Capítulo 195 - Aceitação II
E, no próximo segundo, reapareceram. O mundo voltou de uma vez só — som, temperatura, peso. Um estalo seco ecoou no ar quando o espaço ao redor deles se estabilizou, como uma folha sendo rasgada e colada de volta em outro lugar.
Sentiram o cheiro primeiro. Metal, óleo velho e madeira úmida. Um traço leve de carvão queimado pairando no ar. O som veio logo depois. Um rangido constante de ferro tensionado, o eco distante de algo batendo contra trilhos, o sopro irregular do vento passando por estruturas abertas. Eles estavam no terminal — longe do centro, mas ainda nos trilhos.
A área de carga se estendia à frente deles, larga e quase vazia, cortada por múltiplos trilhos que se estendiam na escuridão. Os vagões alinhados formavam paredes de metal e madeira, alguns fechados, outros parcialmente abertos. Lanternas espaçadas iluminavam o local com luz amarelada, criando grandes espaços de sombra entre cada fileira.
Ali não havia trabalhadores. Nenhuma voz, nenhuma movimentação, nenhum sinal de atividade recente. A única luz próxima vinha de uma lanterna de latão erguida a poucos metros deles por uma figura de pele negra e dois extensos rabos de cavalo, era Brigitte.
— Até que enfim vocês chegaram.
Ela estava de pé ao lado de um dos vagões, com o corpo levemente inclinado para frente, como se estivesse pronta para se mover a qualquer instante. Pequenas faíscas violetas ainda estalavam ao redor do braço livre, desaparecendo aos poucos.
— Mas a gente chegou no momento em que você lançou o trovão. — retrucou Gwen.
— Se eu cheguei primeiro vocês se atrasaram. Essas são as regras. — rebateu, dando de ombros, mas logo voltando a seriedade.
Ela ergueu a lanterna um pouco mais alto, iluminando o número pintado na lateral do vagão ao lado. A marca era de tinta branca, levemente descascada. Com uma fonte seca, utilitária e sem vida, estava escrito: 417.
— Esse é o vagão de carga 417… O que a gente tá procurando.
O olhar de Evelyn percorreu o trem inteiro antes de parar no número. Depois subiu, analisando o restante da composição de vagões conectados, trilhos alinhados, tudo parado. Parado até demais. Ela franziu levemente o cenho.
— Por que ele ainda tá aqui? Já era pra ele estar no mínimo na próxima parada.
O vento passou entre os vagões, fazendo uma corrente de ar percorrer o espaço com um assobio baixo. Nenhuma resposta veio com ele. Brigitte deu de ombros, mas o gesto não tinha leveza.
— Quando eu cheguei já tava assim. Não teve nenhum sinal de saída.
Gwen deu um passo à frente, os olhos varrendo o ambiente com rapidez.
— E não tem ninguém…
As únicas almas vivas que estavam ali eram o grupo. Não havia nenhum carregador, nenhum guarda e, principalmente, nenhum sinal de embarque, somente o trem, juntando poeira.
Niko não disse nada. Os olhos dele estavam fixos no vagão à frente, como se todo o resto tivesse sido empurrado para fora da percepção. A mandíbula estava levemente tensa e o olhar mais estreito do que antes.
Isso não fazia sentido. O horário já tinha passado. O despacho tinha sido feito. O trem deveria estar em movimento. Não ali. Não assim. Não daquela forma. Algo tinha quebrado no fluxo esperado — não atrasado… interrompido. Mas ele não falou. Não desviou o olhar. Apenas deu um passo à frente. Depois outro.
— Niko— começou Gwen.
Quando a voz ressoou, ele já estava ao lado do vagão. A mão subiu até a lateral metálica. Os dedos tocaram a superfície fria por um instante, como se testasse se aquilo era real. Depois deslizou até a porta. Era pesada. Ele segurou a alça de ferro e puxou… Nada.
O metal não cedeu de imediato. Um ruído seco veio da estrutura, como se algo estivesse trancando a porta. Niko ajustou a postura, firmou os pés no chão e puxou novamente, agora com mais força.
