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    As duas trocaram um olhar rápido. Brigitte abriu a boca para perguntar alguma coisa, mas parou ao ver o rosto de Niko. No início, parecia impaciência, mas, ao olhar com mais atenção, era um foco profundo — que não admitia discussão, apenas concordância.

    — Se você quiser, tudo bem. — disse Evelyn, após o breve silêncio.

    — Sim. É rapidinho — acrescentou.

    Brigitte ainda pareceu hesitar por meio segundo, os lábios entreabertos, como se estivesse prestes a protestar. Mas fechou a boca e assentiu, contrariada.

    — Tá bom… — murmurou ela.

    A luminar se levantou primeiro, com cuidado por conta do braço engessado, e puxou o pano pesado da entrada. Evelyn veio logo atrás, lançando um último olhar atento para Niko, acenando para ele antes de sair.

    Assim que cruzaram a entrada, o som do festival voltou a invadir a audição e visão das duas — era distante e abafado, mas ainda presente. 

    Mesmo fora da barraca, Brigitte não esperou nem dois segundos para cessar sua curiosidade. Ela se inclinou imediatamente em direção à tenda, colando o ouvido no tecido.

    — Shhh… — sussurrou. — Dá pra ouvir alguma coisa, eu acho…

    Evelyn deu um suspiro abafado ao ver a cena.

    — Vai ouvir não. — respondeu Evelyn, já colocando a mão sobre a cabeça da garota e empurrando-a de leve para trás.

    — Nyaarrgghh! — gruiu, enquanto se debatia.

    — Elas vão voltar, né? — perguntou Gwendolyn, inclinando a cabeça levemente para o lado, como se estivesse retomando uma conversa trivial. — Porque se não voltarem, eu costumo cobrar taxa de abandono de sessão. E aviso logo: eu corro atrás de quem me deve. Não gosto de calote.

    Ela estendeu a mão na direção de um pequeno saco de moedas ao lado da mesa, levantando na ponta dos dedos e balançando o objeto.

    — Então, se quiser já ir pagando, a gente economiza temp-

    A mão de Niko bateu na mesa com força suficiente para fazer as velas tremerem e o som seco reverberar por toda a tenda.

    — Chega. — disse ele, de íris contraídas.

    — Heh?

    Gwendolyn piscou uma vez. Todo o resto — a postura relaxada, o tom teatral, o meio sorriso arrogante — caiu como um pano arrancado à força. Teve um arrepio na espinha, começou a suar frio e ficou com a boca meio aberta.

    — Você sabe demais. — continuou Niko, com a voz baixa mas carregada de tensão. — Coisas que você não teria como saber. Não por observação e nem por uma leitura besta.

    Ele se inclinou levemente para frente, apoiando uma das mãos na mesa. A madeira rangeu sob o peso. O olhar dele não desviava nem por um segundo. Já Gwendolyn sentiu o coração acelerar. Aquela não era a reação de alguém acuado.

    — Então eu vou perguntar uma vez. — ele disse. — Como você sabe dessas informações?

    Silêncio. A mulher nem ousou mudar de expressão. Estava tão confusa com aquela ação repentina que nada passou em sua mente.

    — Tá me seguindo desde quando? — acrescentou. — Desde onde?

    Novamente nenhuma resposta. Niko insistiu novamente, perguntando em seguida:

    — Você me conhece? — a voz dele endureceu. — Ou conhece alguém que me conhece?

    Gwendolyn apoiou lentamente as costas na cadeira. As mãos, antes tão expressivas, agora estavam imóveis sobre o colo.

    — N-não. — disse por fim. — Eu não te conheço.

    A resposta saiu fraca demais para soar ensaiada e forte demais para ser ignorada. Niko manteve o olhar fixo nela, como se tentasse decifrá-la.

    — Então como sabe de tantas coisas sobre mim?

    Ela respirou fundo, rápido demais.

    — Eu sou uma esotérica. É-é meu trabalho saber dessas coisas.

    A justificativa caiu mal até para ela mesma. O nervosismo agora era impossível de esconder. Um dos joelhos balançava de leve, fazendo o banco ranger quase imperceptivelmente. Esfregava o polegar contra o indicador, em um gesto nervoso que não combinava em nada com a mística segura de alguns minutos atrás. Os ombros estavam rígidos e o maxilar contraído.

    — Essa é uma péssima explicação. — disse, cético. — Por acaso… você trabalha pra Skarshyn?

    O nome soou estranho na boca dela.

    Skar… o quê? — Gwendolyn franziu a testa, genuinamente confusa. — N-não. Eu nem sei o que é isso.

