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    A garrafa fez um leve som oco quando inclinou pela última vez. Evelyn manteve o gargalo encostado nos lábios por mais um segundo, mesmo depois do último gole ter descido, como se estivesse esperando algo a mais dali, porém nada veio.

    Ela afastou a garrafa devagar, soltando o ar pelo nariz. Um sorriso curto surgiu no canto da boca — pequeno, mas visível. A presa saltada se destacou de leve quando os lábios se abriram.

    — Bem, essa bebedeira toda me deixou com uma dormência nas pernas… — murmurou, girando o ombro antes de apoiar as mãos na mesa e empurrar o corpo para trás. — Vou me esticar um pouco.

    Brigitte soltou um sopro leve pelo nariz, já se levantando também.

    — É, eu também.

    O banco se arrastou um pouco no chão ao ser afastado. O corpo respondeu diferente do esperado — um leve atraso nos movimentos, um pequeno desequilíbrio que foi corrigido sem esforço consciente. Evelyn esticou os braços acima da cabeça, alongando as costas, deixando escapar um suspiro baixo enquanto o corpo finalmente reagia ao álcool.

    — Se eu cair dura aqui, você me arrasta de volta pro balcão. — comentou, de lado, ainda com o braço erguido.

    — Se você cair, eu te deixo aí. — respondeu Brigitte, no mesmo tom, sem sequer olhar diretamente pra ela.

    Evelyn soltou um riso curto pelo nariz, começando a girar o corpo de volta, ainda meio lenta, meio solta. Foi nesse movimento que o olhar dela encontrou alguém. Parou no mesmo instante.

    Os olhos se estreitaram por um segundo, tentando confirmar. A poucos metros de distância, bem à frente dela, um homem loiro estava a encarando, como se a tivesse reconhecido antes mesmo de terminar o movimento. Os dois falaram ao mesmo tempo:

    — O que você tá fazendo aqui?! — apontaram um para o outro.

    O silêncio ao redor não mudou muito — o bar continuava barulhento, cheio — mas a atenção deles se fechou naquele ponto específico, como se o resto tivesse sido empurrado pra trás.

    Gabe foi o primeiro a reagir de verdade. O sorriso surgiu rápido em seus lábios, fácil, como se aquilo fosse exatamente o tipo de coincidência que ele adoraria encontrar.

    — Olha só… — ele abriu levemente os braços, aproximando-se sem hesitar. — Se isso não é destino me recompensando por boas escolhas, eu não sei mais o que é. Eu juro que não esperava que você estivesse aqui, Evelyn.

    Brigitte olhou de Evelyn para o homem que se aproximava, analisando em silêncio. Não havia tensão imediata no corpo dela — só uma avaliação curiosa.

    Atrás de Gabe, o resto do grupo começou a surgir com mais clareza conforme se aproximavam. O primeiro era um homem grande, musculoso, cabeça raspada, barba espessa cobrindo boa parte do rosto. Jakob. 

    Um pouco atrás, quase deslocado daquele conjunto, vinha um rapaz pálido, magro, usando um sobretudo pesado e um cajado, sendo usado como apoio constante. Matteo.

    E então, por último, a menor do grupo. Uma garota de orelhas de gato parou por um segundo ao lado de Gabe, mas não olhou pra ele. Os olhos grandes, atentos, passaram direto por Evelyn… até encontrarem os de Brigitte. Era Tsugumi.

    — Então… — Gabe continuou, inclinando levemente o corpo, como se retomasse uma conversa interrompida há pouco tempo. — Vai me dizer que você também resolveu virar guarda-costas de festival agora? Se fosse isso, podia ter falado com a gente.

    Evelyn ainda estava olhando pra ele, com o sorriso pequeno ainda preso no canto da boca, mas com outra leitura agora.

    — Na verdade não. — respondeu, simples. — Tô só ajudando um amigo.

    Gabe inclinou a cabeça de leve, curioso.

    — Amigo, é?

    O olhar dele se perdeu por um instante, como se estivesse passando por algumas possibilidades rápido demais pra qualquer uma fazer sentido. Estava se perguntando quem seria esse tal “amigo”.

    — Amigo, amigo, amigo…

    Então parou. Os olhos voltaram direto pra frente e um sorriso torto surgiu no rosto dele.

    — Ah. O chifrudo.

    Evelyn soltou um pequeno sopro pelo nariz, virando levemente o corpo e apontando com o polegar por cima do ombro.

    — É. Tá bem ali.

    O gesto foi despreocupado, quase automático. Gabe acompanhou o movimento da garota e seu olhar encontrou Niko, com a cabeça ainda apoiada no balcão, de corpo imóvel. Teve um segundo de silêncio naquele bar. Gabe inclinou um pouco o rosto, analisando.