A porta se abriu e junto veio um rangido. Um som áspero, arrastado, ecoando pelo local como se o próprio vagão protestasse contra aquilo. A porta deslizou alguns centímetros — o suficiente para liberar uma lufada de ar abafado, velho e parado.
Niko não recuou, nem sequer cogitou aquilo. Enfiou os dedos na abertura e forçou ainda mais. O metal cedeu de vez, deslizando lateralmente com um som prolongado até abrir espaço suficiente para entrada do grupo. A escuridão dentro do vagão engoliu a luz de Brigitte por um instante.
A ansiedade de Niko era tão grande que nem ao menos esperou, avançou sem hesitação e arrancou a lanterna dos dedos de Brigitte, em um movimento direto e automático. Ela não reagiu. Apenas soltou, acompanhando o gesto com o olhar, como se já esperasse aquilo — ou algo próximo.
Niko apoiou o pé com força, entrando em um salto. O primeiro passo ecoou alto, o vagão balançando ao estabilizar o peso do garoto. O segundo veio mais rápido. A luz avançou junto com ele, cortando a escuridão de todos os lados. As sombras recuaram, revelando estrutura, forma… ausência.
Eram gaiolas. Fileiras delas, presas ao chão por suportes de ferro grosso. Algumas estavam abertas, com portas de grades, de aço puro. Outras permaneciam fechadas, mas sem nada dentro.
Além disso, correntes saiam das laterais, algumas ainda presas às grades, outras jogadas no chão, enroladas de forma irregular. Uma argola estava quebrada. Outra parecia ter sido forçada até entortar.
Ele desceu a luz para o chão. Viu uma madeira gasta, marcada por arrastos. Havia linhas profundas onde algo pesado foi puxado repetidas vezes. Próximo de uma das gaiolas, um conjunto de marcas semelhantes a garras e dentes cerrados nas barras.
Niko se aproximou. A lanterna tremulou levemente na mão dele, mas o movimento não parou. A luz subiu novamente. Grades. Ele passou a mão por uma delas. Fria. Rígida. Irregular em alguns pontos. Os dedos deslizaram por um arranhão — não era recente, era antigo, seco demais. Virou. Apontou a lanterna para o outro lado. Mais gaiolas. Mais correntes. Mais nada. Nenhum corpo. Nenhuma presença. Nenhum vestígio fresco. Ele avançou mais para o fundo. O ar ali dentro parecia mais pesado a cada passo. Não havia vento. Nenhuma circulação. O cheiro era estático — ferro, madeira úmida, suor seco… e algo mais antigo, mais entranhado, que já não tinha forma definida. Parou no centro do vagão. Girou. A luz percorreu tudo outra vez. Mais rápido agora. Depois mais devagar. Como se o problema estivesse no ritmo. Como se olhar diferente fosse fazer algo aparecer. Nada. Ele deu mais um passo. Depois outro. Foi até o fundo do local. Encostou a lanterna na parede traseira e passou a mão pela superfície. Era a madeira sólida de antes. Sem abertura. Sem compartimento oculto. Sem nada. Voltou. A luz subiu pelas laterais, desceu pelas correntes, passou pelas bases das gaiolas, pelos cantos escuros onde a lanterna mal alcançava. Nada. Nada, nada nada. Nada e nada. De. Nada.
— …Não tem ninguém. — murmurou Brigitte, mais baixo do que o normal.
Gwen estava logo atrás, com o olhar percorrendo o interior com rapidez, parando em cada detalhe como se procurasse inconsistências.
— Sim, mas é inegável que isso aqui já foi usado. — disse, apontando com o queixo para as marcas no chão. — E não faz tanto tempo assim.
Evelyn veio logo depois. Não falou de imediato. Caminhou alguns passos para dentro, os olhos analisando tudo com precisão clínica.
— Mas não agora. — completou ela, passando os dedos de leve por uma das correntes. — Não tem nenhum sinal recente.
Silêncio. A lanterna continuava se movendo. Niko não parava. A luz passou por uma gaiola aberta. Ele se aproximou, abaixou levemente o corpo e iluminou o interior. O espaço era pequeno. Restritivo. Havia marcas nas laterais, como se alguém tivesse batido repetidamente contra as grades. Nada. Ele se levantou e foi para a próxima.
— Pode ser outro vagão. — sugeriu Brigitte. — Esse aqui pode não ser o certo.
— Não. — respondeu Gwen, sem hesitar. — O número bate.
— Então transferiram antes da gente chegar? — insistiu ela.
Niko já estava no fundo outra vez. A lanterna subiu pelas paredes, desceu pelas correntes, voltou para o chão. Ele parou por um segundo, observando uma mancha mais escura perto da base de uma gaiola. Abaixou. Aproximou a luz. Passou os dedos por cima. parecia sangue. Levantou de novo. Virou. Iluminou o teto. Nada.
— Ou nem chegaram a colocar alguma coisa aqui. — sugeriu Evelyn. — Quer dizer, você e o Niko foram pegos horas antes de isso aqui zarpar. Podem ter cancelado na hora.
— É, faz sentido. — concordou Gwen, acenando com a cabeça.
— Ótimo. — Brigitte soltou o ar pelo nariz. — Então mesmo se a gente não tivesse se atrasado, não ia ter nada aqui.
A lanterna passou pela mesma gaiola de antes. Niko abriu. Iluminou dentro. Nada. Fechou. Foi para a próxima. Depois voltou para a anterior. Abaixou de novo. Como se algo tivesse mudado. Como se agora fosse diferente. Nada.
— Então a gente já perdeu no momento que fomos capturados… — murmurou Gwen, esticando os braços acima da cabeça, o corpo ainda rígido. — Ótimo.
O estalo leve das articulações dela ecoou no vagão. Ela soltou o ar devagar, passando a mão pelo próprio pescoço, os olhos ainda vagando pelas gaiolas — mas sem foco real nelas. Já tinha aceitado, ou, pelo menos, decidido parar de tentar entender.
— A gente não ganha nada ficando aqui. — disse por fim, virando o corpo em direção à saída. — Tô saindo.
Os passos dela ecoaram pelo chão enquanto voltava para a abertura do vagão.
— É… — murmurou Brigitte logo atrás, com um meio suspiro frustrado. — Que merda.
Ela lançou um último olhar para o interior, como se ainda esperasse que algo saltasse dali no último segundo. Não aconteceu. Virou também.
— Niko. — chamou Evelyn.
Nenhuma resposta. Ele continuava movendo a lanterna.
— Niko.
Ele não parou. Passou por outra gaiola. Abriu. Iluminou. Fechou. Foi para a próxima.
— Niko. — dessa vez mais perto.
O feixe de luz tremulou levemente na mão dele. Mas o movimento não cessou. Evelyn deu mais um passo.
— Não tem mais nada aqui.
Nada. A luz percorreu o mesmo ponto no chão pela terceira vez. Subiu pela mesma corrente. Desceu pelo mesmo canto escuro. Como se recusasse aceitar o que já estava evidente. Como se bastasse procurar direito. Mais uma vez. Só mais uma.
Evelyn encostou a mão no braço dele. Firme. O movimento travou. A lanterna ficou suspensa no ar por um instante, antes de descer alguns centímetros. O silêncio voltou. Pesado. Denso. Ele não se virou. Apenas ficou ali. Parado.
A respiração começou a aparecer — irregular, curta demais, como se não estivesse entrando o suficiente. Os dedos apertaram a alça da lanterna. Depois afrouxaram. A luz caiu completamente de sua mão, fazendo um baque surdo e iluminando o chão vazio à frente.
Evelyn não disse mais nada. Não precisava. Niko puxou o braço de volta, devagar. Deu um passo para trás. Depois outro. Até encostar na lateral do vagão. O corpo inclinou levemente com o toque. Como se tivesse perdido o ponto de equilíbrio.
A mão subiu até o rosto. Depois a outra. Os dedos passaram pelos olhos, pela testa, descendo devagar. Pararam na altura da boca. A respiração falhou. Veio de novo. Mais curta. Mais rápida. As íris estavam contraídas. Fixas em nada. Ele permaneceu ali. Sem olhar para ninguém. Sem falar. Sem se mover. Sem fazer nada.

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