Capítulo 169 - O Labirinto
O estrondo da janela batendo contra a madeira ecoou como um tiro no quarto. Porém Niko não hesitou. Com um movimento fluido, pegou a grande foice de suas costas. Ele inverteu a arma, segurando-a como um bastão, e desferiu um golpe brutal com o cabo reforçado contra o centro do vidro. Os estilhaços explodiram para fora, brilhando como diamantes sob a luz da tarde. Enquanto saltava, mal sentiu os cortes superficiais que os fragmentos deixavam em seus braços expostos.
Lá fora, o ar puro da capital atingiu seu rosto, finalmente estava fora daquele ninho de rato. Elies não estava descendo as escadas de incêndio, em vez disso havia se jogado no espaço entre as grades entre os andares e a grade de metal, aterrissando com um baque surdo na plataforma do primeiro andar e chutando o vidro do apartamento logo abaixo — o 11. Niko saltou logo atrás, também se jogando no vão para poupar tempo.
Ao atravessar a janela do apartamento 11, Niko deu de cara com um cenário drasticamente diferente da podridão de cima. O quarto dessa vez era simples — e bem mais limpo. Uma senhora idosa estava sentada em uma poltrona, costurando um casaco de lã, com os óculos na ponta do nariz.
— AAAGGGHHHHH!!! — gritou ela, em um pavor agudo, ao ver dois estranhos invadirem seu santuário em menos de cinco segundos.
Elies não perdeu tempo pedindo desculpas. Ele atravessou o quarto, cruzou o batente da porta e, já na sala de estar, agarrou uma estante de livros pesada, puxando-a com um nítido esforço. O móvel tombou contra a porta com um estrondo de madeira e vidro quebrado, criando uma barricada improvisada. Sem olhar para trás, ele correu pelo hall e estourou a porta principal, parando no corredor do primeiro andar.
— Sai daqui, seu moleque atrevido! — gritou a mulher idosa, novamente, jogando um pedaço enrolado de crochê em Niko, que mal sentiu o “ataque”.
Niko parou diante do bloqueio por apenas um milésimo de segundo. Ele sacou um pedaço de papel com sua marca de Alma, passou pelo vão da porta, em cima dos destroços. Em um segundo, ele surgiu na sala de estar, a tempo de ver apenas a porta da casa se fechando lentamente, rangendo alto.
Ele correu e estourou a porta também, saindo no corredor, apenas vendo Elies dobrar a esquina da parede, no final do corredor à esquerda, batendo o ombro com tanta força contra a alvenaria que o reboco estalou. O homem soltou um grunhido sufocado e entrou em uma porta de metal entreaberta com um escrito em uma placa de metal: “manutenção”.
Niko não parou para respirar, seguiu o homem. Correu até o final do corredor e abriu a porta com tudo, ficando logo atrás de Elies, podendo ver suas costas bem adiante.
O cenário que encontrou do outro lado foi bem diferente do que havia visto no prédio: o corredor de manutenção era como se fosse um intestino do prédio. Era um grande túnel estreito, escuro e claustrofóbico, onde as paredes eram cobertas por dezenas de canos de cobre e ferro. O ar ali era mais denso e úmido, aquecido pelas caldeiras que alimentavam o sistema hidráulico do prédio.
Elies estava a cerca de dez metros à frente, correndo freneticamente entre as válvulas, canos expostos e latas de lixo que obstruíam o caminho. O albocerno levou a mão ao bolso, sacando uma de suas facas de arremesso. Ele mirou nas costas do fugitivo, preparando-se para lançar a arma e usar sua Alma para o golpe final.
No entanto, Elies olhou para trás no último de segundo. Ao ver o brilho da lâmina na mão de Niko, o desespero o fez virar de direção, dobrando para outro corredor transversal antes que a faca deixasse os dedos do garoto.
Niko lançou a faca mesmo assim. Ainda no ar, concentrou sua Alma, dobrou o espaço, surgindo alguns metros à frente, na interseção dos corredores. Ao fundo do pequeno corredor sem saída, avistou uma escotilha de ferro batendo com força.
Correu até a abertura, chegou à escotilha e olhou para baixo. Era a rampa de descarte de lixo do prédio, um túnel vertical escuro e íngreme que parecia não ter fim. Antes de saltar, ele empunhou sua foice, adentrando o desconhecido. No meio do ar, cravou a ponta da lâmina contra o metal da rampa.
O som foi ensurdecedor. O atrito da lâmina contra o metal gerou uma trilha de faíscas que iluminaram o duto por poucos instantes, enquanto Niko usava a arma como um freio improvisado para não despencar direto para o térreo. Mesmo com os ouvidos doendo e o cheiro de lixo impregnando suas narinas, ele não parou até ver a luz da saída se aproximando.
Niko foi cuspido para fora do duto diretamente sobre uma pilha de sacos de lixo — dentro de um grande cesto — no beco dos fundos. O impacto foi amortecido pela sujeira, mas o estômago do garoto deu um nó com o odor péssimo ao seu redor. Ele rolou para o lado, limpando o rosto com o antebraço, mal teve tempo de entender o que estava acontecendo quando ouviu passos rápidos vindo da entrada do beco.
— Niko! — gritou alguém de voz familiar.
Ao olhar para o lado, viu Gwen surgindo, dobrando a esquina, ofegante, provavelmente tendo descido pelas escadas externas e virado a rua o mais rápido que suas pernas permitiram.
Niko não respondeu. Apenas se levantou, saindo do lugar pútrido, olhando para cima. Elies já estava metros à frente, escalando com uma agilidade desesperada um andaime de madeira que sustentava a reforma do prédio vizinho. O homem já alcançava a altura do terceiro andar.
— Ele tá escapando. — continuou ela, agora ao lado do garoto. — A gente tem que impedir isso!
— Eu sei, eu sei.
Niko colocou a mão por dentro do manto, sacando uma de suas facas. Em um movimento rápido, ele a arremessou em direção a uma viga de apoio logo acima de onde Elies estava segundos atrás. No instante em que o metal cravou na madeira, Niko agarrou Gwen pela cintura — assim como os heróis faziam nos romances que lia.
— Ei! O que você tá fazen-!
Antes que pudesse terminar a fala, o mundo ao redor dos dois girou. O asfalto do beco desapareceu, substituído pela sensação de estarem no alto da cidade. Niko e Gwen surgiram sobre a viga estreita.
Assustado, o fugitivo entrou para dentro do prédio em reforma — uma estrutura oca, sem paredes internas, apenas com o esqueleto de sustentação. Ele correu sobre o piso de concreto, saltando por cima de latas de tinta e montes de areia. Niko e Gwen vinham logo atrás, com os passos ecoando no vazio da construção.
Ao chegar à extremidade do pavimento, a altura não foi capaz de parar Elies. Ele simplesmente se jogou do alto. Ao perceber a situação, Niko lançou outra de suas facas, surgindo — junto de Gwen — no limite da construção.
À frente deles, viram o teto baixo de outra construção. O homem havia se lançado bem ali, caindo pesadamente sobre as telhas de metal. O material, já frágil, não suportou o impacto e cedeu com um estrondo de metal retorcido, engolindo Elies para dentro do estabelecimento.
Niko e Gwen apenas observam a cena, incrédulos. Como forma de demonstrar isso fisicamente, Gwen apenas limpou uma mecha de cabelo do rosto.
— Esse cara é maluco?! — exclamou ela, olhando para o vão de quase seis metros que o sujeito acabou de saltar.
— Pelo estado da casa dele, parece que sim. — respondeu Niko, ajustando a pegada na foice e preparando-se para o salto.

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