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    Niko e Gwen caminhavam pelas passarelas metálicas superiores — cerca de sete metros do chão —, onde a cortina de vapor era mais intensa. Lá embaixo, o terminal era caótico e barulhento, mas ali em cima, o som era um zumbido menos constante. Niko mantinha as mãos nos bolsos do casaco de operário, observando o fluxo por cima, com olhos de falcão.

    — Por que você ainda está me seguindo, Gwen? — perguntou ele, sem desviar o olhar do pátio. — Seria mais eficiente se você estivesse do outro lado, perto da Ala Norte. Aumentaria as chances de ver um ponto de interesse e criar suposições.

    Gwen não parou de caminhar. Seus passos eram leves, quase flutuavam sobre a grade de ferro. Sabia esconder a presença como uma verdadeira caçadora.

    — Preciso te acompanhar em sua jornada, filho de Cernuno. — respondeu ela, ecoando levemente graças ao amplo espaço. — É isso que os deuses, a natureza e o destino querem. As trilhas que você caminha estão envoltas em névoa, mas a minha luz só brilha onde você pisa.

    Niko soltou um suspiro pesado, mas não retrucou. Ele já tinha aprendido que questionar a lógica de Gwen era como tentar segurar fumaça com as mãos. Além disso, não podia negar que a sorte e a dedução dela eram recursos valiosos demais para serem ignorados.

    A única coisa que o incomodava de fato eram as falas místicas de Gwen. Era algo muito teatral e forçado, irritante de se ouvir. Claro que existiam personagens nas histórias que lia que eram exatamente assim, mas havia todo o contexto de ser uma obra de ficção, muito diferente da vida real.

    — Que seja. — murmurou ele, voltando ao pragmatismo. — O que me preocupa é a papelada. Em Reiken, os arquivos de despacho listavam o dríade especificamente como “carga frágil” para garantir que os transportadores tivessem cuidado. Mas olhei o manifesto deste terminal agora pouco e não existe uma única menção a cargas frágeis nos últimos três dias. Ou ele foi reclassificado para sumir no sistema, ou estava escondido em um lote comum. O que acha?

    Gwen parou junto ao corrimão, observando um guindaste a vapor erguer um contêiner metálico. Ela inclinou a cabeça, como se estivesse analisando, “lendo”, o som das máquinas.

    — O papel é uma máscara, Niko. Quem comercializa vidas não gosta de deixar nomes reais em registros. — disse ela, voltando o olhar para o garoto. — Se eu fosse a mente por trás dessa rede, eu o chamaria de algo pesado ou desagradável, algo que ninguém gostaria de abrir para conferir. “Peças de reposição”, “Engrenagens de óleo negro”. Algo sujo e sem importância.

    Niko franziu o cenho, processando a lógica por trás.

    — Faz sentido. Se rotularem como algo perigoso ou indesejado, a guarda apenas carimba o manifesto e se afasta para não sujar as mãos. Isso explicaria por que não havia nenhuma “carga frágil” no documento. Mas ainda assim, alguém precisa ter assinado o recebimento.

    — Sim. — concordou Gwen, voltando a caminhar. — E essa pessoa não está nos escritórios luxuosos da frente, ela está lá embaixo. Quanto menos alguém chama a atenção, mais é capaz de esconder algo. Note como aquele grupo perto da plataforma quatro se move… eles não estão cansados, estão vigilantes. Parecem estar protegendo algo metafísico…

    Niko observou o ponto indicado. Gwen tinha razão; o comportamento era sutil, mas a maneira como os homens evitavam olhar para os fiscais da Via Áurea era um indicativo claro de que existia um acordo não dito ali. Mas, poderia ser qualquer coisa, algo além do dríade.

    — Você acha que aqueles quatro estão envolvidos de algum jeito? — perguntou Niko, com a voz parecendo um sussurro sob o apito de uma locomotiva partindo ao oeste.

    Gwen estreitou os olhos. A luz amarela de cima do terminal, no ponto mais alto da estrutura, refletiu em seus olhos verdes de uma forma que a fazia parecer ver através da própria matéria além dela. Em seguida, deu de ombros.

    — Talvez. Mas o peso que carregam não parece ter a densidade de uma vida roubada — comentou ela, voltando a caminhar devagar. — Eles parecem esconder um segredo, sim, mas não o tipo de segredo tão cruel como tráfico sapiente. Às vezes, as pessoas agem de forma suspeita por motivos bem mais… normais.

    Niko a olhou de soslaio, confuso.

    — Normais como?

    — Ah, você sabe. Uma traição mútua das esposas; os amigos beberam demais um dia e rolaram coisas proibidas. Ou talvez seja só de um amigo, sem o envolvimento dos outros, mas com os parceiros ajudando a encobrir a farsa. — ela soltou uma risadinha leve, como se estivesse comentando sobre o enredo de uma das peças de teatro que viu recentemente. — O mundo é cheio de pequenas mentiras que imitam o brilho das grandes. Aqueles homens estão protegendo a própria dignidade, não uma atrocidade.