    — …Ele parece meio acabado.

    — Pois é… — comentou Evelyn, entre casualidade e pena.

    Gabe ainda manteve o olhar sobre Niko por mais um segundo, como se estivesse tentando extrair alguma leitura dali, mas não encontrou muita coisa. Soltou o ar pelo nariz, curto.

    — …Bom.

    O tom mudou rápido demais pra parecer brusco, mas não o suficiente pra ser ignorado. Ele afastou o olhar, batendo levemente as mãos uma na outra, como se estivesse encerrando aquele tópico por conta própria.

    — MAS, enfim. — continuou, abrindo um sorriso fácil de novo. — Como dá pra ver, a gente tá aqui por causa do festival. Mais especificamente um trabalho de segurança.

    O corpo já tinha voltado ao ritmo habitual, mais solto, mais leve, como se aquela breve pausa não tivesse peso nenhum.

    — Como é uma data de muita comemoração, bebida, distração, vinda pra capital… — ele deu de ombros. — Enfim, é o cenário perfeito pra alguém tentar fazer besteira. E foi por isso que chamaram a gente.

    — Na verdade, a gente que solicitou esse trab-

    Gabe se moveu rápido, quase automático. A mão dele veio por trás, tampando a boca de Matteo antes que ele terminasse a frase, puxando levemente o homem para o lado sem nem olhar diretamente pra ele.

    — Já que as tensões entre Arvallia e Lumira estão mais tensas do que nunca, — continuou, como se nada tivesse acontecido — os oficiais de Daurlúcia imploraram de joelhos pra que o melhor grupo de mercenários ajudasse eles.

    Matteo soltou um som abafado de protesto contra a mão dele.

    — Eles têm sorte que a gente aceitou o trabalho.

    Evelyn soltou um pequeno sopro pelo nariz, desviando o olhar por um instante, com uma expressão clara de “lá vem ele”. O canto da boca subiu de leve, quase involuntário. Ao lado, Brigitte deixou escapar uma risadinha curta, mais pelo teatro do que pela fala em si.

    Matteo finalmente conseguiu se soltar, afastando a mão de Gabe com um certo esforço e puxando um pouco de ar, ajustando os óculos com uma irritação contida.

    — Extremistas, grupos independentes, fanáticos… escolhe o nome que quiser. — disse, recuperando o fôlego. — Sempre aparece alguém querendo transformar um momento de felicidade em tragédia.

    Jakob soltou um pequeno riso pelo nariz, descruzando os braços só pra estalar os dedos antes de voltar à mesma posição.

    — E a gente tá aqui pra garantir que eles não consigam aterrorizar ninguém.

    Evelyn apoiou uma das mãos na cintura, inclinando levemente o corpo pro lado. O sorriso que estava ali antes já tinha diminuído um pouco.

    — Hm. — ela soltou, pensativa. — Já a gente tá lidando com outra coisa.

    Gabe ergueu uma sobrancelha, curioso.

    — É?

    — Tráfico sapiente. Estamos procurando por um dríade.

    A resposta veio direta, sem rodeios. Por um instante, ninguém falou nada. Não foi um silêncio pesado — mas foi suficiente para marcar a diferença.

    Matteo ergueu o olhar de leve, mais atento. Jakob parou de mexer os dedos. Até Gabe, por um segundo, perdeu o ritmo leve que vinha mantendo.

    — …Interessante. — ele murmurou, inclinando um pouco a cabeça.

    O sorriso voltou, mas diferente. Menos brincadeira. Mais interesse real.

    — Enquanto todos ficam preocupados com o festival, esse tipo de coisa acontece… — continuou, olhando de relance na direção de Niko antes de voltar pra Evelyn. — Quem diria que esse é um festival cheio de segredos.

    — A gente interceptou um transporte. — disse Evelyn. — Mas ele tava vazio. Sem o dríade, sem capanga, sem maquinista… Nada.

    O olhar dela desviou por um segundo. Não pra Niko — mas para bem ao lado dele.

    — O garoto ainda tá por aí.

    Gabe acompanhou o movimento com os olhos, mais atento agora do que antes.

    — É um amigo do chifrudo?

    — Não… Na verdade, eu não sei dizer bem ao certo.

    — Uhm… —  murmurou, coçando a barba rala com os dedos.

    Gabe ficou em silêncio por um momento, como se estivesse encaixando as peças. O sorriso voltou devagar, mas agora com um leve traço de decisão por trás.

    — Bom… — ele disse, abrindo os braços de leve. — parece que a noite ficou mais interessante do que eu esperava.

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