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    A voz de Gwendolyn saiu mais alta do que ela pretendia. Antes que Niko pudesse atravessar o pano da entrada, ela se levantou e deu dois passos à frente, quase derrubando o banco no processo.

    — Eu… — começou, e parou. Respirou fundo, como se estivesse escolhendo com cuidado cada palavra que diria. — Eu preciso falar uma coisa com você. Agora. Antes que você vá.

    Niko hesitou por um instante, a mão ainda próxima da saída. Não se virou de imediato. Apenas ficou parado, de costas, ainda avaliando se valia a pena ouvir mais uma frase.

    — O que foi agora? — perguntou, sem esconder o cansaço na voz. — A sessão já acabou. Eu já paguei.

    — É que… não é sobre dinheiro. — respondeu ela rápido, antes que o homem perdesse a atenção nela. — Quer dizer, não só isso. Não é sobre a sessão em geral.

    Ele baixou a mão e finalmente, se virou, devagar. O olhar não era agressivo como antes, mas também não era gentil. Estava mais para algo cauteloso e avaliador.

    — Então fala. — disse. — Porque se for mais encenação mística, eu realmente não estou com paciência.

    Gwendolyn abriu a boca, fechou de novo. Passou a mão pelo tecido do manto, puxando-o levemente para trás, como se aquilo a ajudasse a pensar.

    — Eu queria ter falado isso antes. — começou. — Mas não dava. Não de qualquer jeito… Principalmente depois do… — fez um gesto vago com a mão, indicando tudo o que tinha acontecido ali dentro. — Enfim. Eu queria pedir pra ir com você.

    — …O quê? — Niko perguntou, genuinamente confuso.

    — Eu quero me juntar a vocês. — repetiu ela, agora mais firme. — Ao seu grupo.

    Por alguns segundos, Niko apenas a encarou. Era absurdo demais para ser levado a sério — e, ainda assim, conveniente demais para ser descartado de imediato. Coincidências assim costumavam cobrar um preço depois — aprendeu isso muito bem com Brigitte.

    — Por quê? — perguntou enfim. — Isso não faz o menor sentido.

    — Faz, sim! — rebateu ela, dando mais um passo à frente, mas parando ao perceber a postura rígida dele. — Eu sei como soa. Conveniente. Forçado. Até ridículo. Mas me escuta. Por favor.

    Niko fechou os olhos por um instante e soltou o ar com força, com o cansaço escapando em um suspiro alto. Aquilo era exatamente o tipo de desvio que ele não precisava agora. Ainda assim… ajuda nunca era o problema. O problema era confiar, mas nunca confiaria em ninguém antes de adquirir informações. Ele abriu os olhos de novo.

    — Manda.

    Gwendolyn esboçou um sorriso curto, quase automático, ao ouvir a confirmação do garoto, mas ele morreu em seguida. A seriedade voltou a tomar o rosto dela como algo ensaiado pela necessidade da situação.

    — Eu queria mesmo te falar isso antes. — começou. — É sobre uma coisa que já vinha acontecendo comigo antes de vocês entrarem aqui…

    Ela caminhou lentamente até a mesa, apoiando a ponta dos dedos na madeira, como se aquilo lhe desse algum tipo de estabilidade.

    — Nos últimos dias, eu comecei a ver chifres de cervo em todo lugar. Tipo… literalmente em todos os lugares que eu ia. — disse. — Em esculturas nas ruas que andava, em tapetes dos restaurantes que visitava, desenhos em pratos, marcas em placas de trânsito. Em lugares onde eu nunca tinha reparado antes.

    Niko permaneceu imóvel, ouvindo aquela história — no mínimo — incomum.

    — No começo, achei que eu tava ficando maluca por conta da profissão. — continuou. — Quando você trabalha com símbolos, o cérebro começa a forçar padrão. A gente vê o que quer ver.

    Achava que tava ficando maluca…”, pensou Niko, com um traço involuntário de ironia. Gwendolyn deu de ombros, abrindo as mãos à frente do corpo.

    — Só que ficou insistente demais. — acrescentou. — Repetitivo demais. Como se alguém estivesse martelando uma coisa na minha cabeça o tempo todo. Chifres aqui, chifres ali. Em lugares onde eu nunca tinha reparado antes. Até em casa…

    O olhar de Niko se estreitou um pouco. Não de desconfiança imediata, mas de atenção. Ele não interrompeu.

    — Eu acordei certa noite e vi a sombra de chifres projetada na parede do quarto! — disse, abrindo os braços num gesto rápido, quase defensivo.

    Niko piscou uma vez, surpreso. Aquilo escapava do padrão de “leitura fria” que ela vinha falando até então até então.

    — Se bem que aquele foi o dia que tomei aquele chá esquisito… — disse baixinho, com o olhar baixo, mais para si mesma do que para Niko.

    Ela respirou fundo, endireitando o corpo.

    — Enfim, de qualquer jeito. Aí, depois de uns dias depois dessas coisas, você entra na minha tenda. Um albocerno. Com chifres reais. Depois de dias vendo aquelas coisas em todo canto… — a voz dela vacilou de leve. — Não pode ser coincidência. — terminou dando um olhar afiado à Niko.

    Por alguns segundos, ele não respondeu. Apenas a encarou com a cabeça levemente inclinada. Nada impedia aquilo de ser coincidência ou mentira.

    — Pode, sim. — disse, por fim. — Pode muito bem ser.

    Gwendolyn franziu a testa.

    — Não desse jeito!

    — Desse jeito, principalmente. — rebateu ele. — Você mesma acabou de explicar. Padrões forçados, sua profissão… Tudo isso te faz imaginar que está vendo coisas em todos os lugares.

    Ela abriu a boca para retrucar, mas ele continuou:

    — Quando alguém passa tempo demais olhando símbolos, começa a ver símbolos em tudo.

    — Eu sei disso. — respondeu ela, rápida. — Eu vivo disso. É exatamente por isso que eu tentei ignorar no começo.

    Ela cruzou os braços, o tom da sua voz e seu corpo ficaram mais firmes.

    — Mas chega um momento em que a explicação racional simplesmente não existe! — continuou Gwendolyn. — Quando a repetição é específica demais. Quando o símbolo continua martelando na sua cabeça, nos mesmos lugares, com a mesma forma… chega uma hora em que não dá mais pra chamar de acaso.

    Ela respirou fundo, como se estivesse se expondo além do que gostaria.

    — Você começa tentando explicar. Depois tenta ignorar. Depois tenta rir de si mesma. — deu um meio sorriso tenso. — E quando nada disso funciona… só sobra uma explicação.

    Niko manteve o rosto impassível, mas os dedos se fecharam lentamente ao lado do corpo.

    — E qual é ela? — perguntou, seco.

    — Destino. — respondeu ela, sem hesitar. — Os deuses queriam que eu te acompanhasse na sua jornada. Ou, pelo menos… em parte dela.

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