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    O bar estava cheio no horário de almoço. Não lotado a ponto de ser impossível circular, mas vivo o suficiente para que o som nunca baixasse além de falas altas. Conversas se sobrepunham, talheres raspavam em pratos de cerâmica grossa, canecas de metal se chocavam umas contra as outras com risadas logo depois. O ar era quente — mais frio comparado com lá fora —, carregado do cheiro de gordura e pão recém-saído do forno.

    Os quatro já estavam sentados em uma mesa de madeira, marcada por riscos. Havia cadeiras simples, pilares e vigas aparentes, duas paredes de pedra clara de um lado e duas paredes de madeira escura do outro. Um balcão para as bebidas no lado oposto de Evelyn, com uma porta ao lado de entrada para a cozinha e escadas à direita para o segundo andar — mal iluminado e sem cadeira, por sinal. O bar não tinha nada de sofisticado, mas ainda assim, tudo ali parecia sólido, vivido e confortável.

    Niko apoiou os antebraços sobre a mesa, observando o ambiente com atenção. Seus olhos percorreram o salão de forma automática: a disposição das mesas, a posição do balcão, a porta de entrada, a janela aberta no fundo que deixava entrar o ar da rua. Nada parecia fora do lugar. Pessoas comuns. Comerciantes, trabalhadores, viajantes de passagem… Era um bar normal demais.

    Evelyn, ao contrário, parecia perfeitamente à vontade. Assim que se sentou, apoiou as costas na cadeira, cruzou uma perna sobre a outra em cima da mesa e soltou o ar com satisfação, como se aquele fosse o primeiro momento de descanso real do dia. Seus olhos percorreram rapidamente o salão, não em busca de ameaças — como o chifrudo paranoico ao seu lado —, mas avaliando o cardápio pendurado atrás do balcão.

    — Chope! — disse ela, erguendo a mão para chamar o atendente à sua frente. — Cinco canecas.

    O rapaz atrás do balcão piscou, surpreso.

    — Uh, c-cinco?

    — Cinco. — confirmou Evelyn, sem hesitar, apontando para ele em seguida. — Ah, canecas grandes, tá bem?

    Brigitte virou o rosto para ela, arregalando levemente os olhos. Diferente de Niko, ela nunca havia visto esse lado dela, somente teve um vislumbre quando jogaram RPG — mas nada além de três taças de vinho.

    — Você não acha que é um pouco-

    — Não. — Evelyn cortou, seca, mas com um leve sorriso no canto da boca. — A manhã foi longa, preciso relaxar.

    Niko não comentou nada, estava acostumado com aquilo — embora fosse ruim a elfa ficar bêbada durante a missão. Apenas desviou o olhar de volta para o salão, enquanto Gwen permanecia sentada de maneira mais contida, observando o lugar com uma curiosidade silenciosa. Ela parecia absorver o ambiente com atenção — os detalhes, os gestos, as expressões das pessoas.

    Brigitte, por outro lado, já estava inclinada sobre a mesa, folheando o cardápio como se estivesse revisitando algo familiar.

    — Certo. — disse, animada. — Se estamos em Luminara mesmo, então tem algumas coisas que vocês precisam provar.

    Ela virou o cardápio para Niko e Evelyn, apontando com o dedo uma das opções.

    — Esse aqui é o Lou Càsson. — explicou. — É tipo um cozido pesado, com feijão branco, carne defumada, linguiça local… demora horas pra ficar pronto, quando você faz sozinho, mas vale cada mordida.

    Niko acompanhou com o olhar, interessado, enquanto Evelyn apenas assentia, mais focada na bebida iminente.

    — Tem também a Rostissàda. — continuou Brigitte. — Linguiça grelhada com muitas ervas, geralmente vem com batatas esmagadas no alho. Bem simples, mas muito bom. Adorava quando minha mãe fazia.

    Ela virou a página, voltando o cardápio para si por um instante, antes de mostrar para os dois.

    — Ah! E não dá pra ignorar o Pão Rubro. — acrescentou. — É pão quente esfregado com tomate temperado e óleo. Parece nada, mas é impossível comer só um único pedaço!

    Gwen inclinou levemente a cabeça, observando Brigitte com mais atenção.

    — Você não é da capital, né? — comentou. — Dá pra perceber quando alguém aprendeu a se virar em um lugar menor.

    Brigitte soltou um riso curto.

    — Vim de uma vila pequena. — confirmou. — Daquelas onde todo mundo sabe mais da sua vida do que você mesma.

    — Faz sentido. — Gwen assentiu, satisfeita. — Isso explica por que você parece tão à vontade aqui.

    O atendente voltou pouco depois, equilibrando cinco canecas grandes de chope espumante, que colocou uma a uma sobre a mesa. Evelyn pegou a primeira sem cerimônia e deu um gole longo, deixando escapar um suspiro satisfeito logo em seguida.