    Niko suspirou, um pouco irritado por ela estar falando à toa sobre adultério no meio de uma investigação de tráfico de pessoas.

    — Gwen, foco. A gente precisa de alguém que tenha visto o dríade, não de fofocas.

    — Eu sei, eu sei. Eu só estou dizendo que o culpado raramente está no grupo que parece culpado. O verdadeiro elo fraco geralmente é aquele que…

    Ela parou abruptamente. O tom casual sumiu de sua voz no mesmo instante em que um arrepio visível percorreu seus ombros. Ela virou o rosto para um funcionário que cruzava a passarela vindo da direção oposta — entre Gwen e ele, estava Niko — a cerca de dez metros deles. Era um homem de aparência comum, com olheiras profundas e um andar tão apressado que quase parecia uma fuga.

    — Ahmm… Gwen? — disse Niko, tentando chamar a atenção da colega, que estava mais distante que nunca.

    Para qualquer um, era apenas mais um trabalhador exausto. Para a esotérica, ele era alguém mais que suspeito, era aquilo que estavam procurando.

    — Aquele. — disse ela, sua voz estava subitamente desprovida de qualquer distração. — É ele.

    Niko franziu o cenho, olhando para o homem e depois para Gwen. Ele não via nada além de um operário comum, mas a mudança drástica na postura da garota foi o suficiente para fazê-lo se mover.

    Gwen não esperou por uma confirmação, ela simplesmente começou a caminhar entre as grades na direção do sujeito, e Niko a seguiu de perto, mantendo a guarda baixa para não parecer uma ameaça ao homem.

    Eles interceptaram o homem no meio da passarela. Era um funcionário comum, de cabelo preto curto e olhos castanhos, carregava uma pequena bolsa de couro consigo. Gwen parou à frente dele com um sorriso de mentira, encenando o papel de “novata perdida”.

    — Com licença, senhor! — exclamou ela, bloqueando gentilmente o caminho. — Sou nova na logística e o mestre disse que eu deveria aprender sobre o descarregamento da madrugada com os veteranos. Você poderia me dizer como funciona o registro das carroças externas? Ouvi dizer que as de ontem foram… bem diferentes.

    O homem, cujo crachá de metal batido dizia Bernart, gelou. Seus olhos vagaram nervosamente de Gwen para Niko, que permanecia um passo atrás, em silêncio, observando a linguagem corporal do operário. Bernat apertou a alça da bolsa que carregava.

    — Eu… eu não sei de nada disso. — Bernat gesticulou vagamente, as palavras estavam saindo em um luminárico trêmulo e apressado. — Sou do setor de manutenção de trilhos, não de carga. Meu turno acabou. Preciso ir para o vestiário, estou atrasado, minha família está me esperando.

    — Ah, mas é um procedimento rápido, não? — insistiu Gwen, inclinando a cabeça com uma curiosidade quase infantil. — É que eu sinto que algo muito importante passou por aqui ontem… Você não saberia me dizer quem cuidou do “carregamento especial” da madrugada?

    O rosto de Bernat empalideceu de forma drástica, indo para um branco cadavérico. Arregalou os olhos, prendeu a respiração e engoliu seco

    — Com licença…

    Apenas deu um passo lateral brusco, quase tropeçando nos próprios pés na grade de ferro, e apressou o passo, praticamente correndo em direção à escada de ferro que levava ao nível inferior. Niko observou o homem sumir entre o cenário e o resto dos trabalhadores, então voltou-se para Gwen.

    — O que foi isso? Ele parecia que ia ter um colapso. — perguntou Niko. Ele havia entendido cada palavra da confissão muda de Bernat, mas precisava manter em segredo o fato de que entendia luminárico.

    Gwen se aproximou dele, com o rosto voltando àquela serenidade mística e irritante.

    — Ele confirmou tudo sem dizer uma única palavra útil, Niko. Quando mencionei a carga da madrugada, a alma dele tremeu. Ele está escondendo o rastro do dríade, ou pelo menos sabe de algo.

    — E você tem certeza que é ele? — Niko cruzou os braços, testando-a. — Ele pode ser só alguém com medo de estranhos ou escondendo qualquer outra bobagem. Pode até ser como aquelas pessoas de antes.

    Gwen deu um sorriso enigmático, apontando para o céu de metal do terminal.

    — Ele tem o cheiro da culpa, Niko. É um peso que não condiz com o cansaço do trabalho. Além disso… — ela fez uma pausa dramática — …os deuses me disseram que o destino dele está entrelaçado ao nosso agora.

    Niko bufou, massageando a nuca e soltando um suspiro longo.

    — Os deuses. Claro. São sempre os deuses, o destino ou a natureza. — ele olhou para baixo, localizando os pontos onde Brigitte e Evelyn deveriam estar. — Vamos buscar as outras. Se esse Bernat está indo para o vestiário se trocar, ele vai estar sozinho e encurralado. É a nossa chance.

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