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    Enquanto Niko e Gwen enfrentavam a podridão do apartamento 402, do outro lado da cidade, estava o Distrito Industrial, onde Brigitte e Evelyn encaravam o conjunto enorme do Galpão 14-B. A estrutura era um monstro de concreto e metal, com cerca de trinta metros de altura e mais várias dezenas de largura; dois portões em cada lado e janelas na parte superior, além de três pequenas torres: uma no centro e as outras duas nas extremidades. O ar ali fora tinha um gosto metálico de ferrugem e fumaça de óleo queimado.

    — É aqui. O “Covil do Mal”. — anunciou Brigitte, cruzando os braços e ajustando a postura militar que tanto prezava. — Tente não se… esforçar muito, Evelyn.

    Evelyn, que estava levemente tendendo para o lado com a coluna meio inclinada, soltou uma tosse baixa e ajeitou o cabelo.

    — Ei, eu tô ótima. Nem tô mais bêbada! Quer dizer… minha visão tá só um pouquinho torta. Mas eu tô bem! Não me subestime!

    — Sei, sei. Foi só um conselho de amiga. — Brigitte suspirou, olhando para o portão principal da cerca de ferro, trancado com correntes grossas e um cadeado do tamanho de um prato. — Está fechado. E provavelmente tem guardas lá dentro. Melhor ir pela lateral.

    Elas contornaram a grade alta, serpenteada por rolos agressivos de arame farpado. Mesmo assim, estavam fora do alcance dos curiosos da rua, escondidas pela sombra dos muros dos galpões vizinhos.

    — Então… Vamos entrar? Quer ir primeiro? — disse a luminar, esperando que Evelyn desse o primeiro passo, precisava ter certeza que a bêbada não cairia para o lado e morresse batendo a cabeça no concreto, o que seria triste e uma burocracia terrível para explicar depois.

    — Eu vou primeiro só porquê eu sou melhor que você em tudo, tá bem?

    Evelyn estendeu a mão, concentrando-se com um esforço visível. O ar ao redor dela esfriou subitamente, e com um som de cristal quebrando, uma escada de gelo translúcida e sólida surgiu de sua mão, descendo até o solo e se elevando até o topo da grade, ultrapassando o arame farpado. Pequenos flocos de neve artificial flutuaram por um instante antes de derreterem no asfalto.

    — Um caminho de cristal brilhante. Não é bonito? — terminou Evelyn, zombando de Brigitte, apoiando o braço no objeto como um gancho.

    Em seguida, escalou a grade pelo gelo, ainda tonta, balançando. Quando chegou à última barra, deu um pulo para o outro lado, quase escorregando ao firmar os pés no chão, tendo que se apoiar com o braço direito para não cair totalmente. Dentro da área, Evelyn se levantou, olhou para trás e deu um sorriso presunçoso em direção a Brigitte. A luminar revirou os olhos pela provocação, decidindo por também aumentar a aposta.

    Em vez de simplesmente subir nas barras de gelo — como Evelyn fez —, ela ativou sua Bênção. Faíscas roxas surgiram em seus calcanhares e sua velocidade aumentou drasticamente. Ela disparou para escada, usando-a de impulso — apenas usando a mão boa —, saltou sobre o arame farpado em um arco perfeito e, no ápice do pulo, girou o corpo, ficando de ponta-cabeça no ar. Com um movimento acrobático, aterrissou do outro lado em silêncio absoluto, agachada em uma pose heróica — bem mais bonita que a de Evelyn —, enquanto a eletricidade ainda percorria seu uniforme. No fim, deu um olhar de relance para a elfa e abriu um grande sorriso fechado.

    — Exibida… — sussurrou Evelyn, enquanto Brigitte já andava em direção ao galpão.

    Sem perder mais tempo, as duas subiram uma escadaria metálica externa, cujos degraus rangiam com gemidos agudos de metal velho sob o peso de suas botas, até alcançarem o telhado plano do galpão. Ali, uma série de painéis de vidro permitia uma visão privilegiada do que acontecia lá embaixo.

    Elas se aproximaram e limparam uma fresta da poeira acumulada. O que viram não era um armazém vazio, mas um ecossistema dinâmico. O interior do galpão havia sido transformado em um comércio clandestino. Dezenas de tendas de lona colorida e balcões improvisados eram exibidos no interior. Pessoas com mantos escuros, cobrindo todo o corpo, circulavam entre as lojas de armas contrabandeadas, caixas de especiarias ilegais e mercadorias com números de série raspados. O lugar exalava uma energia perigosa e secreta.

    — Uau… — Evelyn colou o rosto no vidro, com as pupilas dilatando. — Parece o festival, só que com muito mais facas e gente carrancuda. É um tipo de mercado negro então.

    — É o que parece. — Brigitte estreitou os olhos, mapeando as saídas. — Se o dríade passou por aqui, foi como mercadoria, ele pode até ainda estar aqui. Como a gente entra sem sermos recebidas com um tiro de escopeta?

    — Que tal aquela escotilha ali? — Evelyn apontou para uma tampa de ventilação entreaberta a poucos metros.

    Elas deslizaram para dentro. O ar lá dentro era mais pesado, carregado com o cheiro de ópio, bebidas, tabaco e o zumbido constante de centenas de conversas entrecruzadas. Era uma cacofonia de vozes negociando preços de mercadorias que infringiram, pelo menos, uma lei.

    Caminharam com cuidado pelas passarelas superiores de metal, se movendo como sombras acima das vigas de sustentação. De lá, desceram por uma escada de serviço interna, degrau por degrau, até que as solas de suas botas finalmente tocaram o chão do térreo, escondidas atrás de uma pilha de caixotes de madeira.

    — Certo. — Brigitte sussurrou, verificando se sua pistola estava carregada e se o choque estava pronto. — Agora, se comporta. Vamos fingir que pertencemos a esse pessoal.

    — Para de me tratar como criança! — falou ela, um pouco mais alto que o necessário. — Eu sou sua veterana aqui, sua empregadora. Eu vou descobrir sozinha sobre o “bríade”!

    Evelyn não esperou pelo plano ou por uma estratégia de infiltração. Com um impulso de coragem alimentado pelo álcool e pela teimosia, ela saiu das sombras dos caixotes e mergulhou no fluxo de criminosos e mercadores.

    — Ei, Evelyn! — sussurrou alto, estendendo a mão para frente. — Não é possível uma coisa dessas… — terminou ela, dando um tapa na própria cara.

    Brigitte soltou um rosnado de pura frustração e, sem tempo para lamentar a falta de juízo da companheira, disparou logo atrás dela.

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