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    O primeiro andar parecia um local completamente diferente do que era para ser. Os corredores agora estavam quase desertos, iluminados apenas por lâmpadas frias que piscavam em intervalos irregulares. O eco distante da luta acima — tiros isolados, estrondos elétricos e o estalo característico do gelo de Evelyn se formando — chegava abafado pelas paredes de concreto, como trovões distantes.

    A garota seguia alguns passos à frente, abraçando os próprios braços, guiando Gwen e Niko com movimentos cautelosos e tímidos.

    — É por aqui… — murmurou, com a voz ainda baixa, mas já menos trêmula que antes. — N- não é uma passagem que as pessoas usam muito. Quer dizer, só meu irmão sabe dela.

    Gwen caminhava ao lado de Niko, olhando para cada porta, cada interseção, como se esperasse alguma emboscada a qualquer segundo. O som de seus passos era controlado pela própria força da garota, mas ainda assim parecia alto demais naquele silêncio artificial.

    — Que tipo de passagem? — perguntou ela, seca.

    A garota hesitou um instante antes de responder.

    — É-é uma porta escondida. Meu irmão me deu a chave. — seus dedos tocaram o bolso do blazer de forma quase automática. — Tem um corredor atrás dela. E uma escada de mão. É bem apertado… mas vocês se acostumam.

    Ela deu um pequeno sorriso nervoso no final, como se estivesse tentando aliviar o próprio constrangimento por estar guiando estranhos pela base do próprio irmão. Gwen não sorriu de volta.

    — Que reconfortante. — disse, alto o suficiente para que a garota ouvisse.

    Niko apenas assentiu, mantendo os olhos no corredor à frente. O lugar parecia abandonado às pressas. Havia uma cadeira caída encostada na parede, um carrinho de limpeza no meio do caminho e uma porta entreaberta revelando um depósito vazio. Diferente de lá de cima, o ar ali tinha cheiro de produto químico barato misturado com concreto úmido.

    Viraram mais um canto — e quase colidiram com dois homens armados saindo de uma sala lateral. Os capangas congelaram por meio segundo, depois, sacaram suas pistolas, rápido.

    Vus dus, fèrmatz! — gritou o da esquerda. — Restir-!

    Antes que os dois subissem as armas completamente, Niko avançou, reduzindo a distância. No meio da investida, pegou sua longa foice das costas, subindo em um arco curto que atingiu o antebraço do homem mais próximo. O impacto desviou o cano da arma para o teto e cortou parte do polegar e médio do homem. A arma caiu no chão junto com os dedos dele.

    — ARGGHHH! — gritou o capanga, alto, enquanto o sangue escorria.

    Enquanto isso, Gwen mergulhou para o lado e sacou a pistola em um único gesto fluido. Quando o homem entrou na sua mira, disparou, simples. O segundo homem levou o tiro no ombro e girou contra a parede, tentando manter a arma levantada mesmo com a dor.

    Niko atingiu o bastão da arma em um golpe direto no peito do vilão. O ar foi arrancado dos pulmões dele com um som engasgado, e ele caiu de joelhos antes de desabar completamente.

    O primeiro tentou recuperar a arma caída, mas um chute preciso de Gwen em seus dentes o derrubou de lado. Enquanto o rosto do homem subia, Niko o acertou como se fosse um rebatedor e estivesse acertando uma bola de baseball. Ele caiu para o lado, saindo sangue pelo nariz e boca, com o corpo ficando imóvel.

    A única coisa que sobrou nesses segundos foi o silêncio. Apenas a respiração dos três e o zumbido distante do combate acima. A garota estava parada alguns passos atrás, com mãos apertadas contra o peito e os olhos arregalados.

    — E-eu… — começou, a voz falhando. — Eu não sabia que ainda tinha gente aqui…

    Niko limpou a lâmina na roupa de um dos homens antes de guardá-la nas costas.

    — Tá tudo bem. — disse para mantê-la calma. — Só continua guiando a gente para a sala.

    Ela assentiu rapidamente, como alguém tentando convencer a si mesma, e voltou a caminhar.

    Depois de alguns segundos, pararam diante de um trecho aparentemente comum da parede. Concreto bruto, ligeiramente mais limpo que o restante, mas ainda indistinguível para quem não soubesse o que procurar. A garota tirou uma chave de forma peculiar do bolso. Seus dedos não tremiam mais agora.

    — É… aqui.

    Ela levou alguns segundos para encontrar a pequena fenda escondida entre duas placas metálicas quase invisíveis. Quando finalmente encaixou a chave, precisou usar as duas mãos para girá-la.

    Um clique baixo ecoou dentro da parede e um mecanismo interno deslizou com um ruído abafado, um painel estreito se abriu para dentro, revelando uma parede de tijolos desgastados, com teias de aranha e poeira por todo o local. Um sopro de ar velho escapou da abertura, carregando cheiro de poeira, ferrugem e algo estagnado há muito tempo.

