Capítulo 161 - Fichas IV
O jogo não parou para que Brigitte se recuperasse do choque. Enquanto ela permanecia estática, encarando o vazio da mesa onde sua confiança estava minutos antes, Niko recolheu as cartas com um pragmatismo frio. Ele não disse uma palavra, mas seus olhos não deixam Gwen nem por um segundo sequer.
Nos vinte minutos seguintes, algumas pessoas do bar, antes comendo ou conversando começaram a se aproximar do quarteto, se tornando telespectadores do jogo impossível. Enquanto isso, o baralho pareceu se tornar um cúmplice da esotérica, uma extensão de sua vontade e poder.
Niko, em uma tentativa de testar os limites daquela suposta sorte, forçou várias jogadas suicidas. Ele entrou em mãos tecnicamente perdidas, aumentou apostas com cartas medíocres e buscou confrontos diretos, tudo para ver se conseguia detectar um deslize, um tique ou um sinal de que Gwen estivesse trapaceando… mas não havia nada. Aquilo era puramente orgânico.
Gwen vencia de forma limpa, rodada após rodada. Ela não precisava de blefes elaborados; as cartas certas simplesmente pareciam surgir em sua direção no momento exato. Niko acabou perdendo sua última ficha em um par de valetes que foi destruído por uma sequência que Gwen montou no último segundo. Ele agora estava assim como Brigitte e as outras seis pessoas em volta: um observador passivo.
No fim, sobrou apenas Evelyn. A elfa, já estava na sua quinta caneca de chope, era o último obstáculo entre Gwen e a vitória completa. Evelyn tentava manter a compostura, mas o álcool e a frustração começavam a corroer sua paciência. Ela não estava apenas perdendo fichas; estava perdendo as esperanças de seu futuro financeiro.
“Se eu perder agora, eu tô ferrada…”, pensou. “Eu nem sei quanto vale os pontos em dinheiro.”
Niko suspirou, sentindo as cartas do baralho novo em seus dedos. O teste de trapaça havia falhado, era certeza de que algo fazia parte da natureza de Gwendolyn. Bruxaria, alguma Alma Independente, não importava. Ele já sabia que Gwen possuía utilidade para o grupo. Agora, só bastava terminar o jogo.
O albocerno começou a deslizar as cartas pela madeira, distribuindo as últimas cartas do dia. Evelyn tinha apenas quatro fichas restantes — seu último bastião de resistência contra o sorriso tranquilo e os olhos imóveis de Gwendolyn.
— Última rodada. — anunciou Niko, de voz baixa sob a tensão da mesa e os murmúrios dos observadores. — Apostas abertas.
Evelyn encarava Gwen com aquela face monstruosa. Em sua mente afetada pelo álcool, a esotérica não era mais uma aliada, mas uma entidade maligna, uma “chefona” de fase final que já havia “assassinado” Niko e Brigitte, cujos cadáveres estavam ali ao lado, sem fichas.
“Vou vingá-los, amigos!”
Uma gota de suor escorreu pela têmpora de Evelyn. Ela não iria conseguir vencer a garota daquele jeito. Se as coisas continuassem assim, ela seria a próxima a cair. Precisava de um plano. Precisava de uma jogada proibida… Mas qual trapaça ela poderia usar?
Evelyn pensou por alguns instantes nas possibilidades. Logo, a opção perfeita surgiu em mente: “Ela não pode vencer… se não conseguir levantar as cartas congeladas na mesa!”, concluiu a garota, com um raciocínio que lhe pareceu brilhante no momento.
Ela concentrou sua Alma, canalizando o frio através dos dedos que tocavam a mesa. O ar ao redor de Gwen começou a esfriar. No entanto, o foco de Evelyn oscilou junto com a sua visão. Um estalo seco ecoou, mas não veio das cartas de Gwen. Evelyn olhou para baixo e viu sua quinta caneca de chope parcialmente congelada, com alguns cubinhos de gelo subindo pela bebida.
— Ah… bem melhor. Chope quente é um crime. — murmurou Evelyn, dando um gole no gelo antes de arregalar os olhos. — Ugh? Peraí, não era isso que eu ia fazer!
Gwen soltou uma risadinha abafada, observando a elfa lutar contra as próprias faculdades mentais.
— Evelyn, querida, está tudo bem, isso logo vai acabar. Aliás… — disse Gwen, com uma suavidade letal. — O sete de espadas é uma carta bonita, mas o dois de ouros que você está segurando… ele parece tão solitário.
Evelyn se espantou. O choque foi como um balde de água gelada caindo sobre sua cabeça. Ela baixou os olhos para as próprias cartas, puxou a borda do papel, forçando a vista para focar nos desenhos borrados. Um sete e um dois. Exatamente o que Gwen disse.
— V-você… você é um demônio! — exclamou Evelyn, suando frio e apontando para Gwen com o dedo trêmulo. — N-não é possível! E-essas jogadas são impossíveis! Ninguém consegue fazer isso! Você está trapaceando!
