Capítulo 157 - A Hierofante III
A palavra pareceu ecoar mais do que deveria dentro da tenda. Aquela explicação era além de ridícula. Deuses. Destino. Nada daquilo existia de fato — e, se existissem, como Gwendolyn poderia ter qualquer tipo de ciência sobre isso? Não havia lógica. Não havia sentido. Não havia nada que se sustentasse além de crença cega. Absurdo.
— Não. — disse ele, sem elevar a voz. — Isso é absurdo.
Niko deu meia-volta, já puxando o pano da saída com uma mão, decidido a encerrar aquilo de vez. Já tinha ouvido explicações demais, coincidências demais, justificativas demais para algo que, no fim, continuava sendo exatamente o que sempre foi: uma aposta cega fantasiada de significado.
“Aquilo foi uma perda de tempo.”
— Espera! — Gwendolyn falou rápido demais, estendendo a mão no reflexo. — Espera, por favor.
Niko parou, mas não se virou. Por que viraria? Aquele assunto já foi encerrado.
— Se você não acredita em mim… — continuou ela, agora com a voz menos exaltada, quase contida. — Então não acredita. Eu entendo. De verdade. Mas pelo menos faz um teste pra ver que eu não tô errada.
Silêncio.
— U-um teste simples. — acrescentou. — Nada de fé. Nada de confiar em mim. Só… observa o resultado.
Ele fechou os olhos por um instante. Não por crença ou aceitação, mas por cansaço. Aquilo era perda de tempo, e ele sabia disso. Ainda assim… havia algo ali que não se deixava ignorar com facilidade. Não eram as palavras dela, eram todas as coincidências absurdas que ouviu naqueles poucos minutos, de formas que não faziam sentido.
— Tá bom. — disse, finalmente, virando-se devagar, quase sem paciência. — Eu vou fazer esse teste idiota. Se você passar nele, tá dentro.
O olhar dele caiu imediatamente sobre a mesa. Sobre o baralho ainda organizado, intacto, como se o objeto estivesse esperando exatamente por aquele momento.
— Se você diz que isso tudo não é encenação… — continuou. — Então me diz uma coisa.
Ele se aproximou, pegando o baralho com uma mão firme. Rápido.
— Qual carta te representa?
Gwendolyn piscou, surpresa pela pergunta direta — ainda mais vinda de alguém que claramente não demonstrava interesse algum naquele tipo de prática. Mesmo assim, respondeu sem hesitar:
— O Hierofante.
Niko franziu levemente a testa ao ouvir a resposta, preparado para o seu “teste”.
— Certo. — murmurou.
Ele embaralhou o baralho uma única vez. Sem rodeios e sem cuidado. Apenas o suficiente para que não pudesse ser combinado ou encenado por parte da garota. Tinha que ser, verdadeiramente, o “destino”. Então puxou a primeira carta do topo e a virou sobre a mesa…
O Hierofante.
O ar pareceu ficar mais pesado. Niko encarou a carta por alguns segundos, com o maxilar rígido. Aquela era a carta exata que precisava tirar. “Como?” Aquilo ainda podia ser sorte. Estatística. Um acaso improvável, mas… “Será que isso é possível?” Então uma ideia passou pela sua cabeça.
“Se for o destino mesmo…”
Sem avisar, puxou outra carta. E mais outra. E mais uma. Virou-as, uma a uma, alinhando-as na mesa. Sendo elas, respectivamente: O Chariote, a Enforcada… e a Morte. Eram as cartas que representavam cada um dos integrantes do grupo de Niko — Brigitte, Evelyn e o próprio Niko.
Não havia mais nada a ser dito. Não podia ser mais coincidência. Aquilo ultrapassava coincidência, o impossível. Não havia qualquer explicação. Niko sentiu um frio subir pela espinha, as íris se estreitaram, não de medo, mas de algo mais desconfortável, um sentimento sobrenatural. Ele recuou um passo, passando a mão pelo rosto.
“Isso não faz sentido.”
A partir daquele momento, Niko não sabia mais se deveria acreditar em destino ou não. Em deuses ou não. Ele aceitava a existência dos Anjos apenas porque eram um fato histórico documentado — nada além disso. Ainda assim, as probabilidades daquela sequência acontecer daquela forma eram mínimas. Quase inexistentes.
Uma pergunta surgiu em sua cabeça, incômoda demais para ser ignorada.: “Ela é uma Bruxa?”
