Capítulo 167 - Ninho de Rato
O som do ranger metálico do elevador ecoava alto pelo prédio. Niko e Gwen já estavam no endereço indicado no documento, espremidos atrás da grade de ferro, observando os andares passarem lentamente enquanto o pistão a vapor soltava ar quente comprimido sob seus pés. Quando o elevador finalmente parou no segundo andar, o balanço brusco da máquina antiquada quase os fez perder o equilíbrio.
A grade de metal se abriu, exibindo o corredor à frente, estreito, com um papel de parede amarelado que descascava em tiras, revelando a parede úmida e escurecida por baixo. O cheiro de mofo misturado com o de comida estragada era tão denso que parecia uma névoa invisível invadindo as narinas dos dois.
Niko, com os olhos fixos na numeração de cada uma das portas de madeira pesada, virou-se para a primeira entrada do lado esquerdo sem dizer uma única palavra. Gwen o seguiu em silêncio, sentindo o peso do ambiente opressor.
Eles pararam diante da porta do apartamento 21. Niko tentou girar a maçaneta, mas ela nem sequer cedeu; estava trancada por dentro. Então, ele bateu na madeira com os nós dos dedos, três vezes consecutivas… mas o único retorno foi o zumbido de uma mosca voando alto em algum lugar da casa.
— Parece que tá vazio. — observou Gwen, cruzando os braços e lançando um olhar incerto para Niko. — E agora? Se eu tentar arrombar a porta com um chute, metade do prédio vai chamar a polícia na mesma hora. Como a gente entra?
Niko não respondeu imediatamente. Ele colocou a mão no bolso da calça e retirou um pequeno bloco de notas. Abriu em uma página qualquer e arrancou um pedaço de papel liso e retangular, onde havia um símbolo desenhado em tinta preta profunda: a sua marca de Alma.
Em seguida, agachou-se diante da fresta entre a porta e o chão. Gwen observou, curiosa e em silêncio, enquanto ele deslizava o papel por baixo da porta de madeira. Assim que o papel sumiu de vista, Niko fechou os olhos e concentrou sua vontade. Em um único instante — praticamente imperceptível para qualquer ser comum — o garoto sumiu do corredor, reaparecendo no interior do apartamento.
Gwen piscou uma única vez. Por apenas alguns segundos, ela ficou sozinha no corredor, até ouvir o som metálico de uma engrenagem girando. A chave, que já estava na fechadura pelo lado de dentro, girou com um clique seco. A porta se abriu devagar, revelando Niko, de pé na entrada.
— Eficiente. — admitiu Gwen, entrando e fechando a porta atrás de si. — Mas acho que eu preferia o barulho do chu- Nossa, que cheiro é esse?! — gritou ela de repente, apertando as narinas com força, tentando inutilmente bloquear o odor horrível que a atingiu como um soco.
Gwen deu alguns passos para dentro, seguindo Niko, mas quase recuou de imediato. O lugar era nojento em todos os sentidos táteis e visuais. O apartamento não era apenas uma moradia descuidada; era um depósito de podridão absoluta, um ninho de negligência humana.
Eles ainda estavam no hall de entrada, mas já conseguiam ver sacolas de lixo rasgadas, espalhando dejetos e restos de comida aparente por toda a parte. Havia duas portas em cada uma das paredes laterais, mas não havia qualquer vontade nos dois de explorarem o que quer que estivesse apodrecendo ali dentro.
— Isso aqui tá um lixo, Niko! Sério, como alguém consegue respirar, não, morar num lugar desses? — reclamou ela, com a voz saindo abafada por causa dos dedos apertando o nariz.
O chão sob suas botas era uma camada pegajosa de sujeira acumulada e resíduos que ninguém saberia identificar sem sentir náuseas. Moscas voavam em órbitas frenéticas sobre pratos de comida apodrecida que pareciam estar no chão há semanas, criando um som irritante de zumbidos. Nos cantos escuros, o som de unhas rápidas arranhando contra as paredes denunciava os ratos que habitavam ali como verdadeiros donos da casa. Pombos se amontoavam em um buraco no teto, arrulhando de um jeito monótono enquanto soltavam penas sobre o que restava dos móveis. A única luz que penetrava o local vinha dos raios de sol que atravessavam as janelas sujas e as frestas do teto e das paredes rachadas.
Niko, por outro lado, parecia ter desligado parte de seus sentidos biológicos para manter o foco. Ele não se incomodava com os animais, mas desviava das pilhas e sacos de lixo com uma expressão de puro nojo pela falta de higiene.
Em alguns segundos — que para Gwen pareceram horas de tortura — eles chegaram à sala de estar. Ali, a decoração resumia-se a uma poltrona mofada que parecia estar se desfazendo, alguns móveis de madeira podre e uma porta à esquerda.
— Foca no que viemos buscar, Gwen. — disse ele, embora sua própria voz soasse tensa.
Gwen não aguentava mais um segundo respirando aquele ar infernal. Ela avançou até a janela emperrada, forçando-a para cima para deixar o ar de fora entrar. Cada passo que dava parecia afundar em algo pastoso e úmido.
— Xô, xô! Vão embora daqui, seus malditos! — gritou ela, movendo os braços freneticamente.
Em seguida, espantou os pombos do ambiente, que voaram em um turbilhão de asas para fora — dezenas de ratos com asas infestando a cidade. Com um chute certeiro em uma lata vazia, ela expulsou dois ratos que se aproximavam de suas botas. Por fim, deu um grande suspiro, como se anunciasse que parte daquele pesadelo tinha acabado.
— Pronto. Agora dá pra pensar um pouco sem sentir que meus pulmões estão derretendo.
Eles começaram a revirar o caos. Em poucos minutos, ainda na sala de estar, Niko encontrou uma pilha de papéis sobre um balcão engordurado. Eram contas de luz com avisos de corte em vermelho, cartas de intimação judicial por sonegação. Estava claro que V. Elies era um homem sem qualquer saída financeira e de organização da própria vida. Manchas de sangue seco e escuro sujavam algumas daquelas cartas, sugerindo que alguns dos cobradores haviam sido violentos ao entregarem as cobranças.
— Esse cara é um caso perdido. — murmurou Niko, analisando uma folha de papel amassada. — Ele tá afundado em dívidas e não parece ter a menor intenção de pagar nenhuma delas.
Niko hesitou por um momento, segurando o papel entre os dedos, se perguntou como a vida daquele homem foi parar daquele jeito. Elies teria se tornado um transportador de vidas porque já estava no fundo do poço, ou foi o envolvimento com o submundo que o arrastou para aquela decadência absoluta?
Ele se lembrou da teoria de Gwen, de que o sujeito provavelmente era apenas um prestador de serviços descartável, alguém que os traficantes usavam para manter as mãos limpas. Mas, olhando para a podridão ao redor, Niko sentia que havia algo a mais ali. Ninguém chegava àquele nível de abandono pessoal apenas por falta de dinheiro. Aquela sujeira era o reflexo de um ser que já havia desistido de tudo.
Enquanto Niko examinava a burocracia do fracasso de Elies, Gwen, relutantemente, empurrou a porta à esquerda, entrando no que deveria ser o quarto do homem. O cheiro ali era ainda mais confinado.
Ela se aproximou do único objeto que parecia ter algum uso: um colchão imundo, jogado de qualquer jeito no chão. No centro dele, contrastando com a imundície ao redor, estava um livro de capa dura, relativamente limpo e preservado em comparação ao resto da casa.
— Niko, olha isso.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.