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    Ela alcançou Evelyn perto de uma banca que exibia grandes adagas afiadas e a agarrou pelo braço, puxando-a para o canto de uma pilastra de sustentação.

    — Você perdeu o juízo?! — falou baixo Brigitte. — Isso aqui é um lugar ilegal, Evelyn! A gente nem tem uma estratégia, não sabemos quem manda, não sabemos as regras…

    — Relaaaaaxa. Eu tenho uma estratégia, Bri! — Evelyn soluçou, ajeitando a roupa.

    Ela deu um sorriso de lado, sentindo-se a mente mais brilhante sob os pés de Luminara. Levantou o indicador para cima, e disse seu plano brilhante:

    — É simples: a gente pergunta sobre os escravos para os vendedores. Eles vendem coisa errada, não vendem? — a elfa apontou para uma das barracas, balançando levemente enquanto tentava focar a visão. — Aquele ali, por exemplo, tá vendendo… — ela estreitou os olhos, tentando decifrar os caracteres na placa de madeira pendurada, afinal, não sabia ler aquele idioma.

    — Bebidas alcoólicas destiladas e sem selo. — completou Brigitte, lendo com facilidade.

    — Isso mesmo! Bebidas alcoólicas ilegais! — Evelyn estalou os dedos, quase perdendo o equilíbrio no processo. — Então eles sabem quem vende “coisa errada” que a gente quer e vão nos ajudar a encontrar onde ela está. É a lei da… da oferta e da… daquelas coisas de mercado lá. A gente pergunta, eles respondem, todo mundo sai ganhando.

    Brigitte parou por um instante. Ela abriu a boca para contrariar, mas as palavras travaram. Quer dizer, em um ecossistema criminoso, a informação circula de forma livre. Se o Dríade foi negociado ali, os mercadores seriam os primeiros a saber, ou pelo menos a ouvir os boatos. Fazia sentido. 

    — É, realmente. — Brigitte suspirou, dando de ombros em seguida. — Faz sentido perguntar de mercadorias ilegais para vendedores ilegais. Só que eu falo. Você mal tá conseguindo falar a sua própria língua agora, imagina luminárico.

    — Mas eu sei me comunicar em linguagem de sinais! — retrucou Evelyn, ofendida, fazendo um gesto aleatório com as mãos que parecia uma mistura de “paz e amor” com um sinal de artes marciais e um pedido de socorro.

    — Uhum, sei. — concluiu Brigitte com a paciência por um fio.

    Ela segurou a mão da elfa com firmeza e começou a puxá-la pelo corredor central, como uma mãe apressada levando uma criança birrenta para o seu compromisso.

    — Vamos logo fazer essa missão. Quanto mais rápido melhor.

    — É sério, Bri! Eles me entendem com os sinais! É uma linguagem universal! O pessoal da estação me entendeeeeeu! — insistiu Evelyn, quase tropeçando enquanto era arrastada para a primeira tenda.

    Após segundos andando entre a multidão, elas pararam diante de uma barraca que exibia uma coleção de binóculos quebrados, telégrafos militares e algumas armas de fogo antigas — provavelmente da época da guerra de secessão. O mercador era um homem com o rosto achatado, de bigode morsa, olhou para as duas por cima de um charuto apagado na bancada.

    Brigitte pigarreou, adotando sua melhor voz de “cliente perigosa”.

    — Com licença senhor, estamos procurando informações sobre um lote específico de “mercadoria orgânica”. — começou ela, inclinando-se para o balcão e estreitando os olhos. — sabe o que significa não é?

    O homem retirou o charuto apagado da boca, observando Brigitte com uma mistura de tédio e suspeita.

    — …Vocês querem comida? — respondeu o homem, com o olhar cansado e visivelmente confuso. — Moça, se você quer alface ou tomate, tem uma feira a três quarteirões daqui. Se quer algo “daqui” é só ir olhando em volta. Aqui eu só vendo essas bugigangas.

    — Não se faça de desentendido. — sibilou Brigitte, batendo com os nós dos dedos no balcão. — Sabe muito bem do que eu estou falando. Estamos falando de… sapientes. De gente que vem com etiquetas de preço.

    O homem soltou um suspiro longo, fazendo as pontas do bigode morsa vibrarem. Ele retirou o charuto apagado da boca e olhou para Brigitte como se ela fosse uma criança tentando comprar cerveja usando um bigode desenhado.

    — Escravos? — O homem disse a palavra lentamente, saboreando o absurdo. — Por que todo mundo que quer parecer perigoso usa esse tom de voz de quem está lendo um romance de espionagem barato? Vocês são da polícia? Se forem, a inteligência do país caiu muito de nível.

    Brigitte sentiu o rosto esquentar, a pose de “cliente perigosa” desmoronando diante do tédio absoluto do mercador.

    — Não somos da polícia! Estamos com dinheiro e queremos saber quem opera o estoque de sapientes neste galpão, só isso. Tivemos informações de que aqui tinha tráfico de pessoas e queríamos uma, só isso! Não é Ev-, companheira?

    Evelyn sentiu o olhar afiado e arregalado de Brigitte em seu rosto, falando palavras que ela não sabia. Ficou nervosa por dois segundos e, como resposta padrão, ergueu os polegares para cima com a mão fechada. A luminar achou aquilo convincente.

