Índice de Capítulo

    Eles atravessaram a porta sem trocar uma única palavra. O bar estava cheio, mas não de um jeito caótico — era um movimento constante, denso, como se tudo ali já estivesse em andamento há horas. Conversas sobrepostas ocupavam o ar, risadas surgiam e desapareciam e copos se encontravam com a madeira do balcão em intervalos irregulares. A iluminação era baixa, concentrada em pontos específicos, deixando a maior parte do espaço em sombras.

    Niko não desacelerou quando entrou, não observou o ambiente, não reagiu ao barulho, nem sequer ajustou o caminho ao fluxo de pessoas. Caminhou em linha reta até o balcão mais próximo, escolheu um dos bancos vazios e se sentou. Por um instante, permaneceu ereto, como se ainda houvesse alguma intenção de se manter ali, presente.

    Então, no instante seguinte, a cabeça desceu e encontrou a madeira do balcão com um som seco, abafado pelo ruído ao redor. Ele não tentou corrigir a postura, nem apoiou os braços de forma confortável, deixou-os na mesa. Ficou como caiu, com o rosto parcialmente escondido pelo próprio braço, a respiração presa contra o tecido, imóvel.

    Gwen ocupou o lugar ao lado dele logo em seguida. O olhar passou rapidamente por Niko, não com preocupação explícita, mas como quem registra algo que já não precisa de confirmação. Ela não disse nada. Apenas puxou o banco e se sentou, apoiando o cotovelo no balcão.

    Brigitte veio logo depois, puxando o banco com mais força do que o necessário. Se sentou de lado por um momento, observando o ambiente como se a mente ainda estivesse em outro lugar, até finalmente se ajustar de frente para o balcão. Bateu os dedos de leve na superfície, um hábito mais ligado à inquietação do que à impaciência.

    Evelyn foi a última a se aproximar. Parou por um segundo atrás do banco, sem tocar nele, como se estivesse avaliando se aquilo valia mesmo a pena. Quando finalmente se sentou, o movimento foi direto, sem hesitação, decidida que aquele era apenas mais um passo necessário e não uma escolha.

    O bartender percebeu o grupo quase imediatamente. O homem loiro aproximou-se com a naturalidade de quem já repetiu aquele trajeto centenas de vezes na mesma noite. Quando parou diante deles, o olhar se fixou por um instante em Evelyn — talvez fosse pela postura ou pela tensão evidente no jeito como ela ocupava o espaço, mas ela parecia ser o melhor cliente dos quatro.

    Essa daí tem cara de que adora beber. Vou começar com ela”, pensou o rapaz atrás do balcão.

    Que volètz?

    Evelyn não respondeu de imediato. Não sabia o que foi dito, ao mesmo tempo, estava concentrada em outra coisa. Só depois de um segundo ela levantou o olhar, sem realmente encarar o homem.

    — Whisky. — disse a primeira coisa que lhe veio à mente.

    O bartender assentiu com um movimento curto de cabeça, já se virando para pegar a garrafa.

    Un còp, alora…

    Ele não terminou a frase. Pegou de trás um recipiente de vidro e um copo estilo On the Rocks. Assim que a garrafa tocou o balcão, ainda parcialmente sob controle dele, a mão de Evelyn avançou e arrancou o objeto do homem, ele largado por instinto. O homem engoliu saliva, surpreso, subindo o olhar até encontrar o dela — um olhar gélido, sem espaço para barganha. 

    …Ben, madama. Bona bevuda a vus.

    Evelyn não respondeu. Já estava girando a tampa de forma cotidiana. Assim que a rolha cedeu, ela não perdeu tempo em servir. Levou a própria garrafa à boca e inclinou o pescoço, deixando o líquido descer direto, sem pausa e sem qualquer tipo de preocupação em controlar o quanto estava ingerindo.

    O gosto forte não provocou reação visível. Nenhuma contração, nenhum desvio de expressão. Apenas mais um gole antes de afastar a garrafa, soltando o ar pelo nariz de forma curta, quase imperceptível. Em seguida, o fundo da garrafa encontrou o balcão com um som seco e firme, ficando ali, ainda sendo segurado por Evelyn.

    Ao lado, Gwen já havia apoiado o cotovelo na madeira, com o corpo levemente inclinado para frente, observando o movimento sem realmente se envolver com ele. Levantou dois dedos para o alto e disse, firme e claro:

    Cervèja.

    O bartender assentiu, rápido dessa vez, como se preferisse não prolongar qualquer interação com Evelyn. Puxou uma caneca de baixo do balcão, foi até o barril atrás de si, despejando o líquido escuro até  formar uma espuma espessa no topo. Colocou a bebida no balcão, entregando a esotérica.

    Os olhos dele demoraram um segundo a mais do que o necessário sobre ela. As tatuagens no braço chamavam atenção — não pelo desenho em si, mas por já ter visto isso antes. Sim, ele já tinha visto aquela garota antes. Não lembrava exatamente quando, mas lembrava da situação.

    Ela estava jogando cartas com um homem gigante, absurdamente musculoso. Ela já tinha vencido três ou quatro vezes seguidas. O tipo de sequência que não passa despercebida em lugar nenhum, muito menos ali. O homem começou a falar mais alto a cada rodada, xingando e acusando a garota de trapacear. Por pouco não virou briga.

    Ele desviou o olhar por um instante, voltando ao presente enquanto limpava a borda do balcão com o pano, como se aquele gesto ajudasse a encerrar o pensamento.

    Parece que ela fez amigos”, pensou.

    Gwen pegou a caneca com a mão, sentindo o frio da porcelana contra a pele antes de levá-la à boca. Deu um gole curto, sem pressa, apenas o suficiente para molhar a garganta, e então baixou a bebida novamente. O olhar, que havia se perdido por um instante na superfície turva do líquido, voltou devagar para o lado, repousando sobre Niko. Ele continuava na mesma posição. Nada havia mudado.

    O bartender acompanhou o movimento de Gwen por um segundo, seguindo a direção do olhar dela até encontrar Niko. Observou-o rapidamente, avaliando a postura caída, a ausência de resposta, o silêncio. Não parecia alguém que fosse pedir alguma coisa. Nem agora, nem tão cedo. Desviou então os olhos para Brigitte.

    Assim que percebeu o olhar do homem sobre si, fechou os olhos e abanou as mãos levemente.

    Ah… non, jo non volé ren. Molt gràsia, di tot mòde [Ah, eu não vou querer nada não. Muito obrigada de qualquer jeito]. — disse ela, simples e sem espaço para insistência.

    O bartender assentiu, aceitando a resposta sem questionar, e se afastou novamente, deixando o grupo entregue ao próprio silêncio no meio do barulho constante ao redor.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota