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    Eles entraram. O cheiro veio primeiro. Ferro oxidado, suor antigo e algo ácido preso nas paredes. A luz do corredor atravessou a fresta da porta e revelou barras metálicas alinhadas contra as paredes. Um quarto enorme. Celas improvisadas. Dezenas delas. Algumas grandes o suficiente para duas pessoas, outras pequenas demais até para isso. Gaiolas empilhadas no canto, correntes presas ao chão, cadeados pendendo abertos. Todas vazias.

    Niko andou alguns passos e parou no meio do cômodo. As marcas estavam lá. Riscos nas paredes. Arranhões nas grades. Manchas escuras de sangue no chão, antigas demais para identificar de quem seria, mas recentes o suficiente para não terem sido esquecidas.

    — Então… — a voz de Gwen saiu mais baixa do que o normal — sua teoria tava aparentemente certa.

    Ela caminhou até uma das celas e passou os dedos pelas barras, fazendo um som metálico ecoar pelo quarto silencioso.

    — Mas não tem ninguém aqui.

    Niko não respondeu. Nem mesmo quis responder. O olhar dele percorria o lugar devagar, como se esperasse que alguém surgisse das sombras. Como se ainda houvesse tempo de mudança — mas, no fundo, sabia que não havia.

    Tarde demais…

    O pensamento veio seco, incômodo, raivoso, odioso, com vontade de quebrar os dentes só de morder forte a boca. Ele deveria ter sido mais rápido. Não só naquele momento — antes. Antes de Daurlúcia. Antes de Kael. Antes de ter fugido como um covarde quando aquele dríade precisava de sua ajuda.

    Se tivesse agido naquele momento, nem precisaria estar ali. Nem precisaria ter exposto a rede criminal da Wolfranein para a polícia de Reiken. Muito menos ter pego o Elies — que encontraria a justiça logo, logo. E principalmente, ter conhecido Gwendolyn, se divertido no pôquer…

    Ao pensar em tudo que fez, ele percebeu que havia feito coisas boas afinal. Ele pôde não ter alcançado o dríade, mas sua jornada não foi totalmente inútil. Talvez ele realmente não fosse que nem eles — ou que nem o garoto acreditava que eles eram… Ou talvez, fosse mesmo, e estivesse mentindo para si mesmo.

    Gwen percebeu o silêncio pesado na sala, no olhar do albocerno.

    — Ei. — chamou, firme. — Foco.

    O chamado da garota foi o suficiente para que ele voltasse à realidade. Niko não sabia o desfecho dessa história, talvez ainda valesse a pena lutar — mesmo que só um pouco mais.

    No fundo da sala, algo diferente chamava atenção da dupla. Era uma moldura com papéis, presa à parede com pregos. Papéis sobrepostos com fita, rabiscos, escritas e setas. Niko se aproximou.

    Era outra planta do prédio. Mais detalhada do que a anterior. Algumas áreas riscadas com carvão mais escuro, outras circuladas. No canto inferior direito, um retângulo isolado. Gwen retirou o papel e aproximou-se da luz do corredor.

    — Aqui — disse.

    Ela tocou exatamente o ponto que havia desenhado na caixa minutos antes.

    — “Escritório Administrativo”, ou seja, a sala do Valand.

    Niko soltou um ar curto pelo nariz. Não estava mais impressionado. Toda jogada que a garota fazia era certeira. Até já se acostumou com isso.

    — Exatamente onde você falou.

    — É uma base funcional. — respondeu ela, dando de ombros. — O centro de comando nunca muda de lugar.

    Ela memorizou os últimos detalhes, dobrou o papel e colocou sobre o chão.

    — Vamos. Se eles moveram os prisioneiros, não foi por caridade.

    Saíram da sala de celas e voltaram ao corredor extenso. Ali o espaço era mais aberto, o chão mais limpo, as paredes menos manchadas, e o silêncio parecia menor, um grande contraste da última sala. Eles avançaram lado a lado até a última esquina antes do setor marcado no mapa.

    Gwen ergueu a mão, pedindo pausa, mais atenta que nunca. Niko parou no mesmo instante. Então, um passo ecoou do outro lado. Somente puderam ver um guarda de cabelo ralo se virando na esquina sem pressa, ajustando o coldre da pistola. Ele ainda estava de lado, olhando para baixo quando os dois o perceberam.

    O tempo pareceu congelar. Eles estavam a segundos de serem expostos ao grupo criminoso. As íris de Niko contraíram e ele reagiu primeiro. Lançou a faca para cima, cravando-a em uma viga metálica acima do corredor, encostou no ombro de Gwen. Com a Alma, eles surgiram entre as vigas, equilibrando-se com dificuldade na estrutura estreita de metal, fora da linha direta de visão.

    Abaixo deles, o guarda continuou andando, como se nada demais tivesse acabado de acontecer. No meio do caminho, ele parou. Bocejou alto. E, por fim, coçou o queixo. O criminoso estava exatamente sob a viga onde estavam.

    O que você tá fazendo, seu maldito?”, pensou Niko, franzindo a testa. “Continua andando!

