Capítulo 171 - O Labirinto III
O contraste entre a caçada mortal e a celebração do festival era quase insuportável. A perseguição entrou em hiato. A massa de barracas de cores vibrantes e pessoas andando na avenida era um obstáculo físico pior do que qualquer parede de antes.
— Como a gente encontra ele agora? — gritou Gwen, forçando a voz para ser ouvida por cima de uma banda que passava a poucos metros dali. — No meio desse bando de gente, a gente nunca vai encontrar ele!
Niko girou o corpo, tentando encontrar qualquer sinal do homem — ou apenas pegando inspirações para seu próximo movimento. Suas íris, ainda estreitas, escaneavam a multidão, mas o movimento constante das fantasias e bandeiras criava um borrão impossível de encontrar qualquer coisa.
— Precisamos de visão. Aqui embaixo não dá para ver nada. — respondeu Niko, com a voz rouca de frustração. — Ele pode sumir da festa a qualquer instante.
— Então a gente volta para cima? — Gwen apontou para o topo de um edifício comercial de três andares que ladeava a avenida.
Niko acenou em sinal de confirmação. Ele sacou uma faca e a lançou em um arco alto. O metal brilhou contra o sol da tarde antes de se cravar em uma gárgula no topo do prédio. Em um piscar de olhos, o som da multidão tornou-se um eco abafado lá embaixo. Eles agora estavam no topo, com o vento soprando forte e balançando o manto de Niko.
Gwen correu até a borda, estreitando os olhos. Ela ignorou as cores do festival, focando naquilo que estavam procurando há minutos. Seus sentidos de esotérica, aguçados pela adrenalina, buscavam qualquer divergência…
— Ainda não estou vendo… Nada… Espera. — murmurou ela, movendo a cabeça ao sentir um zumbido no ouvido, como um radar. — Ele está usando o uniforme de manutenção. É cinza escuro, manchado…
Niko permaneceu imóvel ao lado dela, tentando procurar o suspeito também — embora soubesse que Gwen o encontraria primeiro.
— Ali! — Gwen esticou o braço, apontando para uma brecha entre uma estátua de um homem montado em um cavalo no centro da praça e uma barraca de bebidas. — Atrás daquela estátua! É o mesmo uniforme de Elies. É ele, Niko!
O olhar de Niko seguiu o dedo estendido de Gwen e travou no alvo. No meio da maré, viu um homem se movendo entre os outros. Ele estava curvado, tentando diminuir sua estatura enquanto empurrava as pessoas para o lado com ombros tensos e apressados. O uniforme de manutenção, um cinza desgastado, igual ao de Elies. Não havia mais dúvidas.
— Já vi.
Niko saltou do prédio sem hesitar. No meio da queda, ele usou a Alma, surgindo em um ponto em que havia deixado sua Alma. Ele mergulhou na multidão com um instinto de predador solitário. O choque de realidades o fez pensar por um segundo: as pessoas em sua volta riam e brindavam, enquanto ele avançava com fúria contra um criminoso.
— Nossa, que cara fedido era aquele? — reclamou uma mulher ao seu lado, abanando o nariz enquanto Niko passava por ela. — Credo, parece que saiu de um bueiro. — comentou outro rapaz logo à frente.
Elies estava mais próximo do que pensava. Depois de alguns andando apressadamente, ele viu o topo da cabeça de Elies dobrando a esquina de um beco estreito, longe da luz da avenida principal. O rato finalmente percebeu que o cerco estava fechando e cometeu o erro de olhar para trás. Seus olhos se arregalaram ao ver Niko surgindo bem ali, andando em sua direção, rápido.
Elies disparou para dentro do beco, tentando escalar uma escada de incêndio cujos primeiros degraus estavam recolhidos. Ele saltou, agarrando a grade enferrujada, grunhindo de puro pavor.
— Dessa vez, você não escapa! — gritou o albocerno, preparando sua arma.
Niko não correu até a escada. Em um movimento rápido, ele arremessou sua faca em direção ao homem. O metal girou no ar e no ar mesmo, ativou sua Alma. Niko se materializou nas costas do fugitivo enquanto ele ainda tentava escalar as barras de ferro.
Com um puxão violento no colarinho do uniforme de manutenção, Niko usou o próprio peso para arrancar o homem da grade. Os dois despencaram de uma altura de dois metros, com Elies caindo de bruços sobre o chão úmido e coberto de detritos do beco.
O impacto arrancou o ar dos pulmões do rato, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. Ele começou a se debater violentamente, arranhando o asfalto e tentando chutar as pernas de Niko enquanto soltava gritos estridentes que ecoavam nas paredes.
— Me larga! Me larga! Socorro! — ele berrava, a voz falhando pelo pânico. — Eu não fiz nada! Eu não sei quem são vocês! Me larga, seu maluco!
Gwen surgiu no beco segundos depois, vinda da rua principal. Ela correu por poucos metros, ofegante, observando Niko imobilizar o homem. O albocerno mantinha o joelho pressionado contra as costas de Elies, forçando o rosto do assassino contra as poças de água e os restos de lixo, ignorando os protestos desesperados.
A resistência de Elies era patética, mas barulhenta. Para acabar com aquilo de uma vez, Niko levou a mão ao coldre do manto. Em um movimento seco, ele sacou sua pistola e a encostou com força contra a têmpora de Elies. O som do metal batendo contra o osso craniano foi o suficiente para fazer o homem engasgar com o próprio grito.
