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    O interior do duto de ventilação era mais estreito do que parecia do lado de fora. O metal estava frio contra a pele de Brigitte — um problema que Evelyn não precisava se preocupar —, e cada movimento produzia um eco oco que parecia alto demais para um lugar onde o silêncio era essencial. Poeira acumulada há anos se movia a cada avanço, entrando pelo nariz e arranhando a garganta delas.

    Evelyn vinha logo atrás de Brigitte, com o rosto levemente franzido, desviando o olhar de teias antigas presas aos cantos do metal.

    — Eu ainda acho que entrar por cima foi exagero. — murmurou a elfa, limpando a mão na própria calça depois de tocar em algo pegajoso. — A gente podia ter pensado em outra coisa.

    Brigitte continuou avançando, concentrada, os movimentos controlados apesar do espaço limitado.

    — Você mesma disse que dava pra ir por aqui, então não reclama.

    — Eu disse que dava porque você não parava de encher o meu saco falando que isso era igual missões de espião. — retrucou Evelyn, irritada. — E olha onde a gente tá agora. Rastejando feito ratos.

    O metal rangeu quando Brigitte apoiou o peso para avançar mais um metro.

    — Para de ser chata. Agora não é hora.

    Evelyn revirou os olhos, mesmo sabendo que a outra não podia ver.

    — Eu não tô sendo chata. Eu tô sendo realista.

    Brigitte parou por um segundo e virou o rosto apenas o suficiente para que a voz saísse mais direta.

    — Realismo não ajuda se você só reclama.

    Antes que Evelyn respondesse, um ruído diferente atravessou o duto. Não era o som constante de passos ou vozes distantes. Era algo irregular. Um impacto seco. Depois outro. E, entre eles, um gemido abafado. As duas congelaram. O ar pareceu mais pesado dentro do espaço apertado.

    O som veio de novo, mais claro agora que estavam em silêncio absoluto. Um impacto metálico, seguido por uma vibração que percorreu a estrutura do prédio e reverberou pelos dutos como um tremor distante. Depois, um gemido de dor — não alto, mas profundo o suficiente para atravessar o metal. Evelyn sentiu o estômago revirar.

    — Você ouviu isso…? — sussurrou, sem ironia pela primeira vez desde que entraram ali.

    Brigitte não respondeu imediatamente. O corpo inteiro dela havia ficado rígido. O som tinha um timbre específico. Não era um grito. Não era choro. Era uma dor contida. Silenciosa.

    Outro impacto. A estrutura vibrou levemente sob elas. Dessa vez o gemido veio mais claro, ecoando pelo sistema de ventilação.

    Brigitte avançou sem dizer nada, aumentando o ritmo. O metal reclamava sob o movimento acelerado, mas ela já não se importava tanto com o ruído. Evelyn precisou forçar o próprio corpo para acompanhá-la.

    Ao passarem por uma grade lateral, Evelyn olhou para baixo por instinto. Homens esfregavam o chão com baldes e rodos. A água estava turva, manchada de vermelho diluído. Próximo à parede, sacos pretos estavam empilhados de forma descuidada, alguns ainda deixando marcas escuras no piso. Evelyn desviou o olhar rápido demais.

    — Que merda… — murmurou, mais para si do que para Brigitte.

    Por favor, que você esteja bem, Niko”, pensou Evelyn.

    Elas alcançaram uma bifurcação no sistema de ventilação. O som vinha claramente do nível inferior agora, reverberando pelo metal com mais nitidez. O duto principal seguia em frente, mas um trecho vertical descia para o andar de baixo, ligado por uma abertura improvisada entre duas estruturas de ventilação.

    Brigitte se aproximou primeiro. O espaço não era exatamente uma escada — era mais um vão apertado, com chapas metálicas formando uma queda inclinada entre os dois níveis. Sem hesitar, ela girou o corpo, apoiou as mãos na borda e se soltou, escorregando pelo metal até o duto inferior. O impacto da aterrissagem foi abafado pelo próprio corpo. Evelyn veio logo atrás. Ela desceu com menos elegância, quase batendo o ombro na lateral do duto antes de conseguir se equilibrar novamente.