    Ao lado direito, havia um corredor estreito, iluminado por uma única lâmpada fraca no teto. Canos grossos percorriam pelas paredes e o chão era de concreto cru, manchado e irregular.

    A garota deu um passo para o lado, abrindo espaço para os dois.

    — É logo depois do corredor. — disse.

    Dessa vez, a voz da garota saiu plana, sem tremor e sem emoção — como uma gravação reproduzida por alguém que não entendia o significado das palavras. Era um tom deslocado.

    Niko entrou primeiro, por puro instinto. O espaço era apertado o suficiente para que seus ombros quase tocassem os tubos metálicos nas paredes. Gwen veio logo atrás, murmurando um xingamento quando uma válvula enferrujada raspou na manga da jaqueta.

    O ar ali dentro era mais frio. Mais pesado. Sem circulação. Cada passo produzia um eco curto, sufocado. E cada passo e barulho de metal era maximizado pelo eco.

    No final do corredor, uma abertura vertical se revelou — uma escada de mão presa à parede, subindo para um alçapão escuro no teto. Niko segurou a barra metálica. O ferro estava gelado, úmido, como se condensasse a própria respiração do lugar, enferrujado demais. Ele virou a cabeça para se certificar com a garota se aquele caminho era seguro.

    — Irmã do Valand, você t-

    Antes que terminasse a fala, viu que a garota estava atrás de Gwen, muito perto. Com o braço erguido e uma chave de fenda presa na mão, a ponta alinhada diretamente para a base do crânio dela. O rosto estava completamente vazio. Nenhum medo. Nenhuma raiva. Nenhuma hesitação. Apenas o movimento descendente começando.

    Niko reagiu sem pensar. Sua faca já estava voando pelo corredor antes mesmo de perceber que a havia sacado. Ao mesmo tempo, o ar à frente dele se distorceu e rasgou. No instante seguinte, surgiu ao lado de Gwen, fechando a mão com força sobre o pulso da garota, interrompendo o golpe a poucos centímetros do alvo.

    — LARGA ISSO AGORA!

    Mesmo assim, ela não largou. Os dedos continuaram fechados com uma força rígida, quase robótica. O olhar dela encontrou o dele. O dela era vazio, profundo, completamente alheio à própria situação. Já o dele era atento, raivoso, contraído, determinado com o próprio objetivo.

    Niko tentou arrancar a ferramenta, girando o braço dela para forçar a soltura, porém só houve resistência por parte dela. O garoto colocou mais força em sua mão. Quando percebeu, girou o braço da garota em um ângulo não natural. CRACK. Só houve um som seco, brutal no espaço confinado. O braço dela cedeu, torcido, mesmo assim ela não gritou. Não fez nenhum som. Apenas continuou olhando para ele. Frio.

    Antes que aquele momento continuasse, a irmã de Valand foi atingida por um soco de baixo para cima, com o pulso rígido, acertando diretamente o nariz da garota. O impacto produziu um estalo úmido, e o corpo dela foi lançado contra a parede estreita antes de deslizar até o chão, completamente inconsciente.

    Foi Gwen. Ela estava de olhos arregalados e cheios de ódio, rangendo e mostrando os dentes como uma animal feroz. Ela segurava o pulso que acabou de bater contra a garota, dando espasmo e suspirando alto.

    — SUA VADIA MENTIROSA! EU VOU TE MATAR!

    Gwen avançou, passando por Niko, contra a garota adolescente, fora de si. Assim que passou por ele, o garoto a segurou pelas axilas, impedindo o avanço.

    — Gwen, não!

    Ela tentou se soltar, tremendo de adrenalina.

    — Essa vaca ia me matar! — gritou, alto e pausadamente. — A primeira vez que eu confio nela, ela tenta ME-MATAR!

    — Eu sei.

    Gwen puxou a pistola do coldre — ao lado do peito — com um movimento rápido e preciso, estendendo o braço imediatamente na direção da garota caída. A arma tremia apenas o suficiente para denunciar a adrenalina ainda correndo pelo corpo.

    — Calma, por favor! — clamou ele. — A gente ainda precisa dela. Ela pode saber coisas que ninguém mais sabe. Matar ela não vale a pena.

    Gwen ficou alguns segundos sem abaixar a pistola, com o olhar duro alternando entre o rosto inconsciente da garota e as costas de Niko bloqueando a linha de tiro. A mandíbula dela estava tão cerrada que um músculo saltava na lateral do rosto. Por fim, soltou o ar pelo nariz em um sopro irritado e deixou o braço cair, a arma ainda firme na mão.

    Niko a soltou, depois de finalmente se acalmar.

    — Desgraçada sortuda… — disse, guardando a arma de volta no coldre. — Vai, me deixa passar. A gente não pode deixar ela aí.

    Sem mais palavras, Niko pegou as pernas enquanto Gwen levantava os ombros e os braços. O corpo era leve demais, imóvel como o de uma boneca quebrada.

    Subir a escada carregando alguém foi imediatamente difícil. O espaço estreito obrigava movimentos lentos e cuidadosos, e o metal rangia sob o peso adicional.

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