Capítulo 174 - O Galpão III
Brigitte sentiu o peso da mão no ombro e, por um instante, as conversas do mercado pareceu se dissipar, restando apenas o som da própria respiração. Ela olhou para trás na mesma hora, havia três homens enormes — cerca de 1,90m cada —, vestindo coletes táticos, fechando as duas em um cerco, entre eles e a parede. O do centro — um homem ruivo e de olhos azuis — era o que estava agarrando seu ombro, forte. O segurança da esquerda era um careca de ombros largos e da direita um jovem de cabelos castanhos bagunçados.
— Boa tarde, senhoritas. — disse o homem atrás de Brigitte, com a voz saindo como um rosnado por baixo da barba rala. — Estivemos observando vocês e as duas estão fazendo perguntas demais e não estão abrindo a carteira. Sem contar que nunca vi vocês aqui.
Ele lançou um olhar para os companheiros, que assentiram de leve. Em seguida apertou o ombro de Brigitte com ainda mais força, voltando o olhar penetrante para ela.
— Só para que fique claro: os mercadores daqui não gostam de curiosos. Eles ficam nervosos com isso. E quando eles ficam nervosos, o lucro cai.
Brigitte inclinou a cabeça levemente, ainda sem se virar por completo.
— Sinto muito por atrapalhar o fluxo econômico do seu lixão, mas estamos só de passagem. Se tirar a mão de mim agora, posso até esquecer que você foi mal-educado.
O segurança soltou uma risada seca e curta, enquanto o aperto no ombro de Brigitte começava a se tornar doloroso.
— Desculpa, mas não vai dar, moça. Vocês vão acompanhar a gente até o escritório dos fundos. Vamos ter uma conversinha sobre quem mandou vocês aqui e o que tanto procuram.
— Vou ter que recusar o convite. — respondeu a luminar, abrindo um sorriso curto e desafiador, com os olhos fixos nos dele sem vacilar por um segundo.
— O que que vocês dois estão falando, hein? — interveio Evelyn, balançando-se sobre os calcanhares e apontando para o segurança com uma curiosidade genuína e meio tonta. — É sobre o “bríade”? Ele confessou, Bri?
— Fica quieta, Evelyn! — Brigitte sussurrou, sentindo o clima pesar instantaneamente.
O segurança semicerrou os olhos, alternando o olhar entre a calma de Brigitte e a confusão da elfa.
— Ela é uma estrangeira? — ele soltou um rosnado, o tom de voz subindo uma oitava. — Agora mesmo que vocês duas vêm com a gente. A sua amiguinha acabou de piorar a situação de vocês.
— Eu já disse. — Brigitte repetiu, a voz agora carregada de uma autoridade perigosa. — Nós não vamos a lugar nenhum com você.
— Isso não foi um pedido — cortou o líder, soltando o ombro de Brigitte apenas para levar a mão ao coldre na cintura, destravando a presilha de couro com um click metálico. — Me siga. Agora.
Brigitte não recuou. Em vez disso, ela lançou um grande sorriso, quase predatório, e inclinou a cabeça levemente. Rapidamente, pensou na melhor frase de efeito para dizer no momento.
— Sabe o que é engraçado? Eu ia dizer a mesma coisa sobre você se render. Mas, não teria graça nenhuma isso.
O homem rosnou de raiva, os tendões do pescoço saltando para fora. No milésimo de segundo em que seus dedos envolveram a coronha da arma para sacá-la, Brigitte foi mais rápida.
Ela ativou sua Alma. Faíscas roxas estalaram em seus calcanhares como chicotes elétricos, subindo até o peito e se espalhando para todo o corpo. Antes que o segurança pudesse completar o movimento de saque, ela apoiou a mão no chão e girou o corpo com uma agilidade sobre-humana. Deu uma meia-lua de compasso perfeita que cortou o ar, atingindo em cheio a lateral da mandíbula do homem.
O impacto, potencializado pela descarga elétrica e pela Bênção, soou alto no galpão. O segurança foi arremessado para o lado, caindo em cima de uma tenda, desmontando-a completamente. Os outros dois guardas olharam para o companheiro caído, totalmente atônitos, processando o fato de que uma garota ter acabado de nocautear um homem de quase cem quilos em um piscar de olhos.
— O-o que?! Que porra é essa?! — gritou o mais jovem, à direita, com os olhos arregalados.
O pânico foi substituído pelo instinto. Em seguida, os dois levaram as mãos às cinturas, sacando suas pistolas em um movimento desesperado. Em um movimento fluido, ela levou a mão às costas e sacou sua lança. Brigitte não deu tempo para os dois mirarem.
Antes que o primeiro guarda pudesse posicionar o dedo no gatilho, Brigitte já estava ao seu lado. Ela usou a haste metálica como um bastão. Com um golpe lateral seco, ela atingiu o queixo do jovem e seguiu com um giro lateral que bateu o bastão diretamente na têmpora do segundo guarda. O som de impacto foi seguido pelo baque de dois corpos atingindo o chão, desacordados antes mesmo de entenderem o que os havia atingido.
Brigitte girou a lança no ar com maestria e a apoiou sobre o ombro com uma calma irritante. Ela olhou para os três homens derrotados aos seus pés e soltou um suspiro de satisfação.
— É, isso foi mais divertido do que a outra opção. — comentou ela, com um sorriso de canto.
— Nada mal, hein. — Evelyn comentou ao fundo, cambaleando enquanto se aproximava da colega.
O clima no galpão mudou instantaneamente. O burburinho das negociações se tornou silencioso, apenas havendo o som de passos rápidos no chão e mercadores fechando suas bancas às pressas.
Dois seguranças armados com pistolas surgiram na passarela superior, se apoiando na grade de metal para mirar nas garotas, enquanto outros dois avançavam pelo chão, sacando também duas armas de fogo.
— Ali em cima, Evelyn! — avisou Brigitte, preparando-se para arremessar a lança.
— Eu já vi! Deixa comigo! — Evelyn rebateu, a voz carregada de uma teimosia aguda.
A elfa bateu as mãos, esticando o pulso para frente, e uma rajada de estacas de gelo disparou em direção à passarela. O ataque foi potente, mas a mira turva pelo álcool fez as estacas atingirem as vigas de sustentação, destruindo-as. Os dois guardas da passarela despencaram em meio aos estilhaços de madeira e metal, atingindo o solo com baques surdos. A cortina de fumaça gelada e poeira subiu.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.