    O som de um golpe ecoou de novo, mais próximo agora. Alguns metros adiante, uma grade maior interrompia o caminho do duto. Ela se aproximou com cuidado, apoiando o peso para olhar por uma fresta estreita entre as lâminas.

    O que viu fez o sangue gelar. Niko estava preso à parede por correntes, com o corpo inclinado para o lado após um impacto recente. A barra de ferro subia novamente na mão da mulher de terno escuro. Ao fundo, Gwen estava caída ao fundo, manchada de sangue.

    — ISSO NÃO É ENGRAÇADO!

    A barra de ferro desceu outra vez. Niko ergueu o braço por puro reflexo. O impacto não atingiu diretamente o corpo desta vez. O metal encontrou resistência quando a mão dele fechou ao redor da barra, segurando o golpe antes que atingisse o peito.

    O choque percorreu os braços dele como uma descarga elétrica. A força ainda era absurda. Mesmo segurando o objeto, os músculos dele tremiam tentando impedir que o peso avançasse. A barra descia milímetro por milímetro, empurrada pela pressão constante dela.

    Valand olhou para o ponto onde as mãos dele seguravam o ferro. Nenhuma surpresa.

    — Larga isso!

    Porém, Niko não largou. Os dedos apertaram com mais força, como se estivesse desafiando a mulher. O metal frio escorregava por causa do suor e os braços dele tremiam cada vez mais. Por um segundo inteiro, os dois ficaram naquele impasse estranho.

    Então ela simplesmente apoiou uma perna na parede e puxou o objeto em um movimento rápido, quase violento. Um giro curto do pulso fez a barra escapar do aperto fraco de Niko. O ferro raspou nas mãos dele antes de voltar completamente para o controle dela.

    Niko tentou reagir, mas já era tarde. A barra subiu novamente, dessa vez acima da cabeça. Ela ia descer o metal direto no rosto dele.

    Antes que isso acontecesse, o teto explodiu. Um estrondo metálico rasgou o silêncio do banheiro. A grade do duto de ventilação foi arremessada para fora como uma tampa arrancada à força, batendo contra o chão com um barulho ensurdecedor. Uma rajada de ar frio invadiu o ambiente.

    Valand virou a cabeça no exato instante em que duas figuras despencaram do duto. A primeira atingiu o chão já em movimento. A sombra aterrissou com o peso distribuído nos pés, com o corpo girando imediatamente para absorver o impacto, ela avançou dois passos curtos e, antes que Valand tivesse tempo de reagir, o punho dela encontrou o lado da cabeça da mulher com uma precisão brutal. Valand cambaleou um passo e, antes que recuperasse o equilíbrio, a segunda figura já estava atrás dela.

    O ser de cabelos grisalhos deslizou para fora do duto com um movimento menos elegante, mas ainda rápido. Uma camada fina de gelo se formou instantaneamente sob os pés dela, impulsionando o corpo para frente, junto de uma grossa camada no punho direito. Ela preparou para seu golpe, um soco de baixo para cima. A base da mão atingiu a lateral do pescoço de Valand com força.

    O corpo da mulher perdeu a força imediatamente, caindo no chão junto de um gemido sem forças. A barra de ferro escapou da mão dela e bateu no chão com um eco metálico oco. O silêncio que se seguiu durou menos de um segundo.

    Niko ainda respirava pesado, o peito subindo e descendo de forma irregular enquanto a visão tentava se estabilizar depois dos golpes. Por um instante, tudo parecia desfocado. Ele piscou uma vez e as figuras começaram a ganhar forma: uma elfa de cabelos grisalhos. E uma humana de pele escura com longos duplos rabos de cavalo.

    — EVELYN! BRIGITTE!

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