— Cala a boca agora! — ordenou Niko.
A voz dele era alta — mas não o suficiente para chamar a atenção de estranhos da rua —, carregando uma fúria que parecia drenar todo o calor do beco. Elies congelou instantaneamente, com os olhos azuis esbugalhados fixos em um ponto invisível no chão. Ele sentia o cano da arma na sua pele, prometendo um fim rápido se ele ousasse emitir mais um som.
— Eu juro que se eu ouvir mais um pio seu que não seja uma resposta útil, eu juro que pinto esse beco com o seu sangue. — sibilou Niko, a respiração pesada, mas controlada. — Ouviu bem?
Elies soltou apenas um soluço sufocado, tremendo da cabeça aos pés, e balançou levemente com a cabeça. Gwen aproximou-se, cruzando os braços e olhando para baixo com um nojo profundo.
— Finalmente a gente pegou ele. — murmurou ela, limpando o suor da testa.
Gwen deu um passo à frente, a expressão de nojo dando lugar a uma frieza investigativa. Ela chutou para longe um pedaço de madeira que estava perto da mão de Elies, garantindo que ele não tivesse nada ao alcance.
— Vamos direto ao ponto, rato — começou Gwen, com a voz cortante. — O Dríade. Onde ele está agora?
Elies tentou engolir em seco, com o rosto amassado contra o chão úmido.
— Eu… eu não sei do que vocês estão falando! Eu só faço entregas de carga comum, eu juro por-
O som do cão da pistola sendo puxado por Niko ecoou no beco como um trovão. O cano da arma afundou um pouco mais na têmpora do homem. Elies sentiu o ferro gelado e sua voz falhou imediatamente. Ele percebeu que, se terminasse aquela mentira, não haveria uma segunda chance para contar a verdade.
— …Quer dizer! — cortou ele a própria fala, a voz subindo pelo pânico. — Em Castèl-Vell, no Galpão número 14-B, 14-B! Foi o que o Valand me passou! Eu entreguei o garoto no depósito 14-B, nos limites do Distrito Industrial!
Gwen semicerrou os olhos, seguindo o comando silencioso de Niko — um sinal de voltas com os dedos. Ela se inclinou, aproximando o rosto do de Elies.
— O 14-B, é? Engraçado, a gente ouviu dizer que esse galpão está desativado e vazio há meses. Se a gente chegar lá e for uma localização falsa para ganharem tempo, o cara ali do meu lado não vai ser tão paciente da próxima vez. — ela mentiu com naturalidade, blefando para testar a veracidade da informação. — Fala a verdade. Para onde levaram o garoto-planta?
Elies começou a hiperventilar, o pânico turvando sua visão.
— Eu juro! Eu juro que o deixei lá! Mas… mas eles não ficaram lá! — disparou ele, com as palavras tropeçando umas nas outras. — Eu vi quando o colocaram em uma carruagem logo depois que assinei o despacho. Eles disseram que o “exemplar” era instável demais para o Distrito Industrial. Levaram ele para outro lugar, mas eu juro que não sei para onde! Eu sou só o transportador, eles não me dizem o destino final!
Niko pressionou a arma com força, exigindo mais.
— Quem organizou isso?! — Gwen insistiu. — Qual é o nome do seu chefe?
— Valand! — gritou Elies. — Valand Von Adamek! Ele organiza os lotes! Ele é o intermediário. Eu pego o pagamento com ele no bar “Anzol Enferrujado”, perto das docas. Eles me entregam por um garçom que trabalha lá. Por favor, é tudo o que eu sei! Eles levaram o garoto e eu nunca mais vi ele!
Gwen semicerrou os olhos, processando o sobrenome. Von Adamek. Aquilo cheirava a nobreza decadente ou a alguém que queria parecer mais importante do que era. Provavelmente era um nome falso.
— E onde a gente encontra esse Valand sem precisar esperar pelo garçom? — ela perguntou, inclinando-se sobre ele. — Ele tem um escritório? Uma toca?
— A nossa base fica nos fundos de um depósito de carvão desativado, na Rua de l’Ametller! — respondeu o homem sem hesitar, o desespero de ter uma arma na cabeça sendo maior do que qualquer lealdade. — Ele e vários dos membros ficam lá… Por favor… eu contei tudo!
Gwen olhou para Niko e assentiu. O albocerno retirou lentamente a pistola da têmpora do homem, mas seus olhos continuavam fixos nele, como se estivessem lendo sua alma.
— A gente vai para lá agora mesmo. — murmurou Niko para Gwen. — Se o Dríade foi levado por outra carruagem, a gente precisa saber logo onde ele está.
— E ele? — Gwen gesticulou com a cabeça para Elies, que ainda soluçava no chão, trêmulo.
Niko olhou para o homem com um desprezo profundo. Ele tateou o chão do beco e encontrou uma corda de cânhamo grossa que prendia alguns caixotes velhos.
— A gente não pode levar ele, vai nos atrasar. E matá-lo agora seria piedade demais — decidiu Niko. — A gente amarra ele nos pés dessa escada de incêndio e deixa o caderno que encontramos junto dele de presente pra polícia.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.