Seres com a capacidade de alterar a matéria e a energia em sua volta de forma misteriosa, sem o uso de Almas ou Bênçãos. O garoto pensou seriamente se estava lidando com uma espécie de Bruxa na sua frente, afinal, não haviam Bênçãos ou Almas de famílias que pudessem fazer aquilo, pelo menos, Almas conhecidas no mundo…
“Ou ela é uma Independente… como eu?”
Enquanto mil perguntas passavam pela mente de Niko, tenso e preocupado, Gwendolyn somente abriu um sorriso contido, quase orgulhoso — não triunfante, mas já aliviado.
— Então… — disse ela, com cuidado. — Agora eu faço parte do grupo, né?
Ela fez uma breve pausa, inclinando a cabeça. Um semblante como se estivesse praticamente se assumindo como parte do grupo.
— Ah. — acrescentou. — Pode me chamar de Gwen a partir de agora.
Niko não respondeu de imediato. Ainda com os olhos fixos nas cartas, guardou-as de volta no baralho com um gesto simples, quase mecânico, como se aquilo encerrasse o assunto.
— Cinco minutos atrás, eu teria dito não. — falou, por fim. — Mas… eu ainda não confio em você.
Ela assentiu, aceitando a fala sem protestar. Niko havia prometido que se o teste funcionasse ele a aceitaria no grupo. Não pensou de fato que aquilo pudesse acontecer, um acaso improvável como aquele. Mas talvez…
“Isso não seja algo ruim”
Se aquela mulher realmente atraía coincidências daquele jeito — se sua “sorte” não era só encenação — então ela poderia ser mais do que um peso morto.
O caso do dríade não era simples, afinal, Niko só tinha a informação de que o garoto estava em Daurlúcia, nada além disso. Se alguém que parecia tropeçar exatamente nas respostas certas fizesse parte do grupo, ele poderia ter uma grande vantagem — mesmo não confiando totalmente nela.
— Só que utilidade não é confiança. — continuou ele. — E você parece… útil.
Era o máximo de aceitação que ela receberia. Gwen, no entanto, não pareceu incomodada. Pelo contrário, havia algo de satisfeito em sua expressão, como se aquele fosse exatamente o resultado esperado — como se fosse exatamente o que o “destino” preparou para ela.
Eles saíram da tenda juntos. Do lado de fora, Brigitte estava praticamente sendo contida por Evelyn, que segurava sua cabeça longe do pano de entrada.
— Eu ia ouvir! — protestava Brigitte. — Eu quase ouvi!
— Você não ouviu nada. — respondeu Evelyn.
Niko pigarreou alto e as duas olharam para ele ao mesmo tempo — e, depois, para Gwendolyn bem atrás dele, agora fora do ambiente escuro da tenda.
— Ela vem com a gente. — anunciou, direto, apontando o polegar em sua direção.
Brigitte arregalou os olhos de surpresa pela notícia improvável.
— O QUÊÊÊÊÊÊ? SÉRIO?!
— Mas é só temporário. — corrigiu ele.
Brigitte ficou alguns segundos processando a informação. Então o choque virou um sorriso largo demais para ser contido.
— Tá, isso definitivamente não tava nos meus planos de hoje… — disse, balançando a cabeça. — Mas já que temos uma esotérica nova no grupo, eu voto oficialmente por uma pausa estratégica pra almoço. Eu tô morrendo de fome.
Evelyn suspirou, mas não discordou. Ela também estava com fome, e já estava no horário do almoço mesmo.
— Tá, eu aceito uma pausa curta. — acrescentou. — A manhã já foi longa demais e também estou com fome.
Gwendolyn, que observava a cena com uma mistura de curiosidade e cautela, pigarreou de leve, chamando a atenção dos três para ela.
— Antes disso… — disse, apontando o polegar por cima do ombro, em direção à tenda. — Eu preciso desmontar a barraca. Não dá pra simplesmente largar tudo ali no meio da rua.
Brigitte inclinou a cabeça, avaliando-a de cima a baixo.
— Justo. — concordou. — A gente te espera na fonte aqui perto.
Gwendolyn riu curto, já andando para a tenda.
— Me dá alguns minutos. — disse. — E… obrigada por não terem me deixado pra trás sem aviso.
Niko apenas assentiu, já se virando para seguir pela rua.
— Não demora muito, por favor.

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