmente arregalou o olhar para ela. Não era admiração nem medo, só uma atenção leve. Uma anotação mental, rápida, de quem percebeu que uma peça estava se movendo mais rápido do que ele previa.
“A dama”, concluiu.
Em um segundo, o ar ficou mais denso, como se o próprio salão tivesse puxado um fôlego profundo. Brigitte correu em zigue-zague, a cada passo deixava fissuras no chão de madeira. Finalmente Kael voltou a atacar, com as rajadas mais rápidas que as anteriores, quase invisíveis, mas ela se contorcia e desviava de todos os ataques. Finalmente aprendeu os padrões.
Evelyn ajudou na retaguarda. Com um movimento rápido, ergueu três colunas de gelo em sequência, mirando exatamente onde Brigitte passaria. Não para acertá-la, mas para defendê-la e tornar o ataque ainda mais inesperado.
As pilastras de cristal explodiram quando Kael acertou o gelo, deixando uma névoa gélida que se dissipou pela sua Alma. Esse atraso mínimo fez o chefe se confundir e o vento oscilar por meio segundo — a brecha que Brigitte precisava.
Ela acelerou. Um estalo roxo percorreu suas pernas. Os olhos dela brilharam em púrpura por trás da máscara. A velocidade dela dobrou, depois triplicou, até que seu corpo parecia quase desaparecer a cada dois metros.
Ela surgiu a menos de três passos de Kael. Desta vez, o chefe finalmente reagiu — não com a calma de antes, mas com surpresa genuína. Ele arregalou os olhos por um instante, enquanto uma gota de suor descia pela testa. A velocidade de Brigitte era alta demais, não fazia sentido nenhum dentro da lógica que ele tanto idolatrava.
Pensou que a velocidade de antes era a sua máxima, mas estava errado. Ela só estava se segurando. Era mais forte do que previa.
Seu maxilar travou, pressionando os dentes com força. Então ele ergueu a mão de forma brusca, quase desesperada, tentando afastar aquela jogada que não havia previsto.
O vento explodiu ao redor dele como um muro invisível. Um vendaval se formou em meia fração de segundo, rodopiando com violência, tão forte que fez o piso e o teto vibrar. A rajada avançou contra Brigitte como uma avalanche de ar, tentando esmagar a investida dela antes que ela chegasse perto demais.
O vendaval atingiu Brigitte em cheio. O impacto foi como levar uma marretada de ar comprimido. O golpe arrancou o fôlego dela no mesmo instante. Tentou resistir, travando os pés no chão, mas ainda assim foi arrastada alguns metros para trás, deixando marcas profundas no piso.
Mesmo assim, não caiu. Brigitte deslizou, recuperou o centro de gravidade no último momento e voltou a avançar, respirando com dificuldade, como um animal ferido, mas com os olhos teimosos e ferozes.
Kael cerrou ainda mais os dentes, furioso.
— De novo… — rosnou, baixinho, irritado por precisar repetir o ataque.
Ele levantou a outra mão, e o vento respondeu como se estivesse vivo. Duas correntes de ar se formaram — uma horizontal, outra vertical — se cruzando e avançando como lâminas sobrepostas em formato de cruz, rasgando o chão, o teto e as paredes.
Brigitte saltou para o lado, recuou, girou o corpo para evitar a segunda lâmina, quase sendo arrancada do chão pelo turbilhão. Um corte fino apareceu na bandagem do braço, abrindo um filete de sangue.
— Tch… você só sabe fazer isso?! — gritou ela, forçando o corpo a correr de novo, mesmo com o braço ardendo e latejando.
Em seguida, ela avançou de novo. Mais rápido do que antes. Mais forte do que antes. Mais insistente do que nunca. Um fio violeta percorreu suas pernas e costas — um raio de energia da própria Alma sendo levada ao limite. Brigitte correu em zigue-zague, tão veloz que o vento demorou uma fração de segundo para acompanhá-la. Ela se aproximou de Kael por apenas três passos… mas o chefe reagiu com a mesma brutalidade de antes, ainda mais agressiva.
Ele abriu os braços e o ar explodiu para fora de seu corpo. A rajada atingiu Brigitte como uma parede sólida. Desta vez ela não resistiu: foi lançada para trás com violência, sendo lançada contra os restos da mesa e rolando até parar em um joelho, ofegante, com a máscara torta no rosto.
Brigitte pressionou a mão boa no joelho e se ergueu em uma só puxada, forçando o corpo a obedecer. Cada músculo latejava, doía. O braço ferido começou a pulsar de dor, como se os ossos ameaçassem abrir de novo a fratura.
“Droga… assim eu não duro muito mais…”
Ela sabia. Sabia com absoluta clareza: se continuasse nesse ritmo, aquele braço iria quebrar de novo. E se quebrasse ela ficaria fora da luta. Se ficasse fora Niko e Evelyn morreriam ali.“Não posso parar. Não posso… não agora.”

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