    O coração de Niko batia tão forte que ele tinha certeza de que o homem podia ouvir. Enquanto isso, Gwen mantinha a respiração presa. Os dois estavam apenas esperando que o homem continuasse os passos, suplicando para que ele não os descobrisse.

    Foi então que algo se soltou de lá de cima. Um pequeno retângulo claro escorregou lentamente pela manga da luva de Gwen. Primeiro roçou no tecido, depois deslizou pela ponta dos dedos dela sem que conseguisse segurá-lo a tempo. Caiu girando no ar por um segundo que pareceu longo demais. E tocou o chão com um pequeno estalo.

    — Huh? — sussurrou baixo Gwen, vendo o objeto cair para o chão.

    Foi aí que lembrou: assim que a caçada contra Elies havia se encerrado, Gwen havia trocado o papel da marca de Niko de lugar. Antes, ficava no bolso da calça dela — prático e discreto. Mas quando Niko a agarrou pelo ombro para usar a Alma — forte demais e perto demais — ela percebeu que aquilo era um risco. Se ele precisasse puxá-la outra vez em emergência, poderia tocar em algo mais íntimo, mesmo sem intenção. Então mudou o papel de posição, prendendo-o por dentro da luva, onde ele iria tocar em um lugar mais normal quando fosse usar sua habilidade. Parecia seguro… até agora.

    O guarda, ainda estático no chão, ouviu o pequeno estalo ecoando no corredor vazio. Seus olhos desceram até o chão, fixando-se no papel como se aquilo fosse um inseto fora do lugar. Ele inclinou a cabeça, curioso. Agachou-se lentamente, sem pressa, como alguém que ainda não entende o que está acontecendo.

    Niko sentiu o ar sumir dos pulmões. O homem pegou o papel entre dois dedos e abriu com desinteresse inicial. Virou de um lado. Do outro. Aproximou um pouco mais do rosto. A marca da Alma estava bem ali, óbvia para qualquer um. A expressão do guarda mudou para uma mistura de preocupação e medo, e então ergueu o olhar. Primeiro para a viga e depois para Niko e Gwen.

    — EI, VOC-!

    Enquanto ele pegava a pistola do coldre, Niko puxou a Alma através do papel. O mundo se dobrou sobre si mesmo e ele surgiu ao lado do homem antes que a palavra terminasse. A mão livre agarrou o bastão da foice, girou o corpo com o peso do movimento e acertou a lateral do crânio do guarda com um golpe seco e preciso. O impacto foi suficiente e o homem caiu pesado contra o chão.

    Um segundo guarda estava posicionado na extremidade, fora do campo de visão deles, já com a arma levantada. Um disparo veio do fundo do corredor, explosivo, cortando o ar como um rasgo. O tiro atingiu o braço direito de Niko. A dor foi imediata, ardente, como se um ferro em brasa tivesse atravessado carne e músculo ao mesmo tempo. O impacto o fez girar levemente, quase perdendo o equilíbrio.

    — Argh! — gemeu ele, alto demais, bruto, involuntário.

    Gwen reagiu antes que os dois morressem. Assim que caiu no chão, a pistola já estava na mão. Deu um disparo limpo e direto. A cabeça do segundo homem estalou para trás — a parede ao lado foi pintada imediatamente de vermelho — e ele caiu sem sequer dar outro passo.

    — Que merda! — a voz de Gwen saiu tensa, mais alta do que o planejado. — Niko, puxa a gente pra fora logo!

    Ele tentou obedecer. Concentrou sua Alma no peito, sua vontade. Ativou a Alma como sempre fazia — aquela sensação familiar de se esticar para um local e alcançar o ponto marcado, de dobrar o espaço… Nada respondeu.

    A Alma parecia distante, abafada, como se estivesse sendo envolta em algodão grosso. Um enjoo violento subiu do estômago até a garganta, rápido demais para ser controlado. O mundo inclinou para a esquerda e depois para a direita. As paredes pareciam respirar. O chão se aproximou perigosamente.

    — Niko! Agora!

    Ele apoiou a mão boa na parede, tentando se manter de pé. A palma escorregou em algo úmido — sangue, talvez o dele, talvez do outro homem. Mas o homem não havia morrido do seu lado, e não havia sangue em suas mãos. Ele havia mesmo tocado em algo úmido? Por que essa sensação?

    — Eu… — a voz saiu falha, distante até para ele mesmo. — Não consigo.

    — Q-quê?

    Ela desceu o olhar para o braço ferido. A pele estava com um buraco nítido, encharcado, com o sangue escorrendo em um fio constante pelo antebraço. Sem pedir permissão, ela pressionou os dedos ao redor do ferimento, abrindo espaço suficiente para enxergar melhor.

    — GYAARRHH!!!

    Niko gemeu alto quando ela enfiou o dedo no buraco para sentir a profundidade da perfuração.

    — Fica parado! — ordenou ela, concentrada.

    Ela retirou o dedo devagar, analisando o sangue escuro que cobria a ponta. O cheiro era diferente. Não só ferro, também havia enxofre. Os olhos dela mudaram de foco e a compreensão veio na hora.

    — É a bala… — disse, firme, quase cuspindo as palavras. — Tinha Nullius.

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