Capítulo 162 - Terminal
Com o final do jogo, os observadores se dispersaram, alguns voltando a comer, outros saindo do bar. A mesa do grupo, mesmo com o barulho local — ainda maior que antes do jogo —, parecia mais distante, sem olhos para encararem os quatro ali a todo momento.
— Ah, isso foi divertido. — murmurou Gwen, observando Niko com aqueles olhos que liam mais do que apenas cartas. — Mas sinto que o baralho não era o único peso nas tuas mãos hoje, Niko.
Niko hesitou, os dedos ainda estavam sobre a tampa da caixa de madeira. Ele olhou para Brigitte, que ajustava a bandagem no braço direito com uma careta discreta, e depois para Evelyn, que parecia, de alguma forma, ainda mais bêbada, abraçando a caneca de chope — pela metade.
Bem, Gwen já era um membro oficial do grupo de Niko — não por confiança, mas por pura utilidade —, sendo assim, nada mais justo do que tratar ela de fato como um membro.
— Você tem razão. Já que você faz parte do grupo, precisa saber o porquê estamos aqui em Daurlúcia. — disse Niko, com a voz baixa, direcionada a Gwen. — Estamos a rastrear um dríade. Ele foi levado de Reiken num esquema de tráfico sapiente. Eu não… — hesitou, reformulando a fala. — É isso. É por isso que estamos aqui.
Gwen inclinou a cabeça, a expressão suavizando-se em uma serenidade quase melancólica.
— Ah, então é um resgate. Imaginei que pudesse ser algo grandioso, mas não exatamente isso. — disse ela. — É um objetivo heroico. Nobre. Poucos neste mundo olham para além do próprio reflexo.
Niko desviou o olhar imediatamente. O elogio pesou como uma massa de chumbo puro. Ele não se sentia um herói; sentia-se mais como um devedor tentando pagar uma conta de consciência que só aumentava a cada segundo.
— Eu não me…
Evelyn, que até então observava Gwen como se tentasse decifrar um código complexo das cônicas de detetive que lia no jornal, interrompeu Niko:
— E tu? — perguntou a elfa, direta, apontando para a garota ao seu lado. — O que é que você tá fazendo no grupo, afinal? Do nada você vem aqui: “Ai, eu vou entrar no grupinho do amigo chifrudo daquela elfa bonitona porque eu quero.” — deu uma pausa, dando um grande gole na caneca. — Por acaso você é uma espiã, mulher?
— …Heh?
Gwen ficou genuinamente confusa com aquela ação de Evelyn, como se um ponto de interrogação surgisse de sua cabeça. Aparentemente a “esotérica céltica de Daurlúcia” não conseguia ler pessoas não sóbrias.
Antes que a garota pudesse abrir a boca, Niko já respondia por ela:
— Foi uma promessa que eu fiz pra ela, Evelyn. Ela vem connosco.
Evelyn deu de ombros, recostando-se na cadeira com um desdém frio.
— Ah. Tá, beleza. Se o chefe prometeu, tá prometido. Só espero que essa intuição também consiga desviar de balas. — terminou, dando mais um gole na caneca quase vazia.
Niko ignorou o comentário de Evelyn sobre as balas, embora o aviso tenha ressoado nele. Ele se inclinou sobre a mesa, diminuindo ainda mais o tom de voz.
— Escutem bem. É melhor a gente voltar a ação logo. — Niko esperou que Evelyn pousasse a caneca antes de continuar. — Dei uma olhada no mapa da capital na banca. Se o dríade foi trazido para Daurlúcia por meio dos trens, ele obrigatoriamente passou pelo Terminal Via Áurea. Afinal, aquele lugar dá conexão direta com Reiken.
— Via Áurea? — Brigitte franziu o cenho, o nome soando irônico. — Onde fica isso?
— Na zona oeste da cidade, em um bairro relativamente populoso. — disse ele. — Diferente de Reiken, onde a estação ficava num bairro industrial, esse terminal aparentemente fica em um lugar mais comercial, logo, mais cheio. É o lugar perfeito para esconder algo sob o pretexto de “mercadoria delicada”.
Niko tamborilou os dedos na mesa, com os olhos fixos em um ponto do bar — um dos barris de cerveja —, traçando a estratégia.
— O fato de ser um lugar movimentado joga a nosso favor e contra nós. Temos multidões pra nos disfarçar se possível, mas a segurança também é grande, maior que a de Reiken. Invadir seria complicado, principalmente de dia.
— E como a gente faz isso sem chamar atenção da metade da cidade? — Evelyn perguntou, encostando a cabeça na mão, parecendo subitamente mais focada apesar do álcool.
— Eu pensei em nos disfarçarmos — sugeriu Gwen, com a naturalidade de quem sugere o sabor de um chá.
Houve um silêncio súbito na mesa. Brigitte parou de mexer na bandagem e encarou a garota com uma sobrancelha erguida. Evelyn soltou uma risada nasalada, olhando para os chifres de Niko e depois para a pele acinzentada das próprias mãos, como se a ideia de “disfarce” para um grupo tão visualmente peculiar fosse uma piada. Já Niko apenas a observou, mantendo a expressão neutra, mas com um ceticismo óbvio no olhar.
— Um disfarce? — Brigitte repetiu, incrédula. — Gwen, nós somos uma luminar ferida, uma elfa e um… — ela gesticulou para Niko — …albocerno. A gente não “se mistura” em um terminal comercial.
— Ah, mas vocês não precisam parecer pessoas comuns. — Gwen continuou, ignorando o ceticismo. — Tenho um amigo que trabalha na logística do terminal. Ele é um bom amigo e pode nos arranjar uniformes de manutenção e álibis nos registros de turno. Com os papéis certos, ninguém olha para o rosto de quem está carregando caixas.
Niko inclinou o corpo para frente, estreitando os olhos.
— Esse seu amigo… sabe se ele trabalha em algum esquema criminoso? Talvez o do tráfico sapiente. — a pergunta foi seca, direta. Niko não queria trocar um problema por outro.
— Oh, provavelmente não. — respondeu Gwen, pensativa. — Eu saberia se as energias dele estivessem tão turvas assim. Os únicos crimes que ele cometeu foram sonegação de impostos e o uso recreativo de algumas drogas ilícitas. Nada que atrapalhe o caráter dele, eu diria.
Niko suspirou, massageando a nuca.
— Essa última parte não era necessária, Gwen. Mas… o plano até que é bom.
No fundo, Niko ainda desconfiava da facilidade com que as soluções apareciam através dela. A sorte que Gwen exibiu no jogo de cartas não parecia um mero acaso, e se aquela “sorte” pudesse ser estendida para a infiltração no terminal, era um recurso que ele não podia se dar ao luxo de descartar. Se a realidade parecia se dobrar levemente a favor da celta, ele usaria isso para chegar ao dríade.
— Certo. Vamos até esse seu amigo. — decidiu Niko, levantando-se e sinalizando para o grupo. — Se vamos entrar na Via Áurea como funcionários, precisamos fazer isso antes da próxima troca de turno. Vamos.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.