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    A pergunta pareceu simples. Quase boba. Gwen piscou uma vez, surpresa, e demorou meio segundo a mais do que o normal para responder — não por hesitação, mas por ajuste ao inusitado.

    — Jogo, sim. — disse. — Não profissionalmente, mas… sim. Por quê?

    Niko deu de ombros, como se a resposta pouco importasse.

    — Nada demais. — respondeu. — Só curiosidade.

    Era mentira. Aquela pergunta fazia parte do plano desde o momento em que sentou naquela mesa.

    O almoço não tinha sido apenas uma pausa. Também era uma forma de aproximação de Gwen. Uma forma de socializar e descobrir mais sobre aquela estranha. Comer juntos, rir juntos, dividir bebida e histórias — tudo aquilo servia para se sentir mais à vontade no grupo. Gwen parecia confortável demais.

    Aparentemente está funcionando.

    Além disso, até ali, Niko tinha duas hipóteses sobre a garota. Ou ela havia encenado o tarô com um tipo de habilidade suficiente para enganar todos ali dentro — o que a tornava uma mentirosa perigosa —, ou algo nela realmente distorcia coincidências de um jeito que ele ainda não conseguia explicar.

    Um bom jeito de descobrir a verdade seria por meio de cartas comuns. Recém compradas e sem preparo prévio para qualquer tipo de trapaça. Cartas com regras fixas. Probabilidades claras e erros mensuráveis. Se Gwen trapaceasse, ele veria. Se não trapaceasse… então o problema seria outro.

    Esse é um bom jeito de descobrir quem de fato você é, Gwendolyn”, pensou, enquanto penetrava seu olhar misterioso.

    — Jogo de quê? — Brigitte perguntou, apoiando o cotovelo na mesa, já interessada. — Truco? Algo assim?

    — Pôquer. — respondeu Niko, simples. — Nada sério. Só pra passar o tempo.

    Evelyn ergueu a caneca, já na quarta, com os olhos meio desfocados.

    — Eu topo esse jogo de carta aí. — disse, arrastando a fala, com a cabeça balançando de leve, sem ponto de apoio. — Eu sempre ganho. Quando ninguém acredita que eu sei jogar… Mas eu sei. Bem!

    — Sabe jogar mesmo? — perguntou Brigitte.

    — Talvez, eu acho que sim. Mas mesmo que não saiba jogar… — ela deu uma longa pausa, apontando para a amiga em seguida. — Eu ganho!

    Gwen observava a troca de palavras em silêncio, com o olhar e o sorriso alternando entre os três. Havia curiosidade ali — uma curiosidade genuína —, mas também um sentimento mais atento, como se estivesse tentando entender de onde aquela ideia tinha surgido.

    — Se for só pra jogar… — disse ela, por fim. — Eu topo também. Mas…

    Ela fez uma breve pausa, inclinando levemente a cabeça, como quem reconsidera algo.

    — Tem certeza que quer jogar? — acrescentou, com um meio sorriso. — Eu já fui expulsa de dois cassinos por jogar bem demais.

    Brigitte arregalou os olhos na hora.

    — Tá brincando.

    — Pior que não. Eles chamaram de “vantagem injusta”. Eu prefiro chamar aquilo de “azar”.

    Evelyn soltou uma risada curta, já meio fora de ritmo com a própria caneca.

    — Você tinha dito que não jogava profissionalmente, gup. — disse, erguendo o copo.

    — Sorte tem nada a ver com prática. — Gwen deu de ombros. — Além disso, eu mal jogo. — terminou mostrando a língua

    Niko assentiu uma única vez.

    — Bom, de qualquer modo, é só um jogo amistoso. — respondeu.

    Mentira de novo. Para Gwen, aquilo soava como socialização. Para o grupo, uma distração pós-almoço. Mas, para Niko, era um teste que poderia levar à expulsão da garota. Se ela realmente tivesse roubado na tenda e não possuísse nenhum valor real ao grupo, não teria motivos para continuar ali.

    O problema era simples — e ao mesmo tempo, não era. Se ela ganhasse, o que isso provaria exatamente? Se perdesse, isso levaria todas aquelas coincidências de antes para o lixo?

    O problema é como definir essa suposta habilidade dela…”, pensou.

    Niko levou a mão ao manto e puxou uma pequena caixa de madeira, que colocou sobre a mesa com cuidado. Levantou a tampa e revelou dois itens simples: um baralho novo e um punhado de fichas de madeira clara, marcadas com um “50” escuro no centro.

    Brigitte franziu a testa por meio segundo e então abriu a boca, como quem finalmente ligava os pontos.

    — Ahhh. — disse. — Então foi por isso que você parou naquela banca antes de entrar no bar.

    Niko começou a distribuir as fichas em pequenos montes, sem levantar o olhar.

    — Sim, tinha uma parte que vendia jogos lá. — respondeu. — Baralhos, tabuleiros, fichas… Essas coisas.

    Enquanto um dos funcionários tirava os pratos de comida, ele empurrou os montes em direção ao centro da mesa.

    — Pensei que seria uma boa ideia jogarmos algo.

    Gwen observava com atenção as ações de Niko, mas sem demonstrar surpresa. Pelo contrário, ela parecia mais interessada no cuidado excessivo com que ele manuseava as cartas do que nos objetos em si.

    — Regras básicas. — anunciou Niko, finalmente erguendo o olhar. — Cada um começa com dez fichas e cada ficha vale cinquenta pontos.

    Ele apontou para o monte de dez fichas à frente de cada um, sendo quarenta fichas no total.

    — Isso dá quinhentos pontos por jogador. Sendo dois mil pontos no total. O jogo só é encerrado quando as fichas acabarem, ou quando todo mundo concordar que já deu.

    Brigitte fez uma conta rápida de cabeça.

    — Isso não dá nem meia hora de jogo.

    — Exato. Essa é a ideia. — confirmou ele. — Ou você se esqueceu do por quê estamos aqui?

    Um pequeno clique pareceu acontecer dentro da cabeça dela, como um ponto de exclamação invisível surgindo no ar ao ser lembrada do dever. Era óbvio que eles não estavam ali para passar a tarde jogando cartas. O tempo era um recurso valioso — especialmente com um dríade desaparecido em Daurlúcia. Um jogo curto significava menos distração, menos margem para erro — e uma decisão mais rápida sobre Gwen.

    Evelyn puxou seu monte de fichas para perto com força demais. Algumas escorregaram, rolaram sobre a mesa, e caíram no chão.

    — Ei. — reclamou, inclinando-se para frente e quase batendo a testa na borda da mesa. — Essa mesa tá torta.

    — A mesa não tá torta. — respondeu Brigitte, já se abaixando para pegar as fichas caídas.

    Evelyn tentou contar as próprias fichas, arrastando-as uma a uma com o dedo.

    — Uma… duas… quatro… — fez uma pausa longa, encarando o monte como se ele tivesse mudado de lugar. — Não. Pera. Isso aqui tá errado.

    — Você já tá bêbada. — comentou Niko, sem julgamento.

    — Não tô bêbada. — rebateu ela, ofendida. — Só… estrategicamente alcoolizada.

    — Isso não é a mesma coisa que “bêbada”, não?

    Gwen mordeu o lábio para conter um sorriso, enquanto Niko recolhia as fichas restantes do chão e as colocava novamente à frente da elfa.

    — Aqui, dez fichas. — disse, seco. — Todas iguais. Não tem mistério.

    — Eu desconfio desse jogo… — murmurou Evelyn, apoiando o queixo na mão. — Porque o jogo sempre desconfia de mim…

    Niko embaralhou o baralho com movimentos simples e diretos. Em seguida, distribuiu duas cartas para cada um da mesa.

    — Primeira rodada. — anunciou. — Apostas abertas.

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