    — Ahh… Agora sim!

    Ela puxou a segunda caneca para perto — mesmo nem tendo tomado a primeira caneca direito —, como se estivesse apenas organizando o espaço.

    Niko pediu o Lou Càsson, depois de um breve aceno afirmativo de Brigitte. A “guia” optou por uma cestinha de Pães Rústicos. E Gwen optou pela Rostissàda, observando atentamente a reação dos outros antes de decidir. Evelyn, sem olhar o cardápio, pediu o mesmo que Niko.

    — Com mais pão! — exigiu ela.

    — Mas nem tem pão nesse prato. — respondeu Niko.

    — Então eu quero o prato com pão!

    O atendente fez uma anotação rápida, lançando um olhar confuso para Evelyn antes de se afastar.

    — Eu vou fingir que entendi esse seu pedido. — murmurou Niko.

    — Ótimo. — respondeu ela, já levando a caneca de volta aos lábios.

    Não demorou muito para a comida começar a chegar. O atendente voltou equilibrando os pratos com cuidado e talheres nas mãos, pousando as cerâmicas uma a uma sobre a mesa de madeira. O cheiro era ótimo — quente e carregado de carne e ervas.

    O Lou Càsson ocupava quase todo o prato de Niko: feijão branco mergulhado em um caldo avermelhado, pedaços generosos de carne defumada, linguiças cortadas em rodelas grossas, tudo brilhando sob a luz amarelada do salão. Era um prato cheio, feito para quem precisava aguentar o dia inteiro.

    O prato de Evelyn era praticamente o mesmo — com a diferença de dois pãezinhos rústicos acomodados ao lado, ainda quentes, de casca crocante.

    — Viu só? — disse ela, satisfeita, apontando para o prato como se tivesse vencido uma discussão importante. — Meu prato veio com pão.

    Brigitte recebeu sua cestinha de Pães Rústicos, puxando-a imediatamente para perto de si, já pegando um pedaço e partindo-o ao meio com facilidade.

    A Rostissàda de Gwen veio logo depois: linguiças bem douradas, salpicadas de ervas verdes, apoiadas sobre batatas esmagadas com alho e óleo escorrendo pelas bordas do prato. Simples, mas claramente feita com cuidado.

    — Uhmm, delicia. — comentou ela, já pegando os talheres.

    Niko observou o próprio prato por alguns segundos antes de pegar a colher. Não tinha grandes expectativas, esperava que seria muito melhor que o espetinho que comeu na rua. Ainda assim, levou a primeira colherada à boca…

    Muito bom!”, pensou ele, arregalando os olhos.

    O sabor veio com força na primeira mordida, denso e profundo. O feijão e o defumado da carne se juntaram em um gosto incrível, e o caldo era perfeito, não era excessivamente salgado, nem pesado demais. Era um tipo de comida diferente de Kyndral — e isso era nítido.

    — …Isso é melhor do que eu esperava. — admitiu, depois de engolir.

    Brigitte sorriu de canto, claramente satisfeita.

    Lou Càsson nunca decepciona, não é?

    Evelyn não perdeu tempo com comentários. Já estava comendo de verdade, alternando colheradas do cozido com grandes goles de chope. Em algum ponto, decidiu que colher era opcional e passou a mergulhar um dos pães direto no caldo.

    — Se você continuar nesse ritmo, vai precisar ser carregada depois. — comentou Niko.

    — Vale a pena.

    Gwen observava os três enquanto provava a própria comida. Seus olhos se iluminaram discretamente ao mastigar a primeira mordida da linguiça.

    — Vocês comem bem aqui. — disse. — Dá pra sentir que não é comida feita pra agradar visitante.

    Luminara não gosta muito de fingir. — respondeu Brigitte, mordendo um pedaço de pão. — O que você vê é o que tem.

    A conversa seguiu leve por alguns minutos. Comentários sobre o movimento da cidade, sobre o festival e o clima. Evelyn ria alto demais para alguém sóbria, já avançando firme na terceira caneca. Brigitte contava pequenas histórias da infância, como se Luminara despertasse memórias antigas. Gwen ouvia mais do que falava, fazendo perguntas pontuais, observando os gestos e reações de cada um com atenção quase profissional.

    Niko comia em silêncio, mas não estava desligado. Entre uma colherada e outra, seu olhar voltava para Gwen. Para a forma como ela parecia confortável ali, apesar de ser nova no grupo. Para a facilidade com que se encaixava. E, inevitavelmente, sua mente voltava para as cartas alinhadas de forma perfeita naquela tenda. Isso o fez lembrar do porquê estava ali.

    Quando chegou à metade do prato, ele pousou a colher devagar.

    — Gwen. — chamou.

    Ela ergueu o olhar imediatamente.

    — Sim?

    Niko recostou-se um pouco na cadeira, cruzando os braços, o tom casual demais para ser realmente inocente.

    — Você joga cartas?

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