    Havia algo casual demais naquela reação. Nenhuma tentativa de disfarçar. Nenhuma resposta ensaiada. Aparentava ser realmente uma confusão real.

    — Alguém te paga, então. — insistiu ele. — Ou você faz parte de algum grupo. Algum tipo de rede.

    A mão dele foi até o cabo da foice. O som do metal deslizando para fora foi baixo, mas suficiente para mudar toda a situação.

    — Me responde: de que organização você pertence?

    Gwendolyn empalideceu na mesma hora.

    — N-não! — disse rápido demais. — Eu não trabalho pra ninguém! Eu não faço parte de nada! Eu… eu só faço leituras. Só isso! Eu juro!

    Ela levantou as mãos, as palmas abertas, os dedos tremendo levemente.

    — Eu não sou criminosa. Eu não sigo pessoas. Eu não… — a voz falhou por um instante. — Eu não quero problema. Por favor.

    Niko não avançou. Apenas manteve a foice visível. Estar tratando a garota daquele jeito o fez sentir um pouco mal, mas era necessário, estava apenas se protegendo de alguém suspeito.

    — Então explica. — exigiu. — Agora.

    Gwendolyn respirou fundo. Não foi um gesto teatral, nem calculado. Foi um respiro curto de quem tenta organizar pensamentos que não se deixam ordenar. Ela passou a mão pelos cabelos uma vez, como se precisasse se ancorar em algo físico antes de falar.

    — Filho de Cernuno… — murmurou, quase para si mesma.

    O olhar de Niko se estreitou ainda mais.

    — Isso. — disse ele. — Explica isso. Quem é Cernuno?

    Gwendolyn hesitou por um instante. Não por medo imediato, mas por incerteza. Os olhos se desviaram por um instante, voltando para as cartas sobre a mesa, para os símbolos gravados nelas, como se buscasse ali uma resposta que não vinha pronta.

    — Cernuno… é um deus. — disse, por fim, sem rodeios. — Um deus antigo. Céltico. Muito antigo.

    Ela respirou fundo, como se organizasse as palavras para não piorar a situação.

    — Deus das florestas, dos animais selvagens, dos ciclos da vida. Do que nasce, cresce, morre… e volta. — continuou. — Ele quase sempre é representado com chifres de cervo. Como um símbolo. De poder natural. De ligação com algo que não é domesticado.

    Os olhos dela foram, inevitavelmente, para os chifres de Niko.

    — Em lendas antigas, e em várias regiões ao sul, dizem que os albocernos não são apenas abençoados por Cernuno. Dizem que são filhos dele.

    O silêncio pesou. Uma expressão confusa apareceu no rosto de Niko. Percebendo isso, Gwendolyn continuou.

    — Não filhos simbólicos. — acrescentou, rápido. — Filhos literais, nascidos do vínculo entre o deus e o mundo mortal. Portadores dos chifres como marca e como herança.

    Ela respirou fundo. Pronta para terminar a explicação

    — E você é um albocerno. Logo, um Filho de Cernuno. Por isso do apelido. Eu usei o nome só por isso mesmo. Não porque eu te conheça. — completou, apressada. — Eu juro.

    Niko permaneceu em silêncio. Os segundos passaram devagar demais. Ele continuou a encarando, mas já não com a mesma agressividade inicial. A mente estava ocupada em decifrar sobre aquela mulher. Se ela fosse uma infiltrada, teria respostas melhores. Se fosse alguém paga, teria mentido com mais segurança. Se fosse da Skarshyn, não teria vacilado ao ouvir o nome. Além disso, é muita conveniência aquilo, que nem quando suspeito de Brigitte. Nada ali se encaixava perfeitamente — pela primeira vez, isso jogava a favor dela.

    Não vou cometer o mesmo erro de antes”, pensou ele.

    A foice desceu alguns centímetros. Ainda visível, mas sem a mesma intenção. Então, Niko elevou-a, colocando novamente sobre a bainha.

    — …Entendi. — disse ele, por fim.

    Houve uma pausa curta. Ele estava errado e sabia disso.

    — Desculpa. — acrescentou, seco, sem floreios. — Eu exagerei.

    Gwendolyn piscou, surpresa. Não esperava aquilo. Niko levou a mão ao bolso e puxou um maço de notas. Contou rápido, sem cuidado, e colocou o dinheiro sobre a mesa — trinta Astrals.

    — Isso é pela sessão. — disse. — E… pelo transtorno.

    Ele deu um passo para trás, já se virando em direção à saída, como se aquela conversa estivesse encerrada ali. A tensão parecia começar a se dissipar, ainda que o ambiente ainda estivesse inquieto.

    — E-espera um pouco!

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