    O vendedor nem se deu ao trabalho de ficar aflito. Ele apenas se inclinou para trás, cruzando os braços grandes sobre o peito. A expressão dele era a de um professor exausto lidando com alunos que não sabem a tabuada.

    — Olhem em volta, garotas. — ele gesticulou vagamente para os binóculos quebrados e os telégrafos. — Aqui a gente vende muamba, pirataria e, se eu estiver de bom humor, uma ou outra arma que explode na mão do atirador. Carne sapiente dá muito trabalho e tem pouco retorno pra pessoas pobres. Gente precisa comer, gente grita, gente feder. Ninguém aqui tem paciência para esse tipo de logística.

    Evelyn, que não entendia uma única sílaba do que o homem resmungava, apenas observava os gestos dele com uma expressão de profunda análise filosófica. Ela se inclinou para Brigitte e sussurrou, alto o suficiente para o mercador ouvir: — Ele tá confessando, Bri? Ele disse onde está o díade?

    — Fica quieta, Evelyn. — rebateu Brigitte, baixo, mantendo os olhos fixos no homem.

    Ela sabia que falar do Dríade abertamente era o mesmo que colocar um alvo nas costas, então tentou contornar.

    — Não somos “gente pobre”, senhor. E estamos procurando por algo que não grita nem fede. Uma mercadoria de luxo que passou por aqui recentemente. Um exemplar raro. Diretamente das florestas.

    O vendedor retirou o charuto da boca e soltou uma lufada de fumaça cinzenta. Ele não pareceu impressionado com o termo “mercadoria de luxo”. Pelo contrário, sua paciência parecia ter evaporado.

    — Escute aqui, mocinha. Eu já disse que não lido com isso. Se vocês querem flores ou escravos, tentem a sorte em outro lugar na capital ou em algum bordel de quinta categoria. Agora, saiam da frente da minha barraca. Vocês estão ocupando espaço e afastando os clientes que realmente têm dinheiro para gastar em sucata útil.

    — Mas a gente tem… — Brigitte tentou insistir, mas foi cortada por um gesto brusco de mão.

    — Agora! Antes que eu chame a segurança para ensinar bons modos a vocês duas. — o homem voltou a ignorá-las, pegando um dos telégrafo.

    Brigitte bufou, sentindo o sangue subir ao rosto. Ela deu meia-volta, puxando Evelyn pelo braço. Juntas, se afastaram do local.

    — O que ele disse? — perguntou a elfa, tropeçando em um calço de madeira. — Ele nos deu um mapa? Ele parecia bravo. Deve ser um mapa difícil.

    — Ele não deu nada, Evelyn. Só foi um grosso. — resmungou Brigitte, varrendo o galpão com o olhar. — Hora de ir para o próximo vendedor.

    Em seguida, as duas tentaram a mesma abordagem cautelosa com um contrabandista de especiarias, um químico com drogas experimentais e um vendedor de relógios de pulso em que as peças pareciam soltas. A cada parada, a frustração de Brigitte aumentava, enquanto Evelyn continuava a fazer sinais aleatórios com as mãos para os mercadores, convencida de que estava “se infiltrando” perfeitamente.

    No fim, aqueles quinze minutos não serviram de nada. Não houve nenhum progresso. Finalmente, as duas pararam perto de uma pilha de tralhas para reorganizar o plano — que, tecnicamente, elas não tiveram para início de conversa.

    — Certo, a fase “gentil” acabou. — resmungou Brigitte, limpando uma gota de suor da testa. — Ninguém aqui vai abrir o bico por educação. Estão todos nos tratando como se fôssemos turistas perdidas.

    Evelyn, que estava ocupada tentando equilibrar-se em um pé só enquanto fazia um sinal de “V” com os dedos para um passante, inclinou-se para a amiga. — Bri, meu plano de sinais foi impecável. O problema é o sotaque deles. Eles têm sotaque nas mãos e não entendo.

    — Não existe sotaque nas mãos, Evelyn! — Brigitte respirou fundo para não perder a paciência. — Esquece os sinais. Vamos mudar a abordagem. Se eles não falam por dinheiro ou curiosidade, vão falar por medo. Vamos escolher os vendedores mais antigos, os mais experientes. Eles estão aqui há tempo suficiente para saberem quem manda e quem passa. Vamos encurralar um deles e… digamos que eu vou fazer uma “demonstração” da minha Alma.

    — Ah, chantagem! — Evelyn abriu um sorriso radiante. — Eu adoro chantagem. É como um favor, só que com mais entusiasmo da outra parte. Eu posso congelar os pés deles no chão para eles não fugirem enquanto você dá o choque?

    — Pode, Evelyn. Pode sim. Só tente não congelar os meus pés junto. — Brigitte começou a se virar, pronta para caçar o próximo alvo com uma postura muito mais agressiva.

    No entanto, antes que pudesse dar o primeiro passo para fora da sombra das tralhas, Brigitte sentiu um peso morto descendo sobre si. Uma mão enorme, protegida por uma luva de couro reforçada, apertou seu ombro com uma força desnecessária.

    — Ei. — surgiu a voz atrás da garota, grave e rouca.

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