Gwen inclinou levemente a cabeça, o sorriso em seu rosto era suave demais para alguém sendo acusada de algo tão grave.
— Evelyn, querida… — disse, com uma paciência quase maternal. — Você ainda vai apostar?
A pergunta foi o empurrão final. O orgulho ferido da elfa inflou como um balão prestes a estourar.
“Quer dizer… ela já ganhou muitas vezes… Isso significa que essa ela perde!”, concluiu ela.
Ela respirou fundo, estufou o peito e, com um movimento teatral demais para quem mal conseguia manter o equilíbrio, empurrou suas quatro fichas restantes para o centro da mesa.
— All-in! — anunciou, a voz alta demais, chamando ainda mais atenção do público ao redor. — Você já gastou toda a sua sorte, Bruxa! Ninguém ganha desse jeito pra sempre!
Algumas pessoas trocaram olhares curiosos. Outras se inclinaram um pouco mais para ver o desfecho. Niko não disse nada. Apenas observou, com os braços cruzados, como quem já sabia exatamente onde aquilo iria terminar.
Niko estendeu a mão e virou a última carta sobre a mesa. O River revelou a carta final…
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som da respiração pesada de Evelyn. Ela estreitou os olhos, as pupilas tentando focar no símbolo dourado no centro da carta. Na sua mente embriagada, o desenho se multiplicou, as pontas se transformando em pequenos losangos espalhados.
— HA! — Evelyn explodiu em uma gargalhada triunfante, batendo os punhos na cintura e empinando o nariz. — Eu sabia! Um sete! Outro sete! Eu tenho um par de setes! Chupa essa, humana! Eu tenho a mão da vitória! Eu ganhei! HAHAHA!
Ela ria com tanta vontade que quase perdeu o equilíbrio, apontando para o Ás de Ouros como se tivesse acabado de encontrar o tesouro perdido de Daurlúcia. Brigitte olhou para a carta, depois para Evelyn, com uma expressão de pura pena.
Niko suspirou, massageando as têmporas com os dedos. Ele nem se deu ao trabalho de olhar para as cartas de Gwen, ele já sabia que o jogo já estava ganho para ela antes mesmo de começar.
— Evelyn… — chamou Niko, a voz plana e sem um pingo de emoção. — Aquilo é um Ás. Não é um sete.
O riso de Evelyn morreu na garganta como um motor a combustão interna engasgado. Ela inclinou o corpo para frente, quase encostando o nariz na carta.
— O quê? Não… olha ali as pontinhas… um, dois… — ela tentou contar os desenhos, mas eles pareciam fugir de seu dedo. — Ugh?
Gwen, com uma calma que beirava o insulto, revelou suas próprias cartas: um par de Reis. Ela nem precisava do board; sua mão inicial já era superior a qualquer coisa que Evelyn pudesse ter sonhado naquele jogo.
— Sete e dois de naipes diferentes, Evelyn — continuou Niko, impiedoso. — Você não tem nada que possa te ajudar. O Ás não te ajuda. Você perdeu.
A gravidade pareceu triplicar para a elfa no exato momento em que a ficha caiu — ou melhor, quando ela percebeu que não tinha mais nenhuma ficha. Seus joelhos cederam e ela caiu para o lado, desabando no chão do bar, derrotada pela probabilidade e pela quinta caneca de chope.
Os observadores ao redor aplaudiram, alguns assobiando em aprovação.
— Ela realmente nem pareceu trapacear. — comentou um mercador próximo, impressionado.
— Ou é a mulher mais sortuda de Luminara, ou a melhor trapaceira que já pisou nessas terras. — disse outro, de voz mais caipira.
Evelyn, ainda caída, levantou apenas a mão, balançando-a debilmente em direção ao teto.
— Então… — a voz dela saiu abafada contra a madeira do piso. — Quanto a gente te deve, sua Bruxa? Deixa tudo na conta do Niko.
Ela fez uma pausa, se levantando e sentando novamente na cadeira, ainda com dificuldades.
— Pra uma humana, você joga bem até demais. Quase não parece uma… é bem menos irritante que a média.
— Ei! — disse Brigitte, arregalando os olhos.
— Ah, verdade. — ela apontou para a luminar. — Você é a “média”.
— Vou levar isso como elogio. — respondeu Gwen à primeira fala de Evelyn.
Brigitte fez uma careta, mas resolveu ignorar a grosseria etílica da amiga. Niko guardou o baralho na caixa de madeira, levantando-se com o olhar de quem tinha visto mistérios demais para uma única tarde. Enquanto isso, Evelyn estava deitada na mesa, já pensando nas centenas de dinheiro que perderia só naquela aposta.
— Não devemos nada, Evelyn. Era só um jogo casual. Não tinha dinheiro envolvido.
Houve um breve silêncio, interrompido apenas pelo som de Gwen empilhando suas quarenta fichas com um sorriso satisfeito. Evelyn ergueu o rosto, uma mecha de cabelo grudada na testa suada, processando a informação.
— Ah…

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