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    Niko não perdeu tempo, já sacou uma de suas facas de arremesso, girando-a entre os dedos antes de lançá-la com precisão para dentro do buraco escuro no teto de zinco. No instante em que o metal atravessou a abertura, ele envolveu o braço firmemente ao redor dos ombros de Gwen.

    Desta vez, ela nem teve tempo de reclamar. O mundo se contraiu em um vácuo e, no segundo seguinte, os dois aterrissaram sobre uma pilha de tecidos úmidos.

    O interior do local era marcado com um calor sufocante e umidade extrema. O ar estava saturado com o cheiro químico de sabão barato e o vapor denso que escapava das caldeiras industriais, criando uma névoa branca que reduzia a visibilidade a poucos metros.

    — Mas que merda, eu não consigo ver nada! — sussurrou Gwen, abanando o rosto enquanto tentava dissipar a bruma.

    Ao redor deles, o cenário era um labirinto de centenas de lençóis brancos e toalhas de mesa pendurados em trilhos móveis metálicos que cruzavam o teto, movendo-se em um ritmo lento. Os tecidos úmidos criavam paredes que balançavam conforme o vento entrava pelo buraco no telhado. O lugar que estavam parecia ser algum tipo de lavanderia industrial.

    O som era outro obstáculo: o rugido constante dos caldeirões gigantes e o borbulhar dos líquidos de lavagem criavam uma barreira acústica que engolia qualquer som de passos.

    — Ele ainda está aqui dentro. Sinto o cheiro dele. — murmurou Niko, estreitando as íris, conseguindo ver melhor no escuro.

    — Eu também sinto, Niko. — respondeu Gwen com uma cara de paisagem, como se aquilo fosse óbvio. — Mesmo com um banho aquele maluco ainda iria feder.

    Niko avançou cautelosamente junto da garota, afastando um lençol pesado que bloqueava o caminho. O tecido estava frio e encharcado, colando em seus braços… De repente, um movimento rápido à direita captou sua atenção.

    — Ali! — apontou Gwen, vendo apenas o vulto de uma sombra rastejando por baixo de uma das fileiras de tanques.

    Eles partiram em disparada, mas o ambiente jogava contra eles. Elies corria entre os trilhos, puxando as cordas dos varais móveis para que dezenas de lençóis desabassem sobre Niko e Gwen de uma só vez. Antes que os tecidos os atingissem, Niko cortou o monte com um arco rápido com a foice, mas o atraso de poucos segundos foi o suficiente para os prejudicarem.

    Ao longe, o som de dobradiças de metal rangendo foi ouvido pela dupla. Junto, uma fresta de luz solar iluminando a névoa branca da lavanderia, revelou Elies, em uma escada de ferro lateral abrindo uma claraboia, chegando ao telhado.

    Niko e Gwen emergiram logo atrás, saindo da lavanderia diretamente para o teto de vidro ao lado do local escuro. O cenário era completamente diferente do anterior. Bem ali, havia centenas de placas de vidro emolduradas por ferro, todas escorregadias devido ao vapor dos caldeirões do prédio anterior. Depois do vidro, havia centenas de flores e plantas em padrões ordenados — tamanho, cores, formato… —, formando um verdadeiro jardim conservado.

    Elies corria pelo teto inclinado de forma desengonçada, de braços abertos para manter o equilíbrio enquanto suas botas deslizavam perigosamente sobre a superfície úmida. Niko e Gwen vinham logo atrás, com os passos curtos para não perderem a tração.

    O albocerno enfiou a mão no manto, com os olhos brancos fixos no alvo. Elies olhou sobre o ombro e o pânico surgiu no rosto ao notar que a distância entre eles diminuía a cada segundo; ele sabia que se Niko acertasse o arremesso, a perseguição acabaria ali mesmo.

    O rato finalmente havia superado o desafio do vidro, parou por um segundo, olhou para os lados buscando qualquer coisa que atrasasse a dupla. Sobre uma calha, avistou a ferramenta perfeita. Pegou uma chave inglesa pesada e esquecida, com um olhar de puro ódio, ele lançou a arma improvisada com força contra o painel de vidro exatamente sob os pés de Niko. Em seguida, o vidro explodiu em mil pedaços sob os pés do albocerno.

    — Niko! — gritou Gwen, que reagiu rápido, saltando para a viga de ferro central enquanto metade do chão desaparecia.

    Niko estava no ar, contando apenas com sua força e seus reflexos. Em vez de cair no vazio de dez metros de altura sobre as plantas exóticas lá embaixo, ele puxou sua arma com rapidez e cravou a ponta da foice em uma das molduras de ferro, ficando pendurado bem ali, balançando para frente e para trás.

    Quando estava prestes a usar sua Alma — por uma de suas facas —, viu Gwen, estendendo a mão contra o sol da tarde, como uma figura salvadora. Niko não hesitou, segurou na mão da amiga, que o ajudou a subir de novo para o teto de vidro.

    Eles em seguida se levantaram, vendo Elies atingir a borda do telhado. Ele estourou com o ombro uma pequena porta de serviço na extremidade do conservatório. O homem tropeçou, levantou-se apressadamente e atravessou a entrada, desaparecendo na escuridão do interior.

    — A gente precisa ir logo! — alertou a esotérica. — Lança uma de suas facas e usa sua habilidade!

    Niko imediatamente puxou a faca e, com um giro curto de pulso, arremessou-a em uma trajetória curva que passou raspando pela gárgula de pedra da fachada. No instante em que o ferro tocou a porta por onde Elies passou, Niko apertou o pulso de Gwen. O ar ao redor deles se dobrou, fazendo-os surgirem contra o piso da saída de emergência.

    À frente deles, uma longa escadaria dava acesso ao térreo em dezenas de voltas. Niko não tinha intenção de gastar calorias ali. Ele simplesmente se inclinou sobre o corrimão e soltou uma faca no vão central, deixando-a cair como uma pedra. No último segundo, antes do metal atingir o concreto lá embaixo, a realidade se distorceu novamente.

    Eles apareceram no térreo, já de frente para uma pesada porta de metal que vibrava com um som surdo vindo do outro lado. Niko apertou a barra ao correr da porta, dando acesso à rua. O silêncio abafado do prédio foi substituído por uma explosão ensurdecedora de uma multidão de pessoas falando alto, risadas e música. Eles haviam acabado de desembarcar bem em uma das ruas movimentadas do Festival de Independência.

    — Droga, cadê ele? — murmurou Gwen, olhando para todas as direções enquanto perdia o maldito de vista. — Desgraçado!

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