Capítulo 175 - O Galpão IV
A cortina de fumaça gelada e poeira subiu, ocultando os corpos dos guardas que gemiam entre os destroços da passarela. Evelyn limpou o nariz com as costas da mão, ostentando um sorriso vitorioso e desafiador para Brigitte.
— Viu? Eu disse que dava conta! — exclamou a elfa, recuperando o equilíbrio com um esforço visível. — Dois coelhos com uma… uma rajada só!
Brigitte não teve tempo de parabenizar. Os outros dois guardas, que avançavam pelo térreo, aproveitaram a distração de Evelyn para investir contra as duas. Ambos empunhavam armas de fogo; um avançava por entre as barracas enquanto o outro tentava contornar por trás de uma pilha de barris.
— Menos comemoração e mais combate! — Brigitte disparou, girando a lança para bloquear o golpe de porrete do primeiro agressor.
O metal da arma ressoou alto ao repelir o ataque.
Evelyn, querendo manter o ritmo e provar que era a estrela da missão, conjurou rapidamente uma placa de gelo lisa sob os pés do segundo guarda que tentava flanquear Brigitte. O homem escorregou e caiu de costas, batendo com força a cabeça, mas o gelo descontrolado de Evelyn, se expandiu rápido demais pelo chão úmido do galpão.
Brigitte, que estava prestes a finalizar seu oponente com um chute lateral, sentiu os pés ficarem escorregadios e as botas perderem a tração na superfície congelada. Ela deslizou involuntariamente, quase abrindo um espacate no meio da luta, teve que fincar a ponta da lança no concreto para não cair de forma humilhante.
— Evelyn! O gelo no chão está me atrapalhando! — gritou Brigitte, recuperando a postura enquanto descarregava fortes choques elétricos na placa de gelo para estilhaçá-la.
— Eu estou ajudando, sua mal-agradecida! — Evelyn retrucou, fazendo uma careta que a luminar não viu.
Ela se virou para enfrentar mais três seguranças que surgiam do corredor lateral, sacando também três armas de fogo de pequeno porte.
— Eu cuido desses aqui, vai cuidar dos seus! — completou ela.
A elfa tentou criar uma barreira de gelo para se proteger dos novos guardas, mas a tontura do álcool finalmente cobrou o preço. Suas mãos tremeram e o gelo brotou de forma irregular, criando apenas pequenos montes de neve inofensivos.
Um dos guardas, percebendo a vulnerabilidade, mirou sua pistola diretamente na cabeça da elfa, que ainda tentava entender por que sua habilidade estava falhando.
— Evelyn, cuidado! — o grito de Brigitte veio acompanhado de uma investida sônica.
A luminar ativou sua Bênção ao máximo que podia, tornando-se um borrão roxo que atravessou o galpão em um milésimo de segundo, rasgando o concreto, que, na visão dela, parecia uma gelatina cinza. Ela colidiu contra Evelyn com o ombro, jogando as duas para trás de um balcão de madeira pesada no exato momento em que o tiro ecoou, perfurando o ar onde a cabeça de Evelyn estava um instante atrás.
— Evelyn, presta atenção na luta, não bobeia! — Brigitte bufou, com as faíscas de sua Alma estalando agressivamente enquanto ela pressionava Evelyn contra o chão para mantê-la protegida.
Foi aí que a ficha caiu. Era inútil dizer para Evelyn tomar cuidado ou exigir habilidade maior dela, a garota estava bêbada, não passaria de um peso morto no combate. Se continuasse lutando, não demoraria muito para que outro tiro viesse em sua direção, se não fosse rápida o suficiente, a amiga morreria.
— Fica aqui e não se mexe!
— Eu não pedi… — Evelyn começou, mas a voz falhou.
O susto do tiro tinha dissipado um pouco da névoa alcoólica, revelando o perigo real em que estava. Ainda assim, a inveja de ver Brigitte tão perfeita em combate ardeu em seu peito.
— Eu ia congelar a bala, Brigitte! Eu tinha um plano! Tá ouvindo bem?!
Brigitte ignorou o protesto. Ela saltou sobre o balcão, girou a lança e avançou contra os quatro guardas restantes em um golpe frenético de choques e golpes de bastão que mal podiam ser vistos a olho nu. Em menos de dez segundos, o silêncio retornou ao Galpão 14-B, quebrado apenas pelo som de faíscas zumbindo e o choro de mercadores e clientes escondidos.
Brigitte guardou a lança nas costas e caminhou até Evelyn, que ainda estava caída, limpando a poeira do rosto com uma expressão de pura derrota disfarçada de raiva.
— Você está bem? — Brigitte perguntou, estendendo a mão para ajudá-la.
Evelyn olhou para a mão de Brigitte e depois para o rosto da parceira, que nem sequer parecia suar. O orgulho da elfa foi ferido com mais força do que qualquer queda. Ela deu um tapa na mão de Brigitte, recusando o apoio, e se levantou sozinha, cambaleando e bufando de indignação.
— Tô ótima. — Evelyn resmungou, limpando a blusa com gestos rudes e evitando o contato visual. — Eu não precisava que você me empurrasse daquele jeito. Eu dou conta das minhas lutas.
Brigitte suspirou, cruzando os braços enquanto observava a parceira caminhar de forma instável em direção ao único guarda que ainda gemia no chão.
— Claro que dá, Evelyn. Da próxima vez, eu aviso a bala para esperar você terminar de se equilibrar.
Evelyn ignorou o sarcasmo, concentrando toda a sua indignação em direção ao homem que gemia caído entre os destroços de uma barraca de tecidos.
Este era o segurança que havia apontado a arma para ela anteriormente. Seu colete de couro estava chamuscado e ele tentava, sem sucesso, rastejar para longe, com a mandíbula inchada pelo chute inicial de Brigitte. Ele parecia muito menos imponente agora que estava no chão, fraco e desarmado.
— Bri, traz um balde. — ordenou Evelyn, apontando para um recipiente de metal que servia para refrescar bebidas em uma barraca próxima. — Ele precisa de um “banho de realidade”.
Brigitte não discutiu. Ela pegou o balde, encheu-o em uma torneira de serviço ali perto e o entregou à elfa. Evelyn, com um esforço tremendo para não tombar para frente, virou a água gélida diretamente no rosto do guarda. O homem deu um solavanco, engasgando e tossindo, com os olhos arregalados de pavor.
— Agora. — começou Brigitte, assumindo o papel de interrogadora enquanto Evelyn ficava ao lado, tentando parecer intimidadora enquanto segurava o balde vazio. — Vamos pular as apresentações. Este galpão serve de ponto de encontro para tráfico de sapientes, não serve?
O guarda cuspiu um pouco de água misturada com sangue, balançando a cabeça em sinal de negação.
— Eu… eu não sei de nada! Eu só cuido da segurança contra furtos! Eu juro!
Brigitte não disse uma palavra. Ela apenas estendeu a mão direita e deixou com que pequenas faíscas roxas saltassem entre seus dedos, estalando com um som agudo de eletricidade estática. O reflexo da luz nos olhos de Brigitte era puramente impiedoso, destoante de sua personalidade de sempre.
— O balde está vazio, mas o chão está bem molhado. — murmurou Brigitte, inclinando-se para perto do segurança. — A água conduz eletricidade maravilhosamente bem. Quer descobrir o quão rápido o seu coração para de bater?
O homem empalideceu instantaneamente, sentindo o zumbido da Alma de Brigitte vibrando no ar úmido.
— Espera! Espera! — gritou ele, encolhendo-se. — O-o que você disse é verdade! Às vezes… mercadorias vivas passam por aqui no turno da noite. Mas não são os nossos chefes que organizam! É o GV!
— GV? — Brigitte estreitou os olhos.
— Isso mesmo! O Grupo Valand! — completou ele. — Eles trouxeram um exemplar ontem. Eu não lembro o nome do entregador. Mas a carga era um garoto de pele verde. Um dríade. Ele foi descarregado aqui, mas não ficou nem uma hora. Foi uma entrega rápida.
— Para onde levaram ele? — perguntou Brigitte, subindo o tom da voz e estalando ainda mais alto os choques na mão.
— Eu não sei o endereço! Eu juro pela minha vida! — o homem soluçou quando Brigitte aproximou a mão faiscante do chão molhado. — Mas eu sei onde fica a base deles! M-mais ou menos. Tenho uma breve memória. Lembro de ter escutado algo sobre a Zona Oeste da capital! Um depósito desativado, alguma coisa assim. Eles operam por ali! Por favor, é tudo o que eu sei!
Brigitte manteve a pressão por mais alguns segundos, lendo o desespero no rosto do homem, até se convencer de que ele não tinha mais nada a oferecer. Ela desativou sua Alma e se levantou, limpando as mãos no uniforme.
— Um depósito desativado na Zona Oeste. — Brigitte repetiu para si mesma, memorizando a informação.
Evelyn, que acompanhava a cena com uma satisfação emburrada, jogou o balde de lado com um estrondo metálico.
— Viu? Meu plano do balde funcionou. — resmungou a elfa, ainda sem olhar para Brigitte. — Agora vamos sair daqui antes que o resto desse mercado decida que lutar aqui é uma boa ideia.
Brigitte olhou para a parceira e soltou um suspiro curto, metade irritada, metade aliviada.
— Vamos. A gente precisa descobrir onde fica esse lugar. Ah, inclusive… — Brigitte virou-se para trás, dando um olhar afiado para o homem. — Se for mentira, a gente volta. Tá ouvindo bem?
— Sim, senhora! — respondeu o homem, voltando a arregalar os olhos e temer. — Eu garanto que